De quando o rádio me conectava com o mundo

Eu sou apaixonado por rádio. Um amor que remonta à infância. Não havia televisão em Santana, só chegou na década de 1970. A histórica Copa do Mundo em que ganhamos o Tri chegou-me pelo rádio. A de 1974 já acompanhei pela TV, com imagens em preto e branco, ainda claudicantes, e direito a uma tela colorida. Os mais antigos lembrarão dessa estrovenga, que hoje recordo mais como excentricidade. tv cores

O rádio era nossa ligação com o mundo. Eu sonhava com um. Como antes tinha sonhado com uma bicicleta, sinônimo de liberdade, que ficou mesmo só no sonho. Durante meses, aí por volta de 1973, eu juntei todas as moedas possíveis e com ajuda da minha tia Nenê, com quem eu morava, completei o valor correspondente a um daqueles radinhos de bolso. Na época, uma fortuna, 90 Cruzeiros. Compramos em Natal, na famosa loja “A Sertaneja”, de Radir Pereira.

Tia criava uns porquinhos. Recolhia restos de comida das casas vizinhas, misturava com ração, quando podia comprar, e engordava os bichinhos. Sem renda certa, próximo ao natal ela vendia um ou dois porcos e gastava uma parte com presentes para mim, um cordão de ouro, um sapato, uma camisa “volta ao mundo”, um perfume Topázio, um time de botão torneado…

Mal comparando um radinho de pilhas naquela época, nas mãos de um menino, era como se fosse hoje a última versão do ipod. Junto com o presente veio a lição, que se consolidou nos anos seguintes. Compreendi que dependeria de esforços próprios para ter as coisas com que sonhava.

O sinal das emissoras de outros estados era ruim durante o dia, mas à noite melhorava. As minhas preferidas eram as rádio Globo (Rio), Sociedade da Bahia (Salvador) e Rádio Clube, do Recife. E como eu não tinha hora para acordar entrava madrugada adentro sintonizado.

Por que eu estou escrevendo sobre isso? A ideia era um comentário sobre o aplicativo Spotify, serviço de música comercial em streaming, que descobri no ano passado e que tem me proporcionado momentos de deleite musical em meio a um cotidiano que não tem nada de arte e nem de engraçado. Mas quem disse que eu mando nas palavras e nas histórias, que acabam se impondo e fazendo da gente o que querem.

Essa semana, por exemplo, enquanto trabalho, voltei-me para o samba cantado por mulheres e já ouvi Maria Rita, Roberta Sá, Mariana Aydar (dica da amiga Sara Vasconcelos), Teresa Cristina e o álbum “Dona Ivone Lara: samba book”. Entre os intérpretes da grande sambista… Carminho. Eu não imaginava ouvir a fadista cantando samba. Achei massa!

É alvissareiro ouvir essas excelentes cantoras com trabalhos dedicados ao samba, resgatando nomes antigos e lançando novos. Ao mesmo tempo noto a presença de muitos jovens nas rodas de samba pela cidade. Sinais de que o samba continua firme e forte.

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