David Bowie foi mesmo “um gênio do nosso tempo”?

Já faz alguns dias, mas a manchete do Jornal Nacional, na noite da morte do cantor David Bowie, não me saiu da cabeça: “Morreu um gênio do nosso tempo”. A generalização e a abrangência incomodaram-me. Embora o artista tenha transitado em vários campos culturais, foi mesmo na música que ele se projetou e deverá ser lembrado.

Fiquei refletindo porque o editor do Jornal Nacional não o tratou como “um gênio do pop-rock”, “um gênio da indústria cultural”, da “cultura pop” etc. Penso que seria mais equilibrado.

Eu pensei na hora. A manchete pode ter sido escrita por um jornalista fã do cantor. Ou ele é mesmo um gênio e eu é que estou por fora do que seja genialidade. Ou ainda, o significado de gênio mudou e eu não me dei conta.

Outro aspecto importante, lembrei, que não foi levado em conta. É prudente esperar-se um tempo para sabermos se a obra artística/intelectual de determinada personalidade (um escritor, ator e diretor, cantor, dançarino etc) realmente resistirá ao tempo.

Será que no futuro poderemos dizer da obra de Bowie o que ítalo Calvino, referindo-se à literatura, disse sobre os clássicos: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”

Não conheço a obra do cantor. Mas depois de sua morte li vários textos sobre ele e ouvi algumas das suas canções. Li artigos do pessoal daqui, como Pablo Capistrano e Sheila Azevedo, do pessoal de fora, Caetano Veloso, Arthur Dapieve, a cobertura da Folha de São Paulo, comentários nas redes sociais. Textos entusiasmados e comedidos sobre a vida e obra do famoso artista. Enfim, procurei sanar minha ignorância.

Hoje li mais um texto “O homem que vendeu o mundo”, do Vladimir Safatle, publicado na Folha de São Paulo. Para mim o melhor até agora porque busca entender e explicar o sucesso do cantor no contexto da indústria cultural. “Na verdade, David Bowie entrou para a história da indústria cultural como sua mais perfeita expressão, e talvez seja por isto que ele foi tão celebrado”.

Um artigo que se complementa com outro, que não é especificamente sobre o Bowie, mas oferece elementos para compreendermos o funcionamento da indústria cultural hoje em dia, ‘O mundo digital é ‘kitsch’, de Luli Radfahrer, também publicado na FSP. “A nova ordem cultural em um ambiente de muitas estrelas para pouca plateia é dominada pela lógica do espetáculo e do excesso, e marcada pela mistura de gêneros e interpretações”.

Essas leituras todas me permitiram compreender melhor o fenômeno David Bowie e a entusiasmada cobertura de grande parte da mídia. Não estou me referindo aos fãs. O fã sempre terá seu ídolo como deus ou gênio. Compreensível. Mas ao jornalismo, que deveria oferecer aos seus leitores uma cobertura menos apologética e simplória.

Os dois artigos citados estão nos links abaixo:

http://substantivoplural.com.br/mundo-digital-e-kitsch/

http://substantivoplural.com.br/homem-vendeu-mundo/

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