Das alças de François Silvestre

O mais novo livro do escritor e advogado François Silvestre, As Alças de Agave é, antes de um arcabouço descrente quanto à política praticada no Rio Grande do Norte ou um esclarecimento pessoal do episódio do Foliaduto, um amontoado de metáforas geniais e um registro de costumes sertanejos. Mais ainda: é um olhar sobre a condição humana. Livro gostoso de se ler, mesmo de temática tão pesada.

Não é de longe uma obra literária comparada, por exemplo, com A Pátria Não É Ninguém – livro anterior de François e a qual reputo uma das melhores já escritas no Estado. Sem medo do exagero ou das críticas. Mesmo do próprio François, avesso a elogios. O próprio ressalta nos primeiros dizeres ser o novo livro “fruto de uma triste circunstância”. É mais do que isso.

Por vezes o livro parece mesmo um desabafo, sem apreços literários. Coisa de quem não quer apresentar uma obra para ficar marcada nos anais da literatura potiguar. Mas há passagens fantásticas como a descrição da caça ao mel, feita por ele e Alexandrino, seu irmão. O primeiro capítulo, homônimo ao livro, é um primor. Mas a impressão é de que François escreveu – e muito bem – um livro às pressas, ou apenas para explicar e contextualizar o famigerado episódio do pagamento de bandas fantasmas.

Para retratar os bastidores da política e campanhas eleitorais, François cria comparações elucidativas com a mitologia grega, Shakespeare; com ditos e hábitos sertanejos… O cargo de presidente da Fundação José Augusto ele chama de “carne de pescoço”. O capítulo anterior, “O Pato do Gavião” é uma ironia fina e também uma metáfora ao processo eleitoral que culminaria com a vitória de Wilma de Faria ao governo do estado.

O livro é todo ele um olhar de quem viu e presenciou tudo o que escreveu. É uma olhar, também e, sobretudo, do caráter humano, demasiado humano, aplicado à política. E por isso tamanha hipocrisia, escárnio e ganância descritos; tamanha mágoa e decepção com os ditames do processo eleitoral e político.

Posso classificar o sentimento de François quanto ao seu período como gestor da FJA como “decepção” sem muita propriedade, ou quase que apenas a partir das palavras contidas no livro. Mas tive algum contato com ele quando trabalhei na revista Preá. O editor assistente da revista, Gustavo Porpino arrumava as malas para Brasília, onde iniciaria doutorado. A vaga ficaria em aberto e eu, como repórter das matérias de mapeamento cultural no interior do estado, estava cotado.

Minha admissão foi rápida. O esperei na ante-sala de seu gabinete. Quando chegou, entrei em seguida. Lembro que não passou cinco minutos e pediu à secretária baixar uma portaria de nomeação. Fiquei surpreso e contente. Só mais tarde soube que ele procurou referências minhas a Gustavo, ao fotógrafo Anchieta e principalmente ao motorista Érico, a quem atribuía muita confiança. Imagino que deva ter conversado, também, com o editor da Preá, Tácito Costa.

Passou-se coisa de uma semana ou duas e estourou o episódio do Foliaduto. Pouco tempo depois, sua exoneração e, conseqüentemente, a minha. Sua substituta, Isaura Rosado, preferiu me demitir. Continuei na Preá como free lancer e sempre a ouvir elogios rasgados de funcionários mais antigos da instituição a François, como o melhor presidente que ali passou.

Pelo pouco que pude perceber, François é, antes de tudo, um homem simples. Desses que usam a intelectualidade para aprimorar o olhar sobre o comportamento humano. Não tem aquela retórica chata dos gênios arrogantes. A quem leu ou vai ler As Alças de Agave, peço atenção à figura do primo de François, Felipe, muito presente no capítulo O Pato do Gavião.

Felipe tem hoje mais de 80 anos. É uma figura curiosíssima. Basta dizer que seu casamento foi acertado através de carta escrita de São Paulo por François. Sem saber ler nem escrever, Felipe pediu ao primo para manter contato com a noiva, em Umarizal. Quando retornou ao município pra casar, sequer lembrava das feições da noiva e pediu a uma conhecida para apontá-la, porque temia confundi-la com a irmã. Está casado com “Mundica” até hoje.

Conto essa passagem para retratar o tipo de pessoa de Felipe e, por tabela, muito dos apreços de François. Felipe é primo de enorme estima do escritor. Tive o prazer de uma conversa numa tarde de sol torrente, em Umarizal, na casa de Felipe. Na verdade, seria uma entrevista para a Preá. Mas o papo rolou frouxo. Felipe nasceu de sete meses e nem precisava dizer. Inquieto mesmo com a idade. Simples, como bom sertanejo. Emocionava-se ao citar o nome do primo.

Li As Alças de Agave e o que menos quis entender ou procurar foi o culpado pelo Folioduto. Deliciei-me mesmo com este olhar aprofundado sobre os bastidores do processo político, desde a época do “mandar matar”, em que foi brutalmente vitimado o pai de François, às “espertezas” e falsidades do tempo-hoje.

O livro é uma belezura nos primeiros capítulos, descritivos, autobiográficos e, como tal, conta um pouco a história daquele tempo. E a impressão deixada a este humilde jornalista foi a de que o episódio do Foliaduto atrapalhou até uma obra de mais fôlego de François. Fico a espera do segundo livro de A Pátria Não É Ninguém e a conclusão da peça O Roubo do Fole.

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