De Madri: Saiba como o Atlético eliminou o Barcelona da Liga dos Campeões com coragem e coração

Quem ama o futebol, o conhece e consegue ter um pouco de objetividade ao fazer previsões, sente o que vai acontecer ao chegar no local do jogo.

Quando desci na estação de metrô de Pirâmides e passei pelo Paseo de las Acacias, em direção ao estádio Vicente Calderón, percebi que havia me equivocado de resultado na aposta do bolão dos meus amigos.

De todos os lados, o vento exalava confiança e vitória, e uma fumaça vermelha decorava o caminho que conduz ao estádio colchonero.

Milhares de pessoas desciam entusiasmadas.

Para um torcedor do Barcelona como eu, aquela áurea era preocupante.

Fui ao estádio com meu amigo Mario Torres, torcedor do Atlético.

Nos encontramos por acaso em um dos vagões do metrô lotado que ia em direção ao rio Manzanares, onde fica o estádio do time de Simeone.

O clima no Calderón é um dos melhores da Espanha.

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Eu e meu amigo Mario Torres (à esq.), estudante de jornalismo na Faculdade de Ciencias da Informação – Universidad Complutense de Madrid, jogamos a Liga do Reitor (torneio entre cursos) e vimos o jogo Atlético 2×0 Barcelona nas ruas de Madri, como milhares que não conseguiram ingresso, mas vibraram com classificação

A torcida do Atleti lembra uma torcida brasileira ou argentina, principalmente esta, pois cantam o jogo todo e apoiam o time com “coragem e coração”, como diz um trecho do hino do clube.

Jogar ali te reduz em tamanho.

Era justamente assim que eu me sentia ao redor de tantos torcedores rivais, infiltrado, calado, fazendo conjunturas e imaginando o que o Barça tinha que fazer para se classificar.

Nesta manhã, escrevi no Facebook que, sem Messi, não haveria semifinal – como havia escrito em 2013 nas semifinais entre Bayern de Munique e Barcelona que, sem “santo Messi não havia milagres”.

O jornal Sport, de Barcelona, no dia seguinte ao da eliminação, deu esse título como manchete.

Naquela ocasião não houve milagres e, nesta eliminatória, não houve classificação.

A nós, devotos de Lionel Messi, o “espírito santo” da história do Barça – Cruyff é o pai, Guardiola, o filho – , sempre nos resta a esperança.

E era com esperança que olhei para o relógio e vi que faltavam 15 minutos para a partida começar.

Vicente Calderón e os milagres

Nenhum estádio que conheço tem mais chances de acontecer um milagre que o Vicente Calderón.

Em cima da rodovia M-30, sobre o rio Manzanares, está abaixo da eremita de San Isidro, patrono da cidade.

Ao redor de 1km do estádio existem, pelo menos, quatro grandes igrejas, inclusive a Catedral de Almudena, padroeira de Madri.

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Jogo entre madrilenhos e barceloneses são verdadeiras guerras de cânticos

Mas milagres podem ser que não existam, então o principal jogador do Atlético de Madrid, Diego Simeone, o cholo, preparou seu time para uma batalha e para o inferno que eles gostam de criar – e que sem a torcida de principal agente seria impossível.

Fora do estádio não se escutava dentro, pois fora também estavam milhares de colchoneros cantando o tempo todo.

Começou o jogo e conseguimos entrar em um dos bares ao redor do estádio.

Péssima ideia… Para mim, ao menos.

O Barcelona não pressionava e não era pressionado.

Vi o primeiro tempo desviando as inúmeras cabeças que estavam na minha frente.

O Atleti era melhor, mais bem postado, fazia o seu jogo e mantinha sua estratégia: levar o jogo o mais longe possível com o 0 a 0.

O resultado mínimo, 1 a 0 para os de Simeone, garantia a classificação.

Como aconteceu em 2015, na semifinal da Copa do Rei entre ambos os times, o objetivo dos colchoneros era fazer o primeiro gol.

Naquela ocasião, um Barcelona insuperável virou o jogo para 3 a 2 e foi à final.

Este ano o time não chegou tão bem.

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Vicente Calderón é um dos estádios mais ‘quentes’ da Espanha

O jogo seguia sem emoções quando Antonie Griezzman, “o pequeno príncipe”, aproveitou cruzamento da direita e fez 1 a 0.

Meus pés saíram do chão e fui conduzido para frente e para trás institivamente, sem controle de meus movimentos.

O barulho do bar, da rua, dos apartamentos ao redor do parque Madrid Río, da cidade e do Vicente Calderón foi ensurdecedor.

Banho de bebidas alcóolicas foi inevitável.

Abraço de desconhecido e uma sensação de vazio corroeram meu peito.

Quando a esperança te move, e ela me guiou até ali, você não se sente vazio.

Com os gritos dos torcedores do Atlético, meu corpo esvaziava de esperança, e a melancolia ganhava espaço.

Terminou o primeiro tempo

A sensação era a que eu senti quando cheguei na rua Alexandre Dumas, esquina com o estádio, e que me fez arrepender do placar que apostei no bolão.

Sentia que o Atlético passaria às semifinais e eliminaria o Barcelona outra vez, como fez em 2014, na mesma fase, hora, local e ocasião.

Decidi ver o segundo tempo em casa.

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Griezzman marcou o primeiro; ele é um dos talentos do Atlético e da Seleção Francesa, anfitriã e favorita para a próxima Euro. Foto: Gerard Julien/AFP

Foi melhor assim.

Subindo a calle de Toledo, eu ouvia o Vicente Calderón urgir e o sentimento de melancolia foi trocado pelo de tristeza.

Quem ama o futebol e um clube – ou dois, como é o meu caso – , sabe que sentimento é esse.

É o mesmo sentimento que muitos de nós sentimos na semifinal da Copa, entre Brasil e Alemanha.

Uma raiva inicial, depois uma melancolia e uma tristeza, como se não houvesse amanhã.

Hoje não foi igual, claro.

Mas a tristeza foi preenchendo meu corpo até quando abri a porta do prédio e aqueles intermináveis gritos de: “Atleti, Atleti, Atleti”, momentaneamente cessaram.

O jogo

No segundo tempo, o Barcelona resolveu jogar o que esqueceu de fazer no primeiro.

O Atlético fazia o que melhor faz: se defender.

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‘Pequeno Príncipe’ levanta milhares de torcedores ao abrir placar contra time de Messi, Neymar e Suarez; agora Atlético espera sorteio para definir adversário nas semis da Champions League. Foto: Gerard Julien/AFP

Admiro muito o rigor tático e a disciplina estratégica do time de Simeone.

Há dois anos era o anti futebol puro e simples.

Hoje em dia é uma mescla mortal de se defender muito bem e atacar com extrema velocidade e precisão.

Prefiro ainda, e sempre vou preferir, o estilo de jogo do Barça e do Bayern – para frente.

Da Alemanha e da Espanha. Atacar e atacar.

O futebol total do mestre Cruyff.

Mas com o Atlético de Madrid o futebol “de resultado” tem certo charme.

O Barcelona marcava gols em todas partidas de Champions League desde abril de 2014; o time de Luis Enrique chegava ao jogo com oito vitórias seguidas sobre o de Simeone.

Torcedor se agarra no que pode.

Mas… A última vez que o time de Messi e companhia não marcou gol na Champions foi justamente contra o Atlético, e foi eliminado.

O jogo era um ataque contra defesa, mas sem muito perigo.

Era o típico jogo que se joga por duas semanas com mesmo resultado.

Roubada de bola no meio-campo, contra-ataque para o Atlético.

Mão de Iniesta.

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Técnico argentino Diego Simeone mudou postura do Atlético de Madri, hoje um dos times mais temidos da Europa, ao misturar bom nível técnico e velocidade ao atacar, e uma pegada extrema na hora de defender

Pênalti para os donos da casa.

A celebração do pênalti foi maior que a do gol, concluído por Griezmann, e quase defendido por Ter Stegen – que, para mim, falhou no primeiro gol.

Era o 2 a 0.

Um gol ainda servia para o Barcelona levar o jogo para a prorrogação.

Três derrotas consecutivas não aconteciam há anos.

Mão de Gabi dentro da área, o árbitro ignora e marca fora.

A campanha dos jornais de Madri surtia efeito e o temor de “ajudar” o Barcelona impediram de ver o óbvio.

Messi cobra a falta para fora aos 47 do segundo tempo.

Mas esquecemos o árbitro e devemos focar no que não fizemos.

Apita o árbitro e com todas as janelas fechadas ouço gritos da torcida a mais de 1,5km do estádio.

Mais uma vez havia o estádio de Manzanares no caminho.

Mais uma vez o Atlético de Madrid elimina o Barcelona.

Em 17 jogos, Simeone só venceu o Barcelona duas vezes.

Barcelona's Argentinian forward Lionel Messi stands after Atletico's second goal during the Champions League quarter-final second leg football match Club Atletico de Madrid VS FC Barcelona at the Vicente Calderon stadium in Madrid on April 13, 2016. / AFP / CESAR MANSO (Photo credit should read CESAR MANSO/AFP/Getty Images)
Foto: CESAR MANSO/AFP/Getty Images

Ah, que frio são os números!

O Atlético de Madrid mereceu e, por méritos, se classificou.

Teve tudo que faltou ao Barcelona, que encarou o pior adversário no pior momento.

Intensidade, rigor, disciplina, vontade, raça e, precisão.

Tal qual em 2014, quando os colchoneros eliminaram os azul-grenás na mesma fase, passam às semifinais Bayern de Munique, Real e Atlético de Madrid e um time inglês. Naquela ocasião o Chelsea, e nesta o Manchester City, para mim o grande azarão.

Só espero que o final seja diferente do que aquele vivido no estádio da Luz, em Lisboa, na única final da história entre times da mesma cidade.

 

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ Ver todos os artigos ]

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