De Francisco Brennand para Fernando Monteiro

Carta do artista plástico Francisco Brennand para o escritor e amigo Fernando Monteiro, enviada por e-mail, em caráter privado, mas que pedi a Monteiro para publicar no SP. TC

Prezado Fernando Monteiro,

Uma vez o poeta Tomás Seixas fez algumas considerações sobre o lugar aonde ler determinados livros como, por exemplo: “A queda da casa de Usher”, de Edgar Alan Poe; “Guerra e Paz”, de Tolstói; “Albertina desaparecida”, de Marcel Proust; “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann; “O Processo”, de Kafka…

Não recordo se os livros citados foram exatamente esses, nem a memória me ajuda a localizar os locais propícios ao devaneio de suas leituras. Em todo caso, não recordando os livros nem os lugares escolhidos por Tomás, lembro muito bem da estação do ano e da casa em que li o “Dominique”, de Eugène Fromentin. Foi num inverno rigoroso, na velha casa do Engenho São Francisco, no mês de julho de 1953.

Tomás Seixas, você não desconhece, era um poeta sofisticado e verdadeiramente sensível, e os lugares escolhidos foram todos os mais surpreendentes, incluindo catedrais, cemitérios, veleiros, fjords, nas escadarias da Acrópole, um Café, em Paris, um hotel de subúrbio ou no Expresso do Oriente… Novamente, tenho de repetir, não estar bem certo se, de fato, eram esses os lugares apontados pelo poeta. Talvez fosse ainda alguma coisa mais especial ou mesmo mais insólita. Você o conheceu e pode avaliar.

O seu amigo poeta, Alberto Frederico Lins Caldas, num Café do Marais, lendo o seu livro, “Aspades” e relendo o “Graumann”, acerta quando fala nos lugares e na grandeza da leitura criada para certos locais e não para outros, e, ainda mais, ao descobrir que, você, Fernando, tem sido lido no lugar errado. O poeta Alberto Frederico Lins Caldas transcreve, com muita propriedade, tudo aquilo que sempre pensei a respeito dos seus romances e de seus poemas.

Existe uma peça de um dramaturgo alemão chamado Peter Handke, cujo título é: “A hora que não sabíamos nada uns dos outros”. Esse trabalho de Handke foi encenado em Viena, no dia 9 de maio de 1992. Posso dizer que é tudo o que eu seu a respeito do dramaturgo e de sua peça. Mas, para mim, já é o quanto basta. O título da peça me recompensou.

Você poderia imaginar qual o lugar ideal para a leitura de “O deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati? Para essa indagação, coloquei-o entre os primeiros escritores, embora, como diz o Cristo, “os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros”. Suponhamos que ele estivesse entre os primeiros dos últimos e, como os últimos serão os primeiros, logo, temos o falecido Buzzati entre aqueles que a memória dos outros não conseguirá esquecer.

Nós todos somos perdedores. Portanto, somos ─ sem o saber ─ singularmente ganhadores.

Para poder falar com você convenientemente, escolhi esse antigo e-mail ─ nem tão antigo assim ─ para justificar a enxurrada de elogios que pretendo escrever dando retorno aos seus diferentes e-mails desses últimos dias e, igualmente, referências ao “O Diário de Nohara” e ao último artigo da série “Fora de Sequência”, publicada no jornal RASCUNHO, de Curitiba.

Com o seu estilo contundente, você desafia os editores brasileiros previamente vacinados contra os poetas. Você os derruba a todos e acredito até que outros poetas, não tão corajosos, habituaram-se a esse seu árduo desempenho, ou seja, de estar no front e não dar tréguas ao inimigo.

Verdadeiramente surpreendido com “As asas da noite que surgem”, segundo verifico, escrito na madrugada do dia de Natal. Por Zeus, em que lugar da sua memória você foi buscar tais evocações? Continuo a afirmar aquilo o que eu revelei ao jovem crítico Schneider Carpeggiani no dia em que fui entrevistado: “não conheço escritor no nosso país, nos dias de hoje, que possa fazer nem de longe o equivalente do que Fernando Monteiro criou em termos de uma literatura absurdamente original. O que não quer dizer nova nem tampouco independente. Tal coisa não existe. A construção é que é diferente, incluindo, é claro, a maneira de pensar fazendo dele, portanto, um escritor único”.

Está na sua maneira peculiar de expor os fatos, de embaralhá-los, de confundi-los e depois trazê-los à tona tão claro quanto a própria luz que teima em penetrar pelos postigos da janela de um hotel qualquer, seja em Amã ou em Atenas. Aliás, poucos escritores brasileiros descrevem com igual intensidade a atmosfera das cidades gregas e turcas como você consegue corporificá-las ou espiritualizá-las. Sim, “só você pode escrever sobre isso. Compor belas frases. Posso até aceitar, enquanto ela se distancia, que outros olhares, pesados daquela apreciação oriental, sem pressa, quem sabe estejam a acompanhar suas pernas nas curtas bermudas terminadas em fiapos sobre os pelos dourados da coxa (que se marcava, tão facilmente, do braço de uma cadeira, de uma murada guarnecida de ferro, onde estivesse sentada: no mirador sobre o meio-dia da cidade, na fonte seca de uma praça de pardais e pombos recebendo comida de graça dos que fazem hora para partir nos ônibus de turismo).”

Só os nomes das cidades citadas por você, Fernando, já daria um poema. A meu ver, elas não estão no seu texto por acaso e sim pela vontade de uma outra senhora, que poder-se-ia chamar de Literatura no seu mais alto nível de espiritualidade.

O seu texto é urgente, digno da melhor literatura de qualquer parte do mundo.

Abraço do amigo,

Francisco Brennand

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. alberto lacet 29 de dezembro de 2011 13:37

    Descontado-se os laços de amizade e admiração recíproca entre estes 2 grandes mestres da arte e do pensamento pernambucanos, que inviesados modos e inesperadas viseiras servem ao discernimento daquilo que numa obra de arte constitui o seu “crème de la crème”, aquele à princípio quase inominável caractere que a faz única e que representa sua verdadeira qualidade enquanto uma especiaria a mais num mundo historicamente já pródigo delas? digo pródigo num contexto que inclui Thomas Mann, Proust, e por aí. Em Fernando Monteiro a estética da construção de frases e o modo como se encadeam já é o bastante para distingui-lo como grande artífice da palavra, em qualquer tempo ou parte do mundo.
    A L

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo