De corpo e alma‏

Freyre, Cascudo, Fernando (filho) e Dhália (esposa)

Por João Paulo
ESTADO DE MINAS – VIA CONTEÚDO LIVRE

Livros de Gilberto Freyre e Luís da Câmara Cascudo, que ganham novas edições, trazem olhar singular e criativo acerca das raízes brasileiras, em sua relação com outras matrizes culturais

Fazer ciência não obriga ninguém a ser chato. É possível, mais que isso, desejável, que as obras de inteligência tenham sua cota de interesse e prazer literário, além de despertar no leitor um sentimento bom de descoberta. Na área da sociologia, sobretudo no campo das chamadas interpretações da nacionalidade, o método que combina inteligência, curiosidade e prazer é muito raro, quase sempre em razão do apego à linguagem acadêmica e exigências do método. Por isso chama atenção a reedição, no mesmo momento, de estudos de Gilberto Freyre (1900-1987), China tropical e de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), Religião do povo, ambos pela Editora Global.

Os dois sociólogos têm alguns pontos em comum, da origem nordestina (Freyre pernambucano e Cascudo potiguar), o gosto pela cultura popular, o texto permeado de intenções literárias e diálogos com o leitor, o conservadorismo político e o projeto de explicar o Brasil e os brasileiros a partir das mais diversificadas matrizes. Mas têm também suas singularidades: Freyre é mais orgânico, criou uma interpretação teórica profunda e inovadora da formação do patriarcado brasileiro, tem senso ampliado da história e é um estilista soberbo. Câmara Cascudo compôs obra mais vária, com ensaios sobre temas populares pontuais (alimentação, vestuário, lendas e até o gosto em dormir em redes) e dissolve sua ambição numa pesquisa obsessiva e colorida, mais descritiva que teórica.

China tropical e outros escritos sobre a influência do Oriente na cultura luso-brasileira, de Gilberto Freyre, é uma coletânea organizada por Edson Nery da Fonseca, um dos mais importantes estudiosos da obra do sociólogo. Publicado originalmente em 2003, recolhe oito ensaios de Freyre que têm como objeto a presença do orientalismo em nossa formação nacional. A primeira identificação, que vem da presença portuguesa na Ásia e da presença de escravos africanos de cultura muçulmana, vai sendo desdobrada em outras contribuições, que vão de simples hábitos e modos de ser até a intuição da presença do orientalismo, numa antecipação de teses que se tornariam conhecidas muito depois do trabalho de Gilberto Freyre, como as reflexões do pensador árabe palestino Edward Said, autor do Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, que desvelou a forma como os ocidentais mascaram o conhecimento do Oriente a partir de uma visão estereotipada e preconceituosa.

No prefácio, Vamireh Chacon identifica já nos anos 1920 as primeiras aproximações de Freyre com a temática do Oriente (que, pela diversidade, são mais bem explicadas pelo plural Orientes), a partir da leitura de Lafcadio Hearn e Pierre Loti, quando o pensador brasileiro estudava na Universidade de Columbia. A esses autores se somaria o poeta indiano Rabindranath Tagore, também leitura juvenil de Freyre, que despertou o desejo de conhecer a Índia. Essa ligação com a literatura indiana se manifestaria ainda no interesse pelas questões políticas do país e na admiração por Gandhi e Nehru. O sociólogo veria ainda afinidades culturais entre Brasil e Índia, em razão de elementos naturais, sociais e políticos comuns à formação dos dois países. De certa maneira, a proposta gandhiana de unir tradição e mudança repercute a visão política do sociólogo brasileiro em outro contexto.

A sensibilidade para os Orientes vai muito além da Índia, sendo marcada pela presença das feitorias portuguesas no Japão e pela influência cultural chinesa. Entre outros elementos que provam essa proximidade estão o chapéu de sol, a bengala, o leque, a colcha de seda, o hábito do uso do xale, o telhado caído e curvado nas pontas, a porcelana da China e a louça da Índia. Mas Freyre buscava, a partir de suas intuições particulares, agrupar tudo numa visão de conjunto, que tinha também nítida inclinação política.

No ensaio “Por que China tropical?”, que encerra o volume, ele mesmo responde à indagação do título, aludindo ao complexo momento político da China de Mao: “Por que chamar-se o Brasil de ‘China tropical’ quando, a não ser por sua extensão territorial, pelo seu poder de absorção cultural e por alguns traços orientais que podem ser encontrados na civilização brasileira, nosso país é tão diferente tanto da antiga quanto da moderna China? Provavelmente porque sempre houve no Brasil algo de oriental contrastando com suas características ocidentais, algo ‘mouro’, em contraste com os traços romanos ou latinos”. É claro que, na conclusão, Freyre recusa a solução comunista chinesa como saída para os problemas brasileiros.

China tropical reúne os seguintes ensaios: “Valores asiáticos absorvidos pelos portugueses” (retirado de Casa-grande & senzala); “O Oriente e o Ocidente” (trecho selecionado da obra Sobrados e mucambos); “Viajando pelo Oriente” (diário de viagem pela União Indiana, em 1951-52); “Falando a orientais” (conferência proferida em Bombaim em 1953, que integra o livro Um brasileiro em terras portuguesas); “O pan-asiatismo” (introdução ao livro O luso e o trópico); e “Por que China tropical? (de Mundo novo nos trópicos). São ensaios dispersos, que fazem parte de livros canônicos do autor e de conferências proferidas em universidades estrangeiras que apontam a expansão intrínseca do luso-tropicalismo freyriano muito além das matrizes portuguesa e africana.

Santo de casa Religião do povo, de Luís da Câmara Cascudo, é livro de 1974, publicado orginalmente pela Imprensa Universitária da Paraíba. O método do autor, como em outros estudos, mistura sem pudor a observação pessoal, a memória da infância, os dados coletados em conversas e em pesquisas rigorosas em todo tipo de fonte. O objetivo do autor é descrever o jeito brasileiro e popular de ter fé e manifestar seus mistérios e soluções para os problemas reais. O pesquisador sabia que o acesso às fontes não era fácil, mesmo quando se tratava de sua avó e duas tias que, “juntas, contavam 277 anos vividos”. Cascudo tinha astúcia suficiente para saber que, em assuntos reservados da prática religiosa, “questão de vida e morte pela represália sobrenatural à delação sacrílega, recorre-se a uma informação duvidosa”.

O livro, diferentemente dos compêndios de história ou sociologia da religião, deixa de lado a ciência oficial para se aprofundar na gaia ciência popular, com direito a divergências e antagonismos, registrados com atenção: “As velhas rezadeiras Xaninha, Geracina, Incinha não criavam a legislação, mas a jurisprudência”, defende o autor, que explica que não foi guiado pelo sensacionalismo ou intenção de desvendar exotismos, mas pelo empenho em descrever “o espírito divino nas entidades grupais dentro da Igreja e fora dela”. Um livro de fé, não de superstições.

Os ensaios de Luís da Câmara Cascudo vão descrever e interpretar vivências como o hábito de tomar bênção, a consulta a vozes, o risco de dormir na igreja durante o serviço sagrado, o recado dado pelos mortos, as profecias e seu significado, o comportamento de quem roga pragas, o castigo de quem carrega o diabo no corpo, as variantes populares para rezas tradicionais, o sentido das chamadas horas abertas, o risco de interromper as orações e a posição mais adequada para orar.

Os ensaios, prenhes de conteúdo popular, vão sendo desenvolvidos com auxílio da vasta erudição do pesquisador, que recorre a fontes mitológicas, teológicas e históricas para mostrar que, mais que mera manifestação popular, trata-se de uma história que tem raízes arcaicas que vão sendo atualizadas e traduzidas de acordo com a realidade de vida e de fé. Pode haver muito de oráculo grego, de teologia medieval e de história da civilização em situações aparentemente banais, como a promessa de dar comida aos cachorros para alcançar a graça de se livrar de doenças de pele. Há muitos mistérios entre o céu e a terra. Alguns deles, como esse do cachorro, não dispensam nem mesmo um bailarico animado depois de cumprida a promessa. Câmara Cascudo é um mestre sempre sagaz nessas decifrações. E tem a graça em fazer ciência como quem conta boas histórias.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. João da Mata 21 de janeiro de 2012 9:35

    Ha que se destacar nessas reedições dos Livros dos eruditos Cascudo e Gilberto Freyre uma triste perda para o escritor potiguar. Enquanto os livros de Freyre saem em ediçoes aumentadas, revistas, com todos os prefácios, as do Cascudo vão perdendo em conteúdo e essencia . Perderam as belas capas originias. Perderam prefácios ( A edição do Quixote perdeu o prefácio de Cascudo ) e a edição do Dicionário do Folclore foi decepada e diminuída em essencia, conteúdo, verbetes, etc, etc.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo