De homens e megapiranhas

Por Arthur Dapieve
O GLOBO

O valor dos bons filmes péssimos

Fico assistindo ao auê aí sobre aluguel de filmes on demand e penso numa boa livraria de rua. Explico. Saca aquela loja que vende livros e CDs, ali, entre as butiques finas? Ela oferece ao menos uma vantagem sobre a loja que vende livros e CDs pela internet: o fator surpresa. Você entra procurando um determinado volume — ou nenhum volume em especial — e dá de cara com algo que nem sabia que existia, algo que vai lhe fazer companhia durante horas e, quem sabe, mudar a sua vida para sempre.

Cabe deixar logo claro: não tenho absolutamente nada contra livrarias virtuais. Devo minha vida intelectual nos últimos 15 anos à Amazon. com (e mal me iniciei no Kindle). Ela me oferece tudo o que eu posso imaginar. O meu argumento é que ela não me oferece o que não posso imaginar, por mais que seus algoritmos tentem calcular, baseados no que já comprei ou apenas fucei, as indicações que mais me agradariam.

Nisso, o ato de flanar pela livraria de rua (ou, vá lá, shopping) é insubstituível. Para mim, a televisão é análoga à livraria de rua. Seja aberta ou por assinatura, ela me surpreende. Ligo o aparelho e está passando um filme que eu não aluguei, algo que não sabia que tinha sido feito ou, às vezes, não pagaria ingresso para ver no cinema. Nesse sentido, a televisão é o paraíso do filme ruim. Não significa que não exiba obras-primas também, mas o lugar destas é o cinema ou, sob circunstâncias cuidadosamente controladas, o DVD. Filme ruim não precisa de cérebro, silêncio, início, meio e fim.

Tenho assistido no canal por assinatura Syfy a vários pedaços — com e sem trocadilho — de dois clássicos instantâneos do cinema ruim. Ruim não, péssimo. Um deles é “Mega piranha”, produção americana de 2010 dirigida por Eric Forsberg. Como nunca vi o filme inteiro, não sei ao certo como piranhas normais vão crescendo até atingir o tamanho de um caminhão baú. Aparentemente, elas são o terrível experimento genético de uma Venezuela chavista caracterizada como uma Cuba de anedota.

As bichinhas escapam dos tanques, ganham os rios da Amazônia, as águas do Caribe e vão, sabe-se lá por qual reprogramação malévola, morder pacatos cidadãos na Flórida. E, quanto mais o tempo passa, mais elas crescem. Os EUA tentam de tudo para detê-las, inclusive bombas atômicas, mas tudo é em vão, pois as megapiranhas põem a pique embarcações militares. Se trabalhasse por dois minutos num computador, um macaco com disritmia seria capaz de criar efeitos especiais superiores aos do filme. Nota-se o desejo de fazer graça, mas nem isso funciona. O que é ainda mais engraçado.

O outro clássico instantâneo do cinema péssimo é “Moby Dick”, nada a ver com a obraprima que John Huston rodou com Gregory Peck em 1956. Quer dizer, tem um pouco a ver, sim. Porque, claro, há um cetáceo descomunal nesta outra produção americana de 2010, dirigida por Trey Stokes. Só que essa nova baleia branca transforma a baleia branca de Huston — e de Herman Melville, autor do romance do século XIX no qual o grande cineasta se baseou, a sério — num peixinho dourado albino. Ela tem o tamanho da roubalheira nos cofres públicos brasileiros, ou seja, é incomensurável. Pega um submarino nuclear na boca como uma foca pegando uma sardinha.

Os efeitos especiais dessa “Moby Dick”… Bem, também foram feitos por alguma forma vivente inferior a um macaco com disritmia trabalhando durante dois minutos num computador. São tão convincentes quanto a defesa dos réus do Mensalão, mas ao menos são bem mais engraçados. Esta, aliás, é a linha da produtora, a Asylum, não por acaso a mesma de “Mega piranha”. Seus filmes são chamados de mockbusters, trocadilho com blocksbusters significando que eles querem zombar e faturar em cima dos campeões de bilheteria dos grandes estúdios, mas com um orçamento pífio. Uma filmagem da Asylum — da ideia inicial ao produto pronto — costuma durar quatro meses.

“Mega piranha” e “Moby Dick” têm algo mais em comum, além do, hum, estilo da produtora. E é algo em comum também com filmes que fazem parte da história do cinema, como o “Moby Dick” de Huston, o “King Kong” original (1933) e o “Tubarão” de Steven Spielberg (1975). Animais de dimensões monstruosas, sejam eles piranhas, cachalotes, gorilas, esqualos, crocodilos, anacondas, porcos selvagens, insetos — e até um bacalhau, na paródia que Adriano Stuart fez para “Tubarão” — há muito povoam o cinema, quase sempre em filmes péssimos, mas sempre em filmes significativos.

As relações entre o cinema e o inconsciente já foram objeto de inúmeros estudos. No caso desses filmes-catástrofe com animais parrudões, qualquer analista de porta de id pode diagnosticar que eles indicam o temor que nós, homenzinhos, temos de uma vingança da grandiosa Mãe Natureza. Talvez seja menos óbvio dizer que o dogma hollywoodiano do happy end (ao menos para uns happy few) serve para reafirmar que a grandiosa Mãe Natureza pode rodar a baiana, mas será novamente subjugada pelo engenho humano, materializado seja em frágeis biplanos seja na Jennifer Lopez.

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Depois da vitoriosa campanha do time masculino de basquete no Pré-Olímpico da Argentina, vale repetir a pergunta-que-não-ofende da coluna “Panorama Esportivo”: “Será que agora a turma da NBA deixará de ser dodói para jogar na seleção?”

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