De mãos dadas com Lima Barreto

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Recebo, de Luciana Hidalgo _ uma das mais inspiradas estudiosas da obra de Lima Barreto _ uma idéia do autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” que reforça algo que venho tentando, precariamente, pensar: o papel da literatura na construção de laços afetivos entre os homens.

Diz Lima Barreto: “A arte literária se apresenta com um verdadeiro poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual para traço de união, em força de ligação entre os homens, sendo capaz, portanto, de concorrer para uma harmonia entre eles, orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas”.

Interessa-me aqui, em especial, a idéia do contágio. A idéia das almas soldadas. A literatura como peste: um livro nos envolve, ele nos engole, somos detidos em seu domínio. Ele nos prende, nos solda. Após a leitura, vem o impulso de transmitir essa experiência. Ela é, porém, uma experiência intransmitível, já que o romance ou o poema que leio, embora seja o mesmo romance ou poema, não será o mesmo romance ou poema que você lê.

Ainda assim: é possível transmitir não um “conteúdo”, ou uma vivência _ pois a literatura, muito mais que ofício ou “especialidade”, é uma travessia. Não uma tese _ a literatura nada tem a defender _, tampouco um ponto de vista _ ela é sempre um emaranhado de pontos de vistas. Transmitir, no entanto, um golpe. Livros nos golpeiam. Muitas pessoas adoencem dos livros que lêem _ eu mesmo já adoeci.

Só na esfera do contágio (um nome mais simples: da paixão) podemos pensar em transmitir alguma coisa. Ou será simples aula, cartilha, apostilha. Não: a literatura não inclui o campo do certo e do errado. Está muito além das normas. Diz, ainda, Lima Barreto sobre seu poder integrador: “Ela se apieda tanto do criminoso, do vagabundo, quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina”.

É bom não confudir: Lima não fala de uma piedade “espiritual”, algo que diz respeito às religiões, mas não às ficções. Fala (repito a palavra, nunca é demais repeti- la) de um contágio e, portanto, de um sentimento que nos derruba e “adoece”. Algo que se passa ao nível do corpo. Algo que nos devora, que nos mastiga (mais uma vez e sempre Oswald!). Uma experiência que nos transforma.

É esta transformação que cabe transmitir. Esta metamorfose, sim, contagia. É uma praga. Uma peste. Livros deformam e mudam as pessoas. Pensemos nos escritores. Será possível imaginar que Guimarães Rosa continuou a ser o mesmo homem depois de escrever o “Grande sertão”? Será possível crer que Clarice Lispector continuou a ser a mesma mulher depois de escrever “G.H.”? Quantos homens cabem dentro de Fernando Pessoa? Quem pode dizer, com certeza, quem foi Carlos Drmmond?

Os leitores também se deixam afetar. Também são engolidos (digeridos) pelo que lêem. Ao abrir um livro, é bom lembrar, brincamos com fogo. Os livros que nos engolem, mas que nós também engolimos, não se tornam “dejeto” _ só para usar uma palavra delicada _, mas para se transformam em substância, em energia, em sangue.

Sim: a literatura produz sangue. Mais ainda: ela é feita com sangue. Pergunte a Clarice, pergunte a Rosa, pergunte a Pessoa. O que sobra (o dejeto) é aquilo que fomos incapazes de escrever, ou de ler. Sobram muitas coisas em uma escritura e também em uma leitura. E só por isso retornamos ao mesmo livro, uma vez e mais outra vez, e ele se transforma em outro livro, e mais outro, e outro ainda. Ficções são intermináveis.

O contágio: eis o laço. Vaticina Lima Barreto, em uma afirmação comovente que muitos tomarão como um exagero retórico: “O destino da literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de poucos para todos”. Vê na literatura, ainda, uma “missão quase divina”. Não deixa de ser uma boa metáfora: a escrita de ficção nos religa. A nós mesmos e aos outros. Há uma cola nas palavras. Ficções grudam.

Assim como se registra o tipo sanguíneo, devíamos registrar também o “tipo ficcional”. Mas, ao pensar em “tipos”, não matamos a ficção? Aquelas “digitais” imaginárias que nos distinguem dos outros mas que, por contraste, também nos ligam aos outros. Digitais, no entanto, oscilantes, que nunca se deixam registrar. A literatura tem um estranho poder de associação. Ato solitário _ escrevemos ou lemos em absoluto silêncio _, ela, apesar disso, estende pontes secretas entre ilhas (homens) que, de outro modo, ficariam perdidos para sempre. Não pontes fixas, mas pontes que ondulam. Pontes móveis, que nos levam a outro, e mais outro lugar.

Vejam o fervor que liga (religa) os leitores de CLarice, de Rosa, de Pessoa, de Drummond. Eles formam bandos de apaixonados, que se encontram nos bares, nas universidades, nas praias, nas bibliotecas, para dividir o gozo da palavra. Ali onde encontro uma coisa, você encontra outra. Leio em uma direção, você lê na direção contrário. Sofro um forte impacto, você sofre uma queda. Cada leitura é uma leitura: temos sempre muito a trocar.

Exalta-se o apaixonado Lima Barreto: “A arte, tendo o poder de transmitir sentimentos e idéias, trabalha pela união da espécie”. Talvez não se deva ir tão longe. Se pode conduzir a uma salvação, a literatura o faz no âmbito do particular. Muitas pessoas já foram, sim, salvas pelos livros que leram! Daí pensar na união da espécie, bem: por que não? Trata-se de um ideal e, como qualquer ideal, irrealizável. Ideais são sinais que apontam caminhos. São rotas, e não destinos. Luzes, e não estradas.

Por isso a literatura é, mais que um ofício, uma aventura. Ela é uma caminhada, provavelmente uma caminhada sem fim. Mas que consolo se encontramos uma boa companhia pelo caminho! Por exemplo: Lima Barreto.

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