De Cascudólogos e cascudófilos

Por Vicente Serejo
JORNAL DE HOJE

Digo sempre, Senhor Redator, nos meus resmungos de impaciência, que os caminhos só são simples e fáceis na obra cascudiana para os cascudólogos e cascudófilos que hoje são muitos e geniais. Para nós outros, só leitores, tem sido um grande desafio. Não foi à toa que durante um desses debates provincianos avisei que não bastava um canivete suíço para vencer sua floresta densa e riquíssima. De uma vastidão de temas e visões além da folclorização a que, às vezes, é submetida sua grande obra.

Quem tiver a curiosidade de apurar o olho no conjunto de livros de Câmara Cascudo que reuni aqui, ao longo de quase cinquenta anos, e que chamo, de Cascudiana, vai reparar que bem no ângulo superior esquerdo da folha de rosto da sua ‘História do Rio Grande do Norte’, edição Ministério da Educação e Cultura, Rio, 1955, tem um ‘Vicente Alberto’, uma data – 19/07/66 – e uma rubrica. Se contar o tempo, foi há 48 anos, quando este cronista, nascido em 1951, tinha seus quinze verdes anos.

De lá até hoje, e mesmo que muitas vezes nas reuniões acadêmicas tenha sofrido gozações dos doutos doutores, tem sido uma busca permanente, solitária e sem fim, ainda que sem receber estímulos de familiares ou de instituições a que ele pertenceu, e algumas fundou. Sim, faz parte, justifico sempre, do reinado inestimável das paixões. Daí nunca cobrar nada a ninguém. O tempo ensinou a arte da moderação e do bom silêncio quando muitos afirmam com facilidade sempre efusiva e até espetacular.

Depois de tantos anos e de tanto gosto pela obra de dois ou três autores, entre eles Cascudo, e orelhudo no olhar fraco intelectualmente, mas amoroso na admiração, perdi o jeito de acreditar que a informação, e muito mais a cultura a respeito de uma obra, é tarefa fácil. Às vezes, se a impaciência rompe o tecido da tolerância, lembro com ironia que as lições do mundo e dos livros não concedem a ninguém o direito de entrar por vias que não sejam o confronto das idéias para ter o domínio do saber.

A grandeza de uma obra intelectual não está apenas nos livros que o escritor escreveu ao longo da vida, muito menos numa obra poliédrica como a de Câmara Cascudo. A sua grande consagração se deu dentro e fora de sua obra, na tessitura e profundidade das articulações com o saber do seu tempo e na contracena com estudiosos. Um escritor não está só nos seus livros, mas também, e principalmente, nas obras que leu, estudou e comparou, atestando a inegável erudição e originalidade de suas idéias.

Hoje, a obra de Câmara Cascudo chegou finalmente ao mundo acadêmico, mas vivi o tempo da absoluta estranheza. De mestres e doutores acusando a ausência de método, apontando a falta de visão marxista nos seus olhares sociológicos e antropológicos taxados de impressionistas, durante décadas e décadas. Como se ele não tivesse desenvolvido um método próprio que o consagrou, até hoje, muito mais do que a seus críticos. Logo ele, que acabou consagrando a alguns por tê-lo, enfim, descoberto…

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Marcos Silva
    Marcos Silva 13 de Fevereiro de 2014 14:16

    Câmara Cascudo, desde a juventude, conquistou o respeito de pares no nível de Monteiro Lobato e Mário de Andrade. Quando organizei o Dicionário crítico Câmara Cascudo (Perspectiva/EDUFRN/FFLCH-USP/FAPESP/Fundação José Augusto), contei com o apoio de grandes pesquisadores brasileiros de diferentes áreas, de dentro e de fora da universidade, como Telê Ancona Porto Lopes, Carlos Rodrigues Brandão, John Monteiro, Jerusa Pires Ferreira, Marisa Lajolo, Marlise Meyer, Nelly Novais Coelho, Moacyr de Góes, Margarida de Souza Neves, Moacy Cirne, Humberto Hermenegildo de Araújo e tantos outros estudiosos de múltiplas gerações. O mesmo se deu quando organizei a coletânea Câmara Cascudo e os saberes (Fundação Miguel de Cervantes/Fundação Biblioteca Nacional, com o apoio do Ministério da Cultura), que incluiu gente do nível de Renato Queiroz, Izabel Marson e Claudio Augusto Pinto Galvão, dentre outros.
    A grande historiadora Anita Novinsky, que preferiu não escrever para o Dicionário (indicou uma excelente orientanda, Rachel Mizrahi), contou-me que, quando ela começou a pesquisar para seu brilhante doutorado sobre Cristãos Novos no Brasil (anos 60 do século passado), Sérgio Buarque de Holanda, orientador da pesquisa, aconselhou-a a viajar até Natal para conversar com Cascudo sobre o tema – e ela o fez. Como se vê, a melhor universidade brasileira não descobriu Cascudo semana passada.
    Fico muito contente diante dessa receptividade erudita (dentro e fora da universidade) à obra de Câmara Cascudo. Um autor importante como ele merece ser discutido a partir de múltiplos ângulos, na Imprensa, na Universidade e em qulquer lugar onde se pensa.

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