De porteiros a curadores da notícia

Por Carlos Castilho
NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA (Reproduzido do blog Código Aberto)

O papel do curador de notícias ganhou uma enorme relevância durante os protestos de rua na Inglaterra, quando informações postadas por meio de ferramentas eletrônicas de comunicação como Twitter, Blackberry, Messenger, Facebook, Flickr e chats online provocaram uma enorme cacofonia informativa que deixou muita gente perplexa, inclusive a polícia londrina.

Olhando assim rapidamente, a diferença parece pouca, porque tanto o curador como o porteiro de notícias selecionam o que o público vai ler,ouvir ou ver. O jornalista porteiro da notícia (uma tradução da expressão inglesa gatekeeper) seleciona o que será publicado ou não. Já o jornalista curador de notícias recomenda e contextualiza o que seus leitores, ouvintes ou espectadores receberão. A expressão “curador” está se tornando mais popular do que a também inglesa gatewatcher (monitor de portões).

Prova judicial

Mas a mudança vai muito além de uma opção por expressões. Ela reflete uma situação inédita na atividade jornalística porque marca a incorporação do público com personagem ativo na produçãode notícias. O porteiro apenas selecionava as notícias que iriam para o lixo e as que seriam publicadas, a partir de material fornecido por repórteres, agências ou por press releases.Para ele, o leitor era um personagem distante sobre o qual tinha ideias muito vagas, e em geral equivocadas.

Já o curador de notícias, que ainda não foi oficializado mas existe na prática, usa como matéria prima dados e fatos fornecidos pelo público. O jornalista tem uma relação direta com os leitores,ouvintes e espectadores. O seu grande mérito não é a capacidade de selecionar, mas a habilidade de incentivar a participação e a criatividade das pessoas. São elas os grandes protagonistas da informação. O curador apenas abre o caminho para que as pessoas contem suas histórias.

Aqui surge também outra grande diferença entre os porteiros e os curadores no jornalismo. Os primeiros produziam relatórios em formato jornalístico. Eram eles que contavam as histórias, produzindo uma representação da representação feita pelosentrevistados. Uso a palavra “representação” como sinônimo de narrativa pessoal feita pelo jornalista. A narrativa não é o fato em si, mas a materialização da forma como o repórter o percebeu.

Já os curadores permitem que as pessoas contem elas próprias as suas histórias. Cabe ao jornalista selecioná-las de acordo com o contexto da publicação, bem como fazer uma checagem mínima para identificar as mais relevantes e carregadas de significados. Um exemplo clássico é o reproduzido por Steven Rosenbaum (autor de Curation Nation)no Relatório Nieman 2011,em que ele cita o caso de uma dona de casa americana, vítima de erro médico numa cirurgia de implante de silicone, que mandou um vídeo no qual ela se despe diante de sua própria câmera para mostrar as enormes feridas que o cirurgião se recusava a tratar.

O vídeo foi enviado a um programa que recebia informações do público, que eram submetidas ao curador de notícias da emissora. O material foi discutido durante vários dias pelo curador com colegas da Redação até que eles decidiram pela divulgação. O vídeo dificilmente seria feito por uma equipe do programa porque isto seria encarado como violação da privacidade. Mas como foi feito pela própria autora, ganhou a autenticidade de uma prova judicialdepois do fato ter sido verificado por uma jornalista. Sem a participação do público, a informação não teria entrado na agenda da imprensa.

Redes sociais

O norte-americano Jeff Jarvis, autor do blog Buzzmachine,foi quem cunhou a expressão “curador de notícias” já em 2008. Depois o tema foi retomado pela professora de jornalismo online Mindy McAdamse mais recentemente pela também professora Betty Saad, da Escola de Comunicações e Artes da USP. Todos eles admitem que a curadoria tem muita coisa em comum com a função de editor de pauta e do chefe de reportagem, mas a grande diferença é que no sistema tradicional a participação do público na definição da agenda é muito menor do que no modelo participativo – cujo crescimento é uma consequência direta da popularização das ferramentas eletrônicas de captaçãode imagens e de publicaçao de textos.

Um jornalista que testou na prática o funcionamento dacuradoria de notícias é o norte-americano Andy Carvin, que produz um twitter sobre o Oriente Médio a partir de contribuições de pessoas que moram na região. Andy seleciona o material e reproduz as colaborações mais relevantes e fundamentadas. Outro que aderiu à curadoria foi o free lancer inglês Neal Mann, que cobriu os protestos em Londres a partir do seu twitterusando informações fornecidas por outros tuiteiros, blogueiros e usuários de redes sociais.

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