‘Daqui não sai mais um ovo’

Por Monica Manir
Foto: Júnior Santos
ESTADÃO

Depois do racha no Instituto de Neurociências, cientista se nega a abrir o bolso para uma nova parceria

Se você é um rato de laboratório, talvez saiba o que significa um labirinto em cruz elevado. Se não frequenta o lugar, aí vai a explicação. O labirinto em cruz elevado é uma estrutura de quatro braços que fica a uns 50 centímetros do chão. Dois desses braços são fechados, ou seja, têm paredes. Dois são abertos, como uma ponte sem corrimão. O labirinto em cruz elevado serve para variados fins, e um deles é avaliar a decisão do animal numa encruzilhada da vida. O bicho pode se atrever a galgar o braço aberto atrás de melhor recompensa. Ou se restringir ao braço fechado em busca de um retorno menor, porque não é o caso de correr riscos. Não naquele momento.

Em julho, dez pesquisadores de neurociências de Natal optaram pelo braço aberto e criaram um novo instituto na cidade, o Instituto do Cérebro, numa casa no bairro da Lagoa Nova antes ocupada por uma clínica de acupuntura. Para um deles, o mais moço, a recompensa tem um nome: previsibilidade. “A gente sabe que tem o desafio de montar as coisas, mas pelo menos há um planejamento lógico”, diz o médico carioca Marcos Romualdo da Costa, de 31 anos. “Lidar com uma pessoa extremamente imprevisível é muito angustiante.”

A pessoa em questão é o neurocientista Miguel Nicolelis, 50 anos completados em março, o primeiro brasileiro a ter artigo publicado na capa da Science, um dos 20 maiores cientistas do mundo da década passada na avaliação da revista Scientific American, ganhador do Prêmio Pioneer 2010 do Instituto Nacional de Saúde para Pesquisas Pioneiras, coordenador de um grupo de pesquisadores na Universidade Duke, em Durham (EUA), que busca integrar o cérebro humano às máquinas, diretor do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, que tem como uma de suas propostas a inclusão social de crianças da periferia de Natal, e presidente da Comissão de Estudos do Ministério da Ciência e Tecnologia, que visa a traçar os rumos da ciência no País. Pronto!, como dizem os potiguares. Está feito. É currículo pra mais de quilômetro, que ainda pode ganhar mais envergadura com o anúncio do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em anos vindouros. Porque, afinal, este é um aposto clássico a Miguel Nicolelis, que ele não nega, nem consente: candidato virtual ao Nobel.

E ainda tem o índice-H de Miguel Nicolelis, que, diz ele, bate a casa dos 50 (na base de dados Scopus, porém, é de 40). Enfim, o índice-H, ou h-index, mede quantas vezes o trabalho de um cientista foi citado por outros na literatura mundial. Um pesquisador de H=10, por exemplo, teve 10 trabalhos seus citados 10 vezes. “Um índice 10 é muito ruim, é o cara que acabou o pós-doutorado, no máximo”, diz Nicolelis. O H da questão é que, numa reunião com os dez pesquisadores em setembro passado, ele disse que o currículo do grupo tinha um índice da idade da sua sobrinha de 5 anos. “Eles não têm massa crítica como instituto, ninguém ali tem um índice-H maior que 15, há quem tenha índice 2”, diz Nicolelis, a comida esfriando no prato e o suor vazando por baixo do boné do Palmeiras.

Dois dias antes, sentados na varanda da casa alugada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Sidarta, Sergio, Antônio, Rodrigo, Adriano, Dráulio, Marcos e Claudio expunham seus motivos para a debandada. Dois deles, Kerstin e Richardson, estavam ausentes. E eis que surge o índice-H como uma das pitadas de fel na relação. “Nosso age factor, para a nossa idade, no Brasil, é bastante alto”, diz o biólogo Sidarta Ribeiro, ex-diretor do IINN, que foi orientando de Nicolelis em Duke. “Ele pegou pessoas com uma produtividade bem acima da média, que largaram carreiras internacionais ou que tinham carreiras nacionais estabelecidas, para se estabelecer aqui e segurar o rojão”, completa.

Sidarta se refere a uma das propostas do IINN, em parceria com a UFRN, de repatriar cérebros pulsantes e descolar para o Nordeste brasileiros do Centro e do Sudeste, gente que queria fazer ciência de ponta aqui. Em 2003, Nicolelis aceitou que seu nome fosse usado em anúncios da <CF742>Nature e da Science para recrutar professores. Trinta e cinco vieram, atraídos por sua liderança e por um enxoval de R$ 500 mil, usado nos laboratórios. Na época, a proposta era de que se criasse, dali a um tempo, um departamento na Federal para abarcar a população acadêmica, que crescia ano a ano com mestrandos, doutorandos, pós-doutorandos e alunos de iniciação científica. Enquanto isso, vivia-se uma situação híbrida: professores concursados pela universidade trabalhavam sob a égide de uma instituição privada pilotada por Nicolelis, a Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP), Organização de Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) que capta e administra recursos públicos e privados.

Entre esses recursos há dinheiro do MEC, da Agência Financiadora de Projetos (Finep), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Fundação Edmond J. Safra, da Duke e do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo. Na conta de Nicolelis, a proporção é de 70% privado para 30% público, sem revelar exatamente o valor de cada porção. Já na ponta do lápis dos professores são quase R$ 57 milhões só em moeda do governo.

Enquanto as coisas estavam nos eixos, as coisas estavam nos eixos. “Mas, à medida que os professores começaram a chegar, ele passou a dizer ‘não vou pagar a pesquisa de ninguém’”, diz Sidarta. “Ficou claro, pelas reuniões que tive com o Miguel, que a vinda de novos alunos e professores aumentaria o gasto com água, luz, segurança e que, na visão dele, esse custo não estava sendo coberto”, replica o biólogo Claudio Queiroz. Os professores sugeriram que a universidade arcasse com o custo. Então ficou acordado, em agosto do ano passado, que a UFRN pagaria ao IINN R$ 45 mil por mês. Mas, de acordo com Sidarta, perto do final da parceria não havia mais dinheiro para comprar luvas e álcool, e muitos equipamentos continuavam em caixas fechadas, sob o argumento de que existia um plano de ocupação que não implicava instalação de todos eles.

Do contrato também constava uma cláusula: a universidade entregaria uma lista com 95 nomes, os únicos autorizados a frequentar o instituto. A lista não era elástica. Para entrar alguém, outro precisava sair. “Naquela rua esburacada de Natal, um convidado estrangeiro teve o desprazer de ser barrado para assistir à palestra de um colega porque, apesar de eu pedir uma semana antes que não houvesse constrangimento, ele não constava da lista”, lembra Sidarta. Por causa do rol fechado, o biólogo teria orientado aluno na casa do próprio ou na Toca do Açaí, lancheria em Ponta Negra. “Era um instrumento coercitivo, extremamente burocrático e burro”, caracteriza o médico Sergio Neuenschwander.

Nicolelis enterra novamente o boné. A “lista kafkiana”, na perspectiva acadêmica, lhe parece natural. Era necessário saber quem entraria no prédio. “Temos equipamentos, propriedade intelectual, segurança, um monte de coisa.” Quanto às luvas faltantes, não usa as de pelica para se explicar. “Nós podíamos usar o recurso para qualquer coisa, mas usamos para manter as condições de trabalho deles”, afirma. “Só que eles acharam que estavam na Harvard, que tudo estaria à disposição instantaneamente, porque eram os príncipes. Não tem príncipe aqui, eu não sou príncipe aqui. Se eu tivesse conseguido US$ 50 milhões para uma universidade americana, como consegui para esta, tinha uma estátua na entrada da universidade.”

Antes do almoço, Nicolelis havia feito um tour social com a repórter, que tratou por senhora do início quase ao fim. Passamos pelas duas unidades da Escola Alfredo J. Monteverde (nome do segundo marido de Lily Safra), uma em Natal e outra em Macaíba, a 20 km da capital, consagradas pela educação científica que oferecem a alunos de escolas públicas. Seu último livro, Muito Além do Nosso Eu(Companhia das Letras), concorria com o Houaiss sobre as bancadas.

A respeito do envolvimento dos professores com a missão social do projeto, mais uma farpa: “Esses caras nunca deram atenção ao Cientistas do Futuro, não tinham interesse em colocar essas crianças em seus laboratórios, era muito trabalho para eles”. O troco já tinha sido antecipado. “O projeto de educação da AASDAP sempre foi inacessível, éramos vistos como competidores”, disse o engenheiro Antônio Pereira:. “A gente não podia participar”, afirmou Sidarta. “E o aluno que está fazendo pós-graduação? Ele está mais próximo de ser o cientista do futuro e não recebeu nenhuma ajuda”. Mexendo o suco, a colher batendo no copo, Nicolelis enumera: “Veja, eu já formei 45 pós-docs, foram quase 20 teses de doutorado em 30 anos de carreira na Duke. Meus alunos estão nas melhores universidades do mundo: Princeton, Yale, Berkeley. Eu formo gente para ser spalla da Orquestra de Berlim, entendeu? Não formo gente para jogar no XV de Jaú”.

No Centro de Pesquisas de Macaíba, conhecido como Macaibinha, vigorava o inglês numa roda de cientistas. “Nice to meet you” para o canadense Edward Tehovnik, “Hola” para o chileno Romulo Fuentes, os dois únicos Ph.Ds. que constam da página do IINN. Em salas menores, “hellos” para profissionais de Duke e “olás” para meninos do Cientistas do Futuro, que ficavam de butuca, tentando entender os convidados. Nessa semana, Nicolelis anunciou a entrada de 31 profissionais no instituto, 28 deles, estrangeiros.

A caminho do Macaibão, o futuro Campus do Cérebro (não confundir com o Instituto do Cérebro), Nicolelis lembra que aquela estrada não era nada, que há alguns anos subiu com carro de boi ao lado do filho mais velho para atingir o terreno em que hoje se ergue a megaconstrução. O campus tem três edificações maiores – a escola, o centro de pesquisa e um centro de esportes -, planejadas sob os auspícios de verba federal. A menina dos seus olhos azuis é a escola, desde já com o nome da sua avó, Lygia Maria Rocha Leão Laporta, a quem ele dedica oito páginas devocionais de seu livro. Há uma planta na parede dos barracões mostrando como ficará o centro de ciências, para o qual os pesquisadores do Instituto do Cérebro pretendem migrar daqui a dois anos. E há uma sala da direção. “O diretor será da UFRN”, diz a reitora Ângela Paiva, empossada há três meses. “No meio acadêmico os conflitos são muito naturais, já enfrentei polêmicas muito mais complicadas, que depois se diluíram com o tempo e à medida que novos membros se juntam às equipes”, abafa o ex-reitor Ivonildo Rêgo.

Para os dez do Instituto do Cérebro, uma convivência tête-à-tête com o antigo líder não parece exatamente possível. “Ele antagonizou as pessoas de uma maneira irracional, autocrática, coercitiva, que inspirava medo; a gente foi muito maltratado durante anos”, sintetiza Sidarta. Para Nicolelis, voltado para as pesquisas com o exoesqueleto que viabilizaria a caminhada de um tetraplégico, a colaboração com esse grupo chegou ao fim. “Eles que se ocupem em ganhar dinheiro, em arrumar equipamento. Daqui não sai mais um ovo. É um pessoalzinho que precisava crescer, deixar de ser mimado, estão precisando de colinho de mamãe. Eu não tenho isso para oferecer. Preciso fazer alguém andar. Ciência não é assim, me desculpe.”

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