De como Euclides antecipou Joyce em 20 anos

O “Ulisses” de James Joyce – o “blue book das eclésias “- também é um livro sobre o amor. Leopold Bloom, o protagonista do romance que revolucionou a literatura universal, passa o dia perambulando por uma Irlanda ( terra da ira) decadente, e tem consciência da traição de Molly Bloom. São dezesseis horas e o relógio de cuco toca … e nessa hora vesperal Molly recebe o amante em casa. Euclides da Cunha é traído por sua mulher Saninha e quando foi tomar satisfação foi morto pelo amante.

Existe o romance, antes e após Joyce. Ele cria no plano da linguagem e, como o Einstein da Literatura, ele reinventa e funde o Espaço – Tempo. A linguagem como personagem. As palavras prevalecem e importam mais que a história. No “Ulisses”, ouvimos as personagens muitos mais que as vemos. Trabalhando com múltiplos planos narrativos ele funde gêneros, sons, dialetos, imagens poéticas e sensações. Joyce se utiliza do Fluxo de Consciência empregado por Édouard Dujardin em “Os Loureiros Estão Cortados” (Lauriers Son Coupés, 1887).

Em “Os Sertões” de Euclides da Cunha, um livro vingador, o escritor sublima a dureza da vida do cinzento pobre do sertão da Bahia, que resultou num grande massacre da República, em Canudos. Não fosse Euclides da Cunha essa saga não teria tido repercussão universal. Ele escreve o maior livro da literatura brasileira numa grande sinfonia. Euclides amplia a linguagem usando descrições audialistas de uma realidade que gritava ( “Os Sertões- Campanha de Canudos”. Edição Ateliê Editorial, Imprensa Oficial 2001):

– Retinem as rosetas das esporas.

– Onde espadanam cintilações de espadas.

– Reboam ruidosamente as trovoadas fortes.

– As vozes suavíssimas se espalham silentes.

Sons, ciúme e vocabulário

Euclides da Cunha, assim como Joyce fala muito através de sons. No Ulisses, o leitor sente prazer e dor ao ouvir o som da trombeta, o suspiros das folhas, o ruído do mar e o som da água escoando no ralo da pia em espiral. Em Euclides o som entra para reforçar e enfatizar a grande riqueza sonora da língua portuguesa, do nosso falar, fazendo ecoar numa polissemia a musicalidade do idioma.

Euclides faz uso de um grande vocabulário, por vezes científico, no seu labiríntico painel da cultura brasileira. Palavras paroxítonas que ajudam na sonorização da narrativa.

Em Joyce, a polissemia das palavras valise, da palavra montagem, da palavra ideograma encadeando novos sentidos. Joyce é um alquimista da palavra e a linguagem é o personagem principal desse imenso cipoal cheio de ruídos e labirintos que é esse enciclopédico romance Ulisses.

“Todos esse ruídos convergiram numa única sensação vital para mim: imaginava conduzir meu cálice incólume, através de uma multidão de inimigos”

Durante o dia de Bloom ele chega a um estado mental que é mais abnegação do que ciúme. Joyce evoluiu no tratamento desse tema desde suas primeiras criações literárias. É com uma grande pulsão verbal com que Joyce fala do amor numa féerie carnal pulsipulso.

“Ele beijou os fornudos ricudos amareludos cheirudos melões do seu rabo, em cada fornido melonoso hemisfério, na sua riquêga amarelêga rêga, com obscura prolongada provocante melonicheirosa osculação.”

Ao fim do episódio de Nausícaa (cap.13), o “relógio de cuco” informa a Bloom que ele é agora um corno. Cuco, cuco, cuco… cukoo-cloc; relógio de cuco e cuckold- corno. Voltando aos Sertões, e sua lexicologia.

Livro foi um sucesso imediato

Publicado em 1902, “Os Sertões” é um retrato do Brasil da época. Euclides era correspondente do jornal O Estado de São Paulo na Guerra da Canudos, e descreveu os acontecimentos de forma fiel, além de desenvolver um romance histórico com fortes traços sociológicos e geográficos, baseado em três pilares: a terra, o homem e a luta.

O livro de Euclides da Cunha é único dentro da literatura brasileira. Pouco lido e muito citado. Um livro enciclopédia que exige paciência e bons dicionários para lê-lo. São vários os motivos que fazem o leitor ficar vário e desistir dessa tremenda aventura pelo Brasil real atravessando um longo e espesso cipoal. Cipoal feito de muitos termos técnicos e preciosismo de linguagem. É enorme o vocabulário de “Os Sertões” e felizmente alguns livros ajudam a penetrar nessa imensa selva de palavras e sabedoria do homem e da terra.

Um deles é “Lexicologia de Os Sertões”, escrito pelo médico e professor Manif Zacharias. Um livro precioso pra quem deseja ler com vagar e proveito a um dos maiores livros da literatura Brasileira. Talvez o livro mais importante para compreender o Brasil profundo, como gosta de dizer o Suassuna.

A “Lexicologia de Os Sertões”, escrito por Manif, é um cabedal de quase mil paginas que desanuvia pra nós o vocabulário técnico e linguístico do grande escritor Euclides da Cunha. O combate entre o estado brasileiro e o povo ainda não acabou. Canudos – o lugar virou mar, mas o ideal de Antonio Conselheiro ainda persiste. “Parar é sublevar, medir é deformar”, escreveu Euclides numa geometria traçada com cipó e cadáveres de alguém que pensava grande. E foi um grande cultor do idioma pátrio que gritava, ajudando na ênfase do que estava sendo mostrado e o Brasil litorâneo desconhecia.

Nunca a língua de Camões tinha alçado voos tão altos. No início do século XX ( 1902), Euclides lança seu livro e é sucesso imediato. A literatura brasileira existiu antes e depois de “ Os Sertões”. Em 1909, no dia 13 de agosto, uma grande tragédia que abalou o Brasil inteiro. Euclides era morto com 43 anos, o Brasil perdia um gênio da literatura, telúrico e profundo. Em 1911, Dilermando é absorvido. Na inauguração de uma lápide no cemitério São João Batista, o grande escritor Coelho Neto, discursa dizendo que Euclides iria ressuscitar. No ano seguinte morre seu filho Solon Ribeiro da Cunha, num tiroteio em Miraflor, Tarauacá ( Acre). Nesse mesmo ano, Dilermando mata Quidinho, o filho tentava vingar o pai. Novamente o amante é absorvido.

No necrológio de Euclides, ocorrido a 16 de agosto, o prolixo Coelho Neto falando na Câmara dos Deputados, foi preciso na caracterização humanista e literária do Homem Euclides da Cunha; Estilística soberba, palavra tersa, frase extreme, períodos refertos; no próprio berço do vernáculo ninguém se lhe avantajou, em vigor e pureza verbal.

Manancial sertânico

Faço minhas as palavras de Coelho Neto, e volto para ouvir mais um movimento dessa grande obra polifônica e de grandes arroubos estilísticos. Desse manancial sertânico, ouvimos gemidos lancinantes, brados de guerra, explosões, urros de feras enjauladas, suspiros de , ranger de dentes, ecos longínquos, clangores de clarins (Araripe Júnior no artigo Intensidade e Grandeza de “ Os Sertões”, publicado no suplemento literário do Jornal “ A Manhã”, de 23 agosto de 1942).

Ouvimos ainda o seu ribombar, não entendemos porque tamanho massacre a um povo que vivia pacatamente numa comunidade solidária e cooperativa. De um “povo posto á prova de ferro, do fogo e da fome.” Que atacados por quatro expedições do governo, soltavam “Brados longínquos, arruído confuso, expluiam sucessivos, angustiosos abafados.”

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