Das trepanações e das suas delícias

(Imagem: Google)

Seca-olhos:

tiro surdo.

Fura-ouvidos:

um parto que emudeceu.

Cala-bocas

a queda cega

sobre o gume

da gilete.

No entorno,

a ponte ereta

conduz ao centro:

tempo rasgado

onde deita bílis

negra e ácida

o anjo decaído.

Mas, santo, se nem és

deste século,

por que te arranjas

em meio às ruas

lotadas destes pedintes –

bedéis da porca tolice?

Encontra logo teus irmãos

e foge para o Altiplano,

lá onde não precisarás ser

amigo podre de nenhum rei

nem discípulo desenganado

de nenhum mestre vagabundo.

Corre ao longo do vale,

abrindo todas as porteiras

e toma nas mãos a livre

e louca mania de ser

(h)uno e teu próprio Deus,

ensandecido e abrutalhado,

mas que não condena ninguém.

E manda as boas novas, antes

que nessas horas manchadas

de vômito e de sangue,

o apelo derradeiro

não mais possa vingar.

Estarei, então, por aqui,

caminhando por entre escombros,

ajoelhando-me diante do misterioso

totem, estrutura plástica,

monumento-mor da desesperança,

dançando alegre em meio ao pó.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 9 comments for this article
  1. Jairo llima 5 de Dezembro de 2011 15:28

    O Lívio, quando vem, diz a que veio.

  2. Jóis Alberto 5 de Dezembro de 2011 15:37

    Um dos melhores poemas, talvez o melhor, dentre os muitos que tenho lido aqui no Substantivo Plural, desde que, nas últimas semanas, voltei a acessar com maior frequência este ótimo blog cultural, tão bem editado por Tácito Costa e com colaboradores da melhor qualidade. O título do poema, boa parte do conteúdo e mais essa ilustração, quase surrealista, dos primórdios das cirurgias do cérebro, com suas trepanações, além do uso dessa palavra ‘delícias’, tem qualquer coisa do “Jardim das Delícias Terrenas”, de H. Bosch, e de P. Brueghel, “o Velho”. Um poema como esse é como um antídoto, é uma vereda no ser-tão ser humano, ou do ser-no-mundo, etc etc… Valeu, doutor Lívio!

  3. Lívio Oliveira 5 de Dezembro de 2011 17:16

    Eita píula, mes amis! Isso aí que cometi foi apenas o casamento de muita loucura com um pouquinho mais de leitura. Abrações.

  4. Godot Silva 5 de Dezembro de 2011 19:12

    Mais que um poema, uma cidade da antiga Pérsia, Pasárgada? Sim, a que eu sonhei… Valeu!

  5. Jarbas Martins 5 de Dezembro de 2011 21:20

    Poeta !!!

  6. Lívio Oliveira 5 de Dezembro de 2011 21:27

    Godot, todos temos uma cidade dos sonhos. Natal já foi a minha. Abraço.

  7. Lívio Oliveira 5 de Dezembro de 2011 21:30

    Jarbas, tento seguir o seu manual de conduta poética. Sou só um aprendiz. Abs.

  8. Anne Guimarães 6 de Dezembro de 2011 11:10

    Lívio, querido….
    Poeta não precisa de definições, ele vive entre os versos e
    a utopia de nem saber quem é, ao certo.
    Continue produzindo, seguindo, lindo…
    Bom te ver por aqui.
    Beijos vinhos.
    🙂

  9. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 6 de Dezembro de 2011 14:15

    Anne, docinho, fico grato e lisonjeado.

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