De carnaval e Benjamim Button

Se janeiro é preenchido por cajus e sóis de veraneio, fevereiro é todo pintado de prévias carnavalescas. De tantas, o Rei Momo receberá nesta quinta-feira as chaves de uma cidade calibrada para enfrentar mais quatro dias de confete e serpentina. Produtores bradam trabalhos de Hércules para reviver antigos carnavais, sem cordas de isolamento ou trios elétricos. Tudo ao som do frevo. Prefiro a opinião de Dosinho: daqueles carnavais de “assaltos” às residências, da folia inocente e do “corço” de carros em desfile pela Deodoro, só resta a saudade. São cenários de longe, em preto e branco, guardados nos porões da memória.

Na Natal metida a cosmopolita e escancarada aos ares do atlântico, sempre aberta às novidades, os carnatais engordam seus dinheiros e as bandas de frevo arrastam menos gente. Na Natal do axé baiano de Jammil, i have to go now para Parságada, cumpade. Antes nascesse curioso como o Benjamim Button de Fitzgerald e pudesse rejuvenescer com o tempo, até esquecer tanta perdição. Até acredito na existência de um natalense nascido em mesma hora que o relógio do Alecrim, de vida estressada e poluída como o bairro, morto sem notoriedade ou registro, nem mesmo de Cascudo.

Mas este colunista não queria nascer velho e morrer bebê como o personagem do livro e do filme. Queria mesmo era viver o retrocesso do tempo, em mesmo ritmo de cadência. Aos poucos, a cidade ainda vila se perfumaria de inocência, de paredes emboloradas e do provincianismo mais arraigado. Os prédios se desmanchariam tijolo por tijolo. As fachadas espelhadas cederiam lugar à arquitetura neoclássica. Veríamos ganhar cor e movimento as casas da Viúva Machado, na Cidade Alta; de Djalma Maranhão, em Petrópolis e até os trapalhões de volta ao Cine Nordeste.

Quando eu contasse 50 anos retrocedidos, após reviver o tênis redley e a mochila Company dos anos 80, ou provar da psicodelia e do rock progressivo da era 70, veria o Grande Ponto receber cada vez mais adeptos, até notar a presença de Newton Navarro, Joanilo de Paula Rego e Cascudo, vindo lá do Bar do Pernambuco, no Canto do Mangue bem servido sem Exupéry. Assistiria o encurtar das ruas e a construção de cancelas aqui e acolá. Lá pela década de 40, assistiria a chegada dos americanos ou escutaria as notícias dos alto-falantes de Luís Romão, na sempre Ribeira de guerra.

Veria o nascer da Praieira de Othoniel Menezes depois de escutar a Linda Baby de Pedrinho Mendes. Comeria uma tilápia gorda ao som dos violões seresteiros de Lourival Açucena, lá na Redinha da elite natalense e dos blocos carnavalescos – os primeiros – como o Chiquitas Bacanas, Dois de Ouro e Jacu no Pau. Depois Os Brasinhas e os Índios Tabajaras, até presenciar a origem do bloco Os Cão; o nascer do carnaval verdadeiro, da aura pacata de uma cidade cada vez mais vila. Ficaria idoso ao som das serestas nos sobrados, sem saudosismos e na tranqüilidade de uma Natal lírica, até morrer no acender dos primeiros candeeiros.

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