De Umberto Eco a Dácio Galvão: uma estrada sem saída para a arte

“Nem todas as verdades são para todos os ouvidos”. A frase é de Umberto Eco, ressuscitado nas redes sociais antes do terceiro dia, mas poderia ser de Dácio Galvão. A entrevista cedida a este portal repercutiu negativamente, embora tenha colhido elogios de quem entende mais de mercado e menos de arte. Achei sintomático.

Arte é por essência algo desgrudado de interveniências burocráticas. O fazer artístico parte da experiência íntima do indivíduo, e acompanha o lúdico, a técnica, a criatividade. Mas o assunto tratado pelo secretário na entrevista parte da arte como produto. É essa a esfera que ele trata diariamente por obrigação de ofício, não por vontade.

Dácio veste uma roupa burocrata antagônica à sua biografia de intelectual, de ex-hippie ou esquerdista. Não há escapatória. A essência artística é barrada em qualquer departamento do poder público do país. É algo muito puro para se misturar à máquina enlameada, enferrujada e insensível dos governos (não dos gestores, necessariamente).

Pelo teor da entrevista e pela própria biografia de Dácio, a impressão deixada é que ele tenta jogar o jogo já estabelecido da melhor maneira. E o jogo parte de neoliberalismo enraizado, onde a arte é produto mercadológico. Não há espaço para o fazer artístico, mas para a arte pronta e economicamente (e politicamente) vendável.

Fugir desse jogo capitalista seria algo revolucionário, desejável, algo incomum para qualquer gestão cultural do país. Seria algo que o secretário também gostaria enquanto intelectual e artista, penso. Mas Dácio é gestor, é peça do jogo e precisa gerir esses produtos artísticos, analisados puramente pelo poder de venda.

E aí voltamos à frase inicial deste post. Compreender esse conceito embutido nos porões da máquina pública é complicado aos “artistas pouco vendáveis”. Mais ainda é sugerir a eles outros alvos ao ataque que não apenas a secretaria de cultura. Embora careça de uma revolução para mudar o quadro geral, essa revolução é possível. Então, cobranças ao poder público devem continuar, penso.

Mas o ataque deve se dar em vários flancos. No caso da música, por exemplo. Por que a música “local” é pouco vendável aos natalenses? Rádios, imprensa, marketing dos próprios artistas, também não possuem importante parcela no processo? É uma engenharia complexa para justificar a falta de apelo, talvez até antropológica e geográfica.

Acho a secretaria cultural de Natal aberta ao diálogo, transparente e eficaz dentro desse jogo neoliberal. Importante lembrar que Dácio foi responsável pela talvez gestão mais elogiada na história da Funcarte. Agora, em momentos de crise e um cenário artístico independente em alta, esse jogo parece, mais do que nunca, ultrapassado.

Essas são as minhas verdades; é o que acredito e, claro, não são para todos os ouvidos. Mas o tabuleiro continua aberto e as peças estão no jogo. Cláudia Leitte já perdeu uma partida, mas muitos outros continuam na disputa. Quem se habilita virar a mesa?

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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