[SAFRA 71] “Hunky Dory”, de David Bowie

Em 1971 o clima no mundo havia mudado. John Lennon cantava que o sonho havia acabado, Janis Joplin e Jimi Hendrix estavam  mortos, vitimados por overdose aos 27 anos, a guerra do Vietnã continuava a todo vapor com pilhas e pilhas de cadáveres diários exibidos na TV na hora do jantar e a juventude, que três anos antes sonhava com uma revolução mundial, sentia a barra pesada da repressão pelos quatro cantos do planeta.

Em meio a esse clima de fim de festa, David Robert Jones, um londrino de Brixton que havia se projetado nas paradas de sucesso em 1969 com a canção Space Odity atingindo o quinto lugar na Inglaterra, colocava no mercado o álbum Hunky Dory, mostrando pra quem quisesse ouvir, que iria arrancar seu lugar no panteão da grande arte do século XX sem pedir licença nem percorrer caminhos fáceis.

“Em uma posição que fazia referência a imagem icônica de Marlene Dietrich, um Bowie andrógeno abria caminho para um desfile de seus inúmeros personagens conceituais”.

Bowie, que assumiu esse sobrenome artístico em 1966 para não ser confundido com Davy Jones, integrante do The Moonkes,  havia lançado nos EUA pela Mercury Records, não fazia nem um ano, o disco The Man Who Sold the World e já entrava na década de setenta botando o pé na porta.  

Para não deixar Hunky Dory afogado em meio a tantos lançamentos de estação, Bowie, que compreendia como poucos a natureza líquida da modernidade Pop, sacou para imprensa alguns de seus talentos mais evidentes: a capacidade de criar personagens conceituais para seus discos e a habilidade ímpar de sondar as tendências musicais mais inovadoras e repagina-las para um público ávido por novidades.

Pra começo de conversa foi logo se declarando gay para a imprensa, apesar de ser casado e ter um filho, e acabou promovendo mais ainda o álbum na onda do escândalo que se seguiu. Em uma época em que ainda haviam legislações criminalizando a homossexualidade nas chamadas “democracias ocidentais” e que lugares como Stonewall ainda eram fechados pela polícia a base de gás lacrimogéneo e cassetetes, a capa do disco jogou ainda mais lenha na fogueira dos tabloides de fofoca.

Em uma posição que fazia referência a imagem icônica de Marlene Dietrich, um Bowie andrógeno abria caminho para um desfile de seus inúmeros personagens conceituais, que haviam começado com Major Tom, em 1969 e que mergulhariam pelo universo do transexualismo em Hunky Dory até desaguar no icônico alienígena Zyggy Stardust de 1972.

É importante você saber, amigo velho, que quando a gente olha pra discografia de Bowie e coloca pra rodar seus álbuns na sequencia em que foram lançados é normal sentir um espanto embaraçoso com as suas metamorfoses, especialmente se você é um daqueles ouvintes que gosta de estilos bem delimitados e fica puto quando sua banda ou compositor predileto resolve tocar alguma coisa “fora da caixinha”.

Agora, na minha opinião, o que  assombra mesmo quando a gente se aventura a seguir a produção de David Bowie é sua capacidade desconcertante de antecipar, em dois ou três anos, para onde as tendências estéticas apontam e quais trilhas o universo Pop vai percorrer no futuro.

Em meio a tantos lançamentos naquele ano, Bowie chamou atenção ao assumir que era gay, mesmo sendo casado e tendo filho.

E é justamente com essa capacidade antecipatória, tal qual um viajante dos subterrâneos que sonda erupções vulcânicas e movimentos tectónicos no mundo da arte, que Bowie aparece em Hunky Dory tocando com o baixista Tony Visconti e com a base da banda que iria compor a Spiders From Mars, mostrando o que de mais inovador e ousado os anos setenta nos reservaria.

De Dylan a Lou Reed, passando por Andy Wahool e Sid Barret, Bowie mostra  ao público consumidorda industria Pop, ainda viajando de ácido com os restos do banquete hippie do flower power, que poderia ser quem ele quisesse ser.

Com se estivesse exibindo sua capacidade criativa para um público que ainda não havia entendido bem o que estava acontecendo no mundo, Bowie transita de uma referência clara ao Velvet Underground em Queen Bitch, a um mergulho no transtorno mental de Sid Barret em The Bewlay Brothers, passando, como um atleta da música, de um estilo a outro, sem deixar a sua marca particular se perder.

Sem medo de ser comparado, escreve uma carta em forma de música para Dylan em Song For Dylan e ainda faz uma homenagem que deixou Andy Wahol apavorado, na música que leva o nome do artista que agregava os mais bizarros personagens do lado selvagem da América ao redor de sua Factory.

Mesmo em canções mais “sessentonas” como Kooks, que fez, com o inexorável carimbo dos Beatles, para Duncan Bowie, seu filho recém nascido, o camaleão não consegue soar anacrónico.  Com aquela petulância dos que sabem que vão marcar o nome na história da arte, Bowie manda uma mensagem direta para seus heróis contra culturais dizendo: “sou um de vocês”.

É  por isso que é difícil encontrar, mesmo nas canções mais orquestrais como Quicksand ou na insuperavelmente clássica Life on mars, algum traço que não indique, naquele longínquo 1971, que aquela carta de apresentação em forma de álbum não seja a obra de um dos grandes da música popular do século XX.

Sem exagero, quando os arqueólogos do futuro (se existir futuro) recuperarem as ruínas dos últimos anos do milênio e forem empreender os julgamentos estéticos que mantem os artistas no panteão dos grandes nomes da música, certamente Bowie estará lá. Até porque, se não foi ele que matou os anos sessenta e inaugurou as últimas três décadas do milênio no campo da música popular com álbuns como Hunky Dory, Zyggy Stardust, Low, Station to Station e tantos outros, foi  certamente ele quem limpou o corpo e ornamentou o caixão para o velório. 

Ficha do disco

“Hunky Dory”, David Bowie

Gravadora: RCA/Victor

Produção: David Bowie / Ken Scott

Nacionalidade: Inglaterra

Duração: 41min37

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito [ Ver todos os artigos ]

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