De Cartola, idealismos e incentivos à cultura

A Ribeira esteve pintada de verde e rosa no último sábado. O centenário de nascimento do “seo” Angenor de Oliveira, o Cartola recebeu homenagem à altura de sua obra grandiosa. O mundo potiguar virou um moinho do samba, de espírito carioca e perfumado pelos ares de nostalgia cosmopolita da Ribeira. A roda de bambas da nossa música se vestiu de branco no palco democrático do Buraco da Catita. O espaço resistiu às centenas, talvez uma milhar de pessoas sedentas à oferta de arte qualificada e gratuita. Se Cartola foi invocado a comparecer ao local como incorporação – profana ou sagrada – da cadência do samba mais genuína, o natalense também foi homenageado. Não se pagou um centavo para assistir ao espetáculo. E esta é uma questão merecida de olhar atento do poder público e do público.

É romântico o conceito de que idealismo e determinação sustentam projetos culturais longevos. Talvez vogasse para passeatas estudantis em 1968. O Buraco da Catita tem procurado resistir à falta de incentivos governamentais e patrocínios privados. No último sábado, com a finalidade de homenagear um ícone da MPB, foi montada a estrutura possível. O som foi doado pelo Praia Shopping. Projetor, cadeiras e mesas extras, tudo adquirido no improviso ou alugado. Os músicos de primeira grandeza ensaiaram semanas e até fecharam o bar às terças-feiras dedicadas ao jazz para os ensaios. Nomes como Khrystal e Simona Talma colaboraram e marcaram presença sem receber cachê. Glorinha Oliveira, no alto de seus 82 anos e morando de aluguel, fez o mesmo: emprestaram seus talentos para homenagear Cartola e o público natalense.

Lembro do produtor musical Zé Dias comentar: “Cultura custa caro”. Realmente. O arrecadado do bar com as cerca de 800 pessoas presentes serviu para pagar aluguel do local ou da estrutura montada. É bom ressaltar a divisão do consumo de bebidas, águas e refrigerantes com os camelôs que cercam o local. Apesar da grandiosidade da festa, os músicos acreditam estarem impossibilitados de outra empreitada semelhante, que bem poderia ser repetida em homenagem aos 100 anos de nascimento de Silvio Caldas, também este ano. Silvio Caldas adorava Natal e tem histórias memoráveis por aqui. Segundo um dos idealizadores do Buraco da Catita, há o risco, inclusive, de fecharem o bar. Os motivos? Vou repetir: idealismo e determinação não sustentam projetos culturais de qualidade. Lembram do Zé Dias? Cultura custa caro, minha gente.

A Ribeira há muito carece de alternativas de entretenimento. E faz parte do declamado Corredor Cultural da cidade! O saudoso Paulo Ubarana plantou semente e agora o produtor Anderson Foca resiste na Rua Chile com oferta de atrações e eventos musicais mais voltados ao rock. O Centro também procura manter sua verve alternativa com o Beco da Lama. Também sábado assistimos à reinauguração do Bardallos – bar do produtor Lula Belmont e que fica ao lado do espaço cultural La Bodeguitta. São locais de resistência. O Buraco da Catita, em particular, é fruto de puro idealismo e merece melhor atenção. Vale ressaltar a tentativa, em época de campanha, de transformarem o local em propaganda à candidata Fátima – idéia prontamente negada pelos idealizadores para manter a independência e o cunho apartidário e meramente cultural do lugar.

Se a prefeita eleita ou um empresário de visão quiserem apostar na cultura local, de certo ganharão a simpatia da classe artística e intelectual dessa cidade se apoiar com algum investimento os sambas tocados aos sábados ou os chorinhos das sextas-feiras no Buraco da Catita. Também oportuno seria empresários abrirem bares com projetos semelhantes ao redor e fomentarem o comércio local. Para isso, a prefeitura poderia conceder isenções de IPTU ou outro tipo de incentivo. Do contrário, o espaço – tão prestigiado pelo natalense – pode acabar. Depois não venham perguntar: “Você tem fome de quê?”. Ora, queremos comida, diversão e arte. E de qualidade! Mesmo que o turista não seja contemplado. Se prevalecer a política de pão de circo quem sabe as passeatas estudantis de 1968 voltem à tona?

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