De Franklin Roosevelt a Miguel J. da Silva: uma viagem de quase-ilha pela história

por Márcio Nazianzeno

Exceto a Oeste, onde à sua cacunda se estende o Brasil, é uma quase ilha. Ao nadador mais experiente, está a poucas braçadas do Cabo de São Vicente a Noroeste, das ilhas de Cabo Verde ao Leste e do Cabo da Boa Esperança a Sudeste. Para o Sul e Norte não há nada além de pinguins que justifique molhar-se todo numa travessia.

É, ao lado de Suez, Bósforo e Gibraltar, um dos quatro pontos mais estratégicos do mundo. Franklin Roosevelt (1882-1945), em 1942, fez dela base militar; e assim pôde, mais tarde, realizar o sonho de lançar bombas atômicas sobre famílias japonesas.

O clima é pacífico e o ar atlântico, marítimo. Os ventos convertem em ferrugem tudo o que tocam em seus dedos, o valor da modéstia em midas; e, ainda, defesa de um organismo inteligente que deteriora aparelhos de televisão, computadores e celulares antes que eles deteriorem a nós mesmos.

A geografia é moldada ao sabor do vento, que, por sua vez, tem sabor de areia. As dunas movem-se indecisas, remodelando a paisagem e revelando, não raro, esqueletos dos que ali entraram um dia. Na falta de lógica, há em compensação dromedários, embora igualmente confusos sobre se estão em Namíbia ou Saara, quando, na verdade, não estão em uma coisa, nem muito menos na outra, mas muito provavelmente nas duas; uma vez que estamos sempre onde acreditamos estar, e onde estávamos mesmo?

Generosa, a quase ilha cedeu o Presídio Fernando de Noronha a colônia Pernambuco. Vulgarizada pela incapacidade administrativa dos pernambucanos, a Alcatraz Latina teve desperdiçado seu potencial pesqueiro, de extração natural, além da caça, sobretudo a humana dos detentos em fuga; para entregar-se, de mãos beijadas, ao turismo predatório e suas máquinas fotográficas.

Celeiro de grandes atletas, foi onde nasceu Café Filho (1899-1970), goleiro do Alecrim F.C., a quem uma lesão na pélvis afastou-lhe da carreira e afundou-lhe em desgraça; incapacitado e sem suportar a vergonha, fugiu para o Brasil onde sobreviveu fazendo bico de Presidente da República.

Mãe de homens de sonhos altos, presenteou o mundo com o aspirante a político, cientista e bem sucedido defunto, Miguel Joaquim da Silva (1939-2015), responsável pela invenção do leite encanado nas escolas, da grande ponte transoceânica, da xenofobia humanitária e outros projetos que, se não saíram do papel, ao menos brotaram de sua imaginação e isso já é mais do que o suficiente. Foi descrito pelo conterrâneo Luís da Câmara Cascudo como um homem que nunca vira mais gordo, sobretudo porque nunca se cruzaram.

Fecham aspas.

Winston Churchill da Silva

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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