De quando os livros escolhem a gente

Cena de “A Glória de um covarde”, de John Huston, baseado no livro “O emblema vermelho da coragem”

Por Tácito Costa

“O frio deixava a terra com relutância, e a neblina em dispersão revelou um exército estirado ao pé dos morros, repousando. Quando a paisagem mudava do pardo para o verde, o exército acordou e começou a tremer de ansiedade ao rumor dos boatos. ” Bonito, não?

É o início do romance “O emblema vermelho da coragem”, do escritor norte-americano Stephen Crane. Conta a história da participação do recruta Henry Fleming na guerra civil norte-americana. Detalhe, Crane jamais esteve numa guerra, mas descreve o campo de batalha com uma precisão que mereceu comparações até com gigantes como Tolstoi. rubro 1

O livro resultou no filme “A glória de um covarde”, do grande diretor John Huston. Não lembro se vi esse filme, pretendo baixá-lo tão logo acabe a leitura.

Comecei a lê-lo há poucos dias, mas a leitura segue devagar porque as notícias, artigos e entrevistas, minhas próprias reflexões e intervenções no debate público sobre o golpe em curso no Brasil me tem tomado muito tempo.

Alguns livros a gente escolhe. Em certas ocasiões é o contrário. Um amigo, não lembro qual, falou-me elogiosamente de “O emblema vermelho da coragem” há um tempo. Eu fiquei curioso, guardei na memória, mas deixei pra lá.

Conversando recentemente com o poeta Demétrio Diniz sobre estilo literário e que tais, ele mostra-me um livro da escritora francesa Marguerite Duras. Eu folheio e no final tem uma série de outros livros já editados da mesma coleção, “Clássicos”, da Companhia das Letras em parceria com a Penguin, entre os quais o de Stephen Crane.

Leitores compulsivos acabam desenvolvendo manias e misticismo na relação com a literatura. Como o que citei acima de às vezes sermos escolhidos pelos livros. Depois desse episódio no apartamento de Demétrio, não tive mais dúvidas, Crane estava me “perseguindo”, o jeito era lê-lo sem demora.

Estou nas primeiras páginas, mas somente o prefácio, escrito por ninguém menos que Joseph Conrad, já pagou o ingresso, como se diz por aí.

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