De Janelas e lembranças

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Nas manhãs costumo olhar de uma janela desgastada pelo tempo. Lá do alto, com o peso do corpo jogado sobre os cotovelos, contemplo um mundo que se transforma e leva para um lugar imponderável, talvez um livro, uma película, um arquivo qualquer, parte de nossa vida. Num silêncio meditativo que me deixa invisível e deixa as engrenagens da vida inalteradas pela curiosidade de saberem o que pensa alguém que observa de uma janela. Nenhuma beleza há para que eu possa enaltecer o cenário de onde observo o mundo, senão que é um lugar que me impõe reflexões quando nela me debruço. Não há mágica nenhuma, na verdade, ela só serve de apoio para minha contemplação da história e das possibilidades existenciais.

Nela vi passar e desaparecer muitas vidas, algumas folclóricas, como o homem que vendia mungunzá e passava em velocidade, como quem corre uma maratona. Mas havia nele aquela atenção fugaz de onça que espera a presa, tanto que, quando passava e alguém gritava no desespero de perder a porção branco-amarelada, ele arrojava-se numa curva coreografada pela felicidade e voltava. O prazer era voltar após a performance, pois havia algo além de empurrar um carrinho de duas rodas, um mundo sublime onde só os que são puros de coração habitam. Algum tempo mais tarde esperei em vão a sua passagem até me convencer que ele havia perdido seus devaneios de Dom Quixote de La Mancha e guardado a armadura para sempre. Como também o homem que vendia vassouras de todos os tipos e tamanhos e que, cá de cima, parecia Carmem Miranda desfilando pela rua. Prometia casa limpa, para isso não faltavam formas e tamanhos. Era no tempo em que se vasculhavam as altas telhas das casas e delas se tiravam as teias de aranhas e as cascas de barro que se diluíam pelos anos e anos de chuva e sol. Aos sábados, nesse tempo, costumava-se colocar nas calçadas parte dos móveis para que o piso fosse encerado com longas e duradouras massagens de cera e as telhas fossem limpas.

Soube que muitos deles perderam o vigor dos ossos e amargaram um destino írrito, como quem deita e espera pacientemente a morte, pois a vida perdia o sentido se ela não fosse vivida no trabalho e no contato com os súditos.

A mulher do beiju, o homem da pipoca, o homem da prestação. Este último trazia sempre as últimas novidades do comércio e unia as mulheres num alvoroço de compras que quando ele ia embora, a cama ganhava um pano novo, a porta uma cortina, a sala uma cadeira de balanço e a cozinha tamboretes para a mesa. Além da última novidade da tecnologia que era uma tela de plástico pintada com cores verticais, que quando pendurada sobre a televisão preto e branco, pasmem, ficava colorida. Os vizinhos corriam para ver a novela sob a tela multicor. A roupa vermelha da atriz, que de outro ângulo era azul. No entanto, isso ia perdendo a importância diante das novas coisas que chegavam cada vez mais apressadas. Uma novidade atrás da outra que não dava tempo de se habituar à nova serventia. O prestamista tornou-se o homem que tornava mais fácil o viver, até o dia em que desapareceu para sempre.

Vi surgir novos personagens, agora pessoas mais tristes e infelizes do que os de antes. Algo de muito ruim aconteceu nos tempos. Alguns com certo ar de maldade, esperando uma oportunidade para defraudar, outros com pressa de vender. Os Dom Quixotes envelheceram, os tempos mudaram e as pessoas também.

O cheiro que chega à minha janela pelas manhãs ainda é um cheiro de vida. Descobri que quando os homens vão para casa e se aquietam nos seus lugares, a terra se renova e exala um suspiro de natureza entranhada debaixo dessa roupa grossa de asfalto e concreto. Porém, quando começa o deslizar de motores e de gente apressada e sem identidade, o cheiro se dilui no ar e transforma-se num vapor quente, enjoativo e sem lembranças.

É apenas nos momentos que antecedem o dia que os arquivos se abrem e os fantasmas reaparecem e povoam as ruas. Como os personagens do circo, desfilando e convidando todos para o maior espetáculo da terra, a felicidade.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Marcos Silva 1 de novembro de 2013 10:24

    Texto muito bonito. Por coincidência, estou usndo uma camiseta que reproduz fotograficamente janelas de São Luiz do Paraitinga, SP – cidade fundada no século XVIII, quase nada restou desse tempo (uma inundação fez grandes estragos há poucos anos), famosa pelo carnaval popular e pela Festa do Divino, além de ser o berço de Oswaldo Cruz. Tenho outra camiseta com fotos de janelas de Pirenópolis, GO, que abriga bela cavalhada e uma igreja do século XVIII bi-incendiada. Patrimônio histórico, no Brasil, sofre!

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