De olho na estante

Manoel Onofre Jr. é o segundo da esquerda para à direita.

Por Hildeberto Barbosa Filho

O diário parece ser um gênero periférico, se pensarmos o literário no rigor de suas propriedades intrínsecas que elegem a forma como finalidade última do labor-estético. A força do conteúdo e a exigência do testemunho como que sobrepõem o dizer ao fazer,  o que não elide, de todo, a possibilidade de tomarmos este tipo de discurso,  como  tantos  outros  (memórias,  cartas,  reportagens,  autobiografias  etc.),enquanto manifestação literária propriamente dita.

É assim, portanto, que vejo “A servidão diária” (Natal: CJA edições, 2014), do norte-rio-grandense Manoel Onofre Jr. Cobrindo os anos de 1988 a 1913, datado por dia e mês,  em atenção detalhada aos  compassos  de Cronos, este  diário  se impõe,sobretudo,  como  a  tentativa  de  esboçar  o  retrato  de  uma  subjetividade  em  sua configuração  humana  (o  homem)  e  intelectual  (o  escritor).   Daí  porque,  no  caso específico de Manoel  Onofre Jr.,  e  diria de muitos  outros  autores, vida e obra não podem  ser  artificialmente  separadas,  pois  os  limites  de  sua  ficção,  calcada principalmente  no  “chão  simples”  da  memória  telúrica  e  no  lendário  da  tradição folclórica e popular, brotam do diálogo entre estas duas dimensões, uma vez que os ingredientes de uma iluminam a compreensão dos materiais da outra. Este diário pode ser compreendido neste sentido. O homem que gosta de viajar, talvez assimilando a lição de Montaigne; o melômano e o cinéfilo, preocupado em fazer o balanço de suas preferências artísticas;  o  leitor  voraz  e  onívoro  que  vai  da  história,  passando  pela antropologia, a filosofia e a política, até a literatura; o amigo dos amigos na convivência das “afinidades eletivas”, enfim, o observador dos encontros e desencontros da vida cotidiana, em seus espetáculos e miudezas mais triviais, tendem a emitir os sinais para que se clarifiquem os meandros de suas inclinações ficcionais e literárias. Homem e escritor  se fundem, pois,  num texto de natureza fragmentária,  porém sedimentado pela unidade técnica de estrutura e estilo característica de um diário, mesmo que nãoaflore, em suas páginas, aquele tom de investigação íntima mais profunda, à maneira de  um  Lúcio  Cardoso,  de  uma  Maura  Lopes  Cansado  ou  dos  “euísmos”,  de  um Ascendino Leite, por exemplo. Não obstante, recorre, nestas páginas, a fotografia do homos sapiens, do  homem  culto,  do  que  cultiva  os  prazeres  da  estesia  em  seus múltiplos idiomas, daquele que serve, assim, como estímulo ao bom gosto e ao lado mais apreciável da vida, sobremaneira da vida literária. Linguagem simples, matéria sugestiva,  focalização empática,  riqueza cognitiva me parecem traços  que fazem da leitura deste livro uma experiência prazerosa.

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A infância, ou melhor, “essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações”, no dizer de Rainer Maria Rilke a Franz Xaver Kappus, em “Cartas a um jovem poeta”, é sempre um estuário aberto à dicção lírica. Astrid Cabral, em “Infância em franjas”  (Rio de Janeiro:  Editora  KD,  2014),  não ignora  o  teor  desta  verdade e decide,  já  na  plena  maturidade  de  sua  criação  poética,  evocar  as  experiências  da primeira  meninice,  naquilo  que  elas  podem  conter  de  realidade  e  de  magia,  em poemas que procuram dar guarida ao olhar delicado e à sensibilidade encantatória da criança. “Cabeça de menina”, “Armário de lembranças”, “Meu pai em mim” e “Passeio em Madalena” são as partes constitutivas desse poemário. É na primeira que o eu lírico mais se cola à perspectiva infantil, captando, assim, o jeitinho enviesado, oblíquo e surpreendente  de  sua  percepção,  ao  mesmo  tempo  lúdica  e  poética,  tão  bem demonstrada em poemas,  como “Paisagem perdida” e “A mágica das palavras”.  Ao toque  melopéico  daquele  (“Piribalacuxi  tapiribalabá/chegou  maracatu/pra  fazer balacubá./Boneca preta de Maracatu/boneca preta que faz lundu”.) junte-se o vigor logopéico deste (“{…} as palavras eram mágicas./As coisas podiam ser ditas/de maneira enviesada./De  brinca  o  mundo  podia/ser  mostrado  à  vera”.).  Na  segunda  parte,  a memória  de  coisas  e  o  “claro  enigma”  dos  fatos  constituem  esse  armário  de recordações que não se esvazia,  uma vez que as lembranças se fazem tangíveis  no presente fundante do verso. “Meu pai em mim” é simultaneamente uma ode e uma elegia a registrar o sentimento de perda e o pacto irredutível com a origem. Não fora o pai, que seria da literatura? Eis uma indagação de Rolland Barthes. A última parte, emprosa poética, é uma crônica sobre o bairro Madalena, do Recife, onde, segundo a autora, seu “mundo começou”. Isto é, seu mundo de palavras, de perplexidades e de poesia.

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O minimalismo é uma forte tendência da literatura contemporânea. Economia de meios e densidade semântica se associam num corpo textual que procura tocar na essência das coisas. Cláudio Feldman, paulista de Santo André, não é nenhum neo-fitonessa  trilha  do  muito  dizer  com  poucas  palavras.  “Gomos  de  uma  ácida  laranja”(Editora Taturana, 2014), sua mais recente coletânea de contos, ilustra bem esta aguda face do escritor. “Flashes de uma era insensata” é como ele próprio define seus textos na contracapa, sinalizando, assim, para a camada crítica em torno dos desarranjos de uma sociedade pós-moderna, entranhada  nas  entrelinhas  dos  rápidos  enredos.  O narrador dessas pequenas histórias absurdas  não tem nenhuma complacência para com o sofrimento alheio; seu olhar, irônico e cáustico, faz de cada ocorrência, seja amais trivial, seja a mais fantástica, seja a mais hilária, seja a mais grotesca, uma peça de humor negro que surpreende e desconserta. Dois exemplos, dos mais sintéticos, para comprovar: “Coito fobia”: “Morreu  aos  100  anos,  virgem.  Os  vermes  finalmente  a defloraram” (p. 28); “O herdeiro”: “A cicuta, planta venenosa, é muito parecida à salsa.Tão  semelhante  que  meu  tio  comeu-a  na  salada  que  preparei  e  nem  percebeu.Infelizmente não entrou para a  História  como Sócrates”  (p.  41).  Imaginação, hiper-realismo, estranheza, a magia e o grotesco, tudo se mistura neste pequenino glossário de seres e situações insólitos, porém perfeitamente factíveis nessa “era do vazio” que ocupa as loucas avenidas do mundo contemporâneo. Mundo que Cláudio Feldman, na qualidade de escritor criativo, observa de dentro e por dentro, mas com a distância necessária para detectar suas fissuras e seus avessos.

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