Daniel Piza em entrevista ao SPlural (ano de 2008)

Daniel Piza tinha 41 anos - Arquivo/AE
Tácito, amigos, em dezembro do ano passado o jornalista escritor Daniel Piza seguia para uma outra dimensão. Mexendo em minhas coisas, meus arquivos, reencontrei a entrevista que fiz com ele em 2008. Trouxe-a, agora, como uma forma de homenageá-lo, mesmo que tardiamente. Também é uma forma de homenagear os 5 anos do SPlural.
◊◊◊
Eis a entrevista. Confiram a atualidade de alguns temas e respostas:

L.O. Daniel, por que você largou o Direito pelo Jornalismo?

D.P. O curso de Direito é interessante nos dois primeiros anos, porque tem Filosofia, Teoria do Estado, Economia, etc. Mas depois passa a ficar técnico demais, “juridiquês” demais. Nosso sistema jurídico é inacreditável por seu formalismo e anacronismo. Cheguei a estagiar por um ano num bom escritório, mas só serviu para que eu enxergasse o óbvio. Eu escrevia textos para o jornal da faculdade – ensaios, poemas, artigos – e um dia o editor me perguntou por que eu não os mandava para jornalistas que admirava. Mandei. Os jornalistas responderam, e passei a colaborar com resenhas. No quarto ano da faculdade eu já trabalhava full-time na redação do Estado. Eu já sabia desde os 14 anos que minha vocação era escrever, mas demorei um pouco a saber qual era o caminho. Ainda bem que deu tempo!

L.O. Evidentemente, a decisão foi acertada….

D.P. O jornalismo pode massacrar a vocação literária, mas no Brasil ainda é um dos melhores meios para realizá-la, desde que você tenha consciência do que quer e persista em atingi-lo. Sempre lutei para ter minha voz, minha liberdade, e não me conformei em fazer materiolas burocráticas. Me impus a tentativa de praticar todos os gêneros. Passei por todos os cargos, escrevi em todos os cadernos. Mas também desde o começo me envolvi com o mundo editorial, como tradutor e organizador, depois como autor. Isso significou muitas horas a menos de sono e lazer. Não me arrependo.

L.O. Que linhas você abraçou de logo no jornalismo, até chegar às suas opções atuais? Houve percalços ou você teve espaço prontamente?

D.P. Houve percalços, claro. Há muita pressão nas redações para que se encare o jornal diário como uma linha de montagem. E muita gente convive mal com a opinião crítica, ainda mais quando vinda de um jovem de 20 e poucos anos… Fui demitido duas vezes por pisar nos calos dos amigos da chefia. Por outro lado, nunca fui apenas um crítico de arte ou literatura. Sempre fui repórter e desde os 23 anos assumi cargos como editor; hoje sou ainda colunista de futebol e trabalho em rádio e televisão. Quem antes me xingava hoje me convida…

L.O. Daniel, como é – para você que já escreveu e escreve sobre o assunto – verificar que, num país em que há um verdadeiro fanatismo pelo futebol, pouco se escreveu (do ponto de vista literário) sobre o tema?

D.P. Curioso, né? Os ingleses cultivam o “sportswriting”, os americanos têm clássicos de ficção e não-ficção sobre esportes como beisebol e basquete. No Brasil, com exceção de Nelson Rodrigues, que não era jornalista esportivo e sim cronista e dramaturgo, escrever sobre o assunto sempre foi tido como “menor”. Nossos intelectuais são esnobes, academicistas. Preferem tratar de assuntos que não interessam a quase ninguém. E nossos ficcionistas não entendem o poder dramático do futebol. Nem mesmo Nelson o levou para a ficção. Mas aos poucos tudo isso parece estar mudando.

L.O. Você nasceu em 1970. Portanto, não viu a copa daquele ano. O que de mais interessante você viu, com os próprios olhos, no futebol?

D.P. Minha geração é a do trauma de 1982. Eu adorava Zico e, como bom corinthiano, Sócrates. Vi jogos do Corinthians no Pacaembu que não esqueço. Maradona também me fazia acompanhar o futebol argentino e italiano. E tenho orgulho de ter sido dos primeiros a exaltar Ronaldo, campeão de 2002. Nos bons tempos, bastava ele pegar na bola para o estádio ficar em pé, esperando algo extraordinário acontecer.

L.O. Sobre o ofício da tradução, quais os grandes aprendizados que você teve? Você já caiu em alguma armadilha lingüística?

D.P. Não tem livro que não tenha uma dúzia de erros, ou coisas que hoje você faria diferente. No momento revejo a tradução que fiz dos ensaios de Henry James e estou concentrado em torná-la mais simples, porque James induz a uma escrita sinuosa que no português nem sempre funciona. Mas, de resto, gosto do que fiz principalmente com H.G. Wells e Herman Melville, este de difícil tradução. Com o ofício aprendi a ver a estrutura ampla de um livro, para além do fôlego dos textos jornalísticos. E aprendi que o problema da maioria das traduções não é não saber o idioma estrangeiro, mas não ter ouvido para seu próprio idioma… Pena que seja um ofício tão mal pago.

L.O. Até que ponto é permitida a traição em tradução?

D.P. Só naquelas passagens em que a tradução direta realmente não é compreensível. Aí há diversos recursos de texto, de reescrita, que valem. Na poesia o índice dessas situações é bem maior, claro. Mas acho absurdo que, em nome de “transcriações”, o sentido do original seja distorcido a ponto de desaparecer, ou que o resultado em nosso idioma seja ilegível…

L.O. Quem são os grandes tradutores deste país no momento? O que lhes dá distinção?

D.P. Paulo Henriques Britto, Modesto Carone, Bernardina da Silveira. Enfrentam autores muito complexos e se saem bastante bem.

L.O. Daniel, em que a internet transformou (ou poderá vir a transformar) a literatura e o mundo literário?

D.P. Antes de mais nada, como campo de testes para talentos literários. Antigamente era preciso esperar anos e anos para divulgar seu trabalho em algum suplemento. Hoje basta criar um endereço na Web e mandar bala. Há quem ache que a literatura ficará mais fragmentária ou adotará mais recursos não-verbais, como fotos e desenhos. Mas como explicar o sucesso de um tijolaço como Harry Potter? Há lugar para tudo, e cada vez mais!

L.O. Você vislumbra efeitos consideráveis sobre o jornal impresso?

D.P. Os jornais terão de se concentrar mais no trabalho de edição e análise, pois já não são as fontes primárias ou mesmo secundárias de informação factual. Mesmo assim, estão se saindo bem do processo: os maiores sites jornalísticos são aqueles feitos pelos grandes jornais e revistas em papel… Credibilidade se transfere.

L.O. E sobre o livro impresso? Inclusive, sobre este avançam outras tecnologias. Você mesmo gravou um áudiolivro…

D.P. Audiolivros existem há muito tempo. Em países como a Alemanha é comum o sujeito ir para o trabalho ouvindo um livro no carro. Eu sempre ouvi, especialmente gravações de poesia por grandes atores ou autores de língua inglesa. Hoje vivemos a pulverização das mídias; há até poesia para celular… Mas nenhuma vai matar a outra. Todas irão conviver, embora transformadas.

L.O. Daniel, o que você descobriu de mais relevante ao biografar Machado de Assis?

D.P. Que os dois Machados dominantes na visão brasileira são incompletos. O Machado dos membros da ABL é um sujeito sem graça, um esteta que mal falou sobre sua sociedade. O Machado dos intérpretes marxistas é um crítico social, quase um porta-voz das classes dominadas do século 19. Machado não é nem uma coisa nem outra. Era um crítico da humanidade, especialmente da religião, e no Brasil em que viveu mostrou as ilusões de todas as classes. Também descobri que muitos fatos não passavam de especulações. Não se sabe se ele foi coroinha, quem namorou antes de Carolina, onde estudou, quando teve a primeira crise de epilepsia. Os biógrafos do passado fantasiavam muito.

L.O. Sua experiência com jornal, televisão e rádio tem contribuído com aquela do escritor?

D.P. Muito. Conseguir me comunicar em diferentes suportes e registros aumenta a consciência sobre minha expressão verbal. Em vez de me dispersar ou me deixar rendido ao palavra-puxa-palavra, me torna mais eficiente, mais sintético. Dou valor à síntese, mesmo num livro de 400 páginas.

L.O. O que almeja no campo literário?

D.P. Ainda tenho o desafio de publicar um romance adulto. No momento faço um livro de contos. E tenho alguns projetos de novos ensaios e biografias.

L.O. Você acaba de chegar da China. Como foi a sua experiência de cobrir as olimpíadas de Pequim? Sob que ângulos se deu a cobertura?

D.P. Não cobri exatamente os Jogos, mas o momento de transformação pelo qual o país passa. Foi fascinante. Fui a seis cidades e escrevi mais de 50 textos sobre aspectos culturais, econômicos e comportamentais. E as viagens me nutrem muito intelectualmente: a cabeça dispara idéias a todo momento.

L.O. O que se pode esperar daquele país?

D.P. Eles não brincam em serviço… Colocam metas e as cumprem. Os desafios são enormes, mas admiro essa capacidade de trabalho e não acho que se possa explicar exclusivamente pela questão do autoritarismo. Eles sabem o que lhes falta. Investem muito em infra-estrutura e educação.

L.O. E do Brasil?

D.P. O Brasil precisa justamente acordar para isso. Ser mais pragmático, investir naquilo que realmente interessa. Sair dessa posição “estamos quase lá”, porque na verdade falta muito! Não existe nada no DNA brasileiro que o condene ao atraso. Mas essa complacência com o atual estado das coisas torna tudo mais lento e confuso. Violência, ignorância e corrupção atingiram graus obscenos, mas parece que são “acidentes de percurso”… Nossa intelectualidade prefere exaltar a alegria, a miscigenação e outros traços simpáticos em vez de enxergar a dura realidade.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo