De que falam ex-presidentes?

Por Muniz Sodré
NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

A matéria do Globo (7/8/2011) sobre as palestras do ex-presidente Luiz Inácio da Silva deixou os leitores desinformados sobre uma questão candente: de que fala realmente o aclamado político? É verdade que uma retranca na reportagem fornecia uma lista de tópicos correspondentes a cada data de palestra, desde a história de vida até as vantagens de se investir no Brasil de hoje. Nada se dizia, porém, sobre o teor argumentativo ou sobre o desenvolvimento dos temas.

É preciso deixar bem claro aqui, desde o início, que esta indagação não se pauta absolutamente pelos conhecidos preconceitos quanto à qualidade intelectual de Lula. Do que pudemos observar ao longo de anos (às vezes, de bem perto), o ex-presidente tem o foco preciso sobre problemas nacionais e uma malícia política que costuma desorientar o ouvinte convicto de que um vernáculo não cultivado impede o pensamento culto.

A indagação parte de Lula, na verdade, para se estender ao fenômeno contemporâneo de ex-presidentes que ganham muito dinheiro com palestras. E ganham licitamente, também é bom que se diga, já que nenhuma lei impede a um cidadão que tenha exercido um importante cargo político de falar sobre sua própria vida ou mesmo sobre problemas nacionais, desde que evidentemente não violem qualquer suposto segredo de Estado.

Discurso sedutor

Por que é então relevante o assunto? Em primeiro lugar, pela hipótese de uma radical separação jornalística entre o que o presidente da República dizia em público e o seu atual discurso privado, régia e extraordinariamente remunerado. Ex-governantes como Bill Clinton e Tony Blair recebem cerca de 300 mil dólares por palestra. É o preço atualmente cobrado por Lula (no início do ano eram 200 mil dólares) que, segundo consta, é o dobro do que vale nesse mercado uma fala de Fernando Henrique Cardoso.

Tanto quanto nos casos de Clinton e Blair, permanece esotérico aos ouvidos do grande público o teor das palestras de Lula e FHC. Suponhamos que interesse aos pagantes ouvir diagnósticos confiáveis sobre a economia nacional. Não seria nem um pouco razoável presumir que tais diagnósticos proviessem da boca de um ex-governante, considerando-se que seus pronunciamentos, quando no exercício das funções de governo, são preparados por especialistas.

O lógico, portanto, seria buscar as avaliações na fonte dos discursos supostamente competentes. Mas como bem se sabe, esses discursos – sejam de um professor de economia ou de outro ramo do conhecimento – têm escasso valor de mercado enquanto tais, a menos que seus emissores sejam aquinhoados com as benesses das contratações de grandes empresas, geralmente do setor financeiro.

Não está em jogo, consequentemente, o puro e simples conteúdo das palestras. No caso de FHC, basta lembrar a sua conhecida frase (“Esqueçam tudo o que eu escrevi”), destinada possivelmente a enfatizar a natureza singular do poder de Estado. No caso de Lula, um arremedo dessa frase seria algo como “esqueçam que eu não escrevi”. Sim, porque o mais recente ex-presidente sempre fez questão de deixar claro que não lia, assim como não escrevia, nada. Não apenas livro ou jornal, mas também os discursos escritos por assessores: improvisava, e muito bem, como é notório. Proviria desses textos inéditos, quem sabe, o conteúdo das palestras em voga.

Nada, porém, nos assegura que a questão esteja no conteúdo, e isto vale para Clinton, Blair, FHC ou Lula. Além do mais, fica evidente que, se a questão fosse esta, outros ex-presidentes poderiam estar igualmente fortes no mercado das palestras. Mas ao que tudo indica, com relação a esses “outros”, os empresários antes pagariam para não os ouvir. Ninguém em são juízo pode imaginar alguém pagando para ouvir George W. Bush, por exemplo.

Se não é o que se fala, não nos parece também se tratar do como se fala (hipótese macluhaniana de “o meio é a mensagem”), uma vez que os palestrantes em voga não são conhecidos como fenômenos de oratória ou sujeitos de grandes discursos sedutores, ao modo desses pregadores religiosos que galvanizam os crentes. Não há, porém, como descartar a hipótese de que as palestras façam sentido capaz de repercutir junto aos ouvintes/patrocinadores.

“Sem parar”

Como se extrai sentido de um enunciado qualquer? Chamada em socorro, a teoria da comunicação – mais precisamente, a teoria dos atos da fala – nos diz que o sentido de um discurso ou de um produto artístico se obtém pela transposição dos significados efetuada por um ser humano numa situação comum. Compreendemos a fala do outro, de um interlocutor, porque recolocamos as palavras ditas num quadro de referência que nos é familiar, por meio de uma linguagem adequada. São vários os tipos de transposição, a exemplo da paráfrase, da interpretação, da metalinguagem etc.

Nem sempre é o raciocínio que é posto a trabalhar na compreensão do sentido, e sim a intuição. Isto implica, em vez de abstração e argumentação, uma experiência afetiva, análoga à experiência estética, que atua sobre a consciência do sujeito como uma lâmpada forte que se acenda de repente. A intuição põe os sujeitos da fala em contato com o individual e o qualitativo, atributos muito mais fortes e duradouros do que aqueles advindos da hierarquia do cargo ou da pura e simples liturgia do poder.

No caso dos ex-presidentes palestrantes, é de se supor que eles sejam capazes de provocar – por motivos de simpatia, de impressão de que o poder ainda lhe está colado à pele ou mesmo por obscuros interesses – efeitos significativos de compreensão intuitiva. Neste caso, sob a regência da lógica do sensível, pouco importa o conteúdo estritamente intelectual do discurso, e sim o seu impacto emocional. Importa que a palavra pareça provir mais do corpo inteiro do que da cabeça do falante, como se ele fosse uma espécie de encarnação da própria fala.

Isso possivelmente explicaria por que a palestra de Lula valha o dobro da de FHC e infinitamente mais do que a de grandes especialistas em problemas nacionais. Se convertêssemos sua fala à escrita, para calcular o valor monetário de cada palavra, não ficaríamos muito surpresos em descobrir que a palavra “Brasil”, pronunciada, equivalha a um salário mínimo e uma frase como “nunca antes na história deste país” ultrapasse o salário mensal de um professor. No mercado, ex-presidente pode ser uma reinterpretação do personagem Boca de Ouro.

Mas há outras abordagens possíveis para esse fenômeno, uma das quais ancorada na hipótese de que a fala possa não passar de um catadupa verbal, válida apenas como a “voz do chefe”. É o que esboçamos em livro (A Narração do Fato, Editora Vozes, 2009) para enfatizar que a vida acontece também, para além da dimensão discursiva, na movimentação dos corpos, nos embates coletivos e em signos indiciais, em que mais vigora a potência afetiva dos grupos do que a razão esclarecedora dos argumentos.

Citávamos então o depoimento de uma cubana, por ocasião da doença de Fidel Castro, a propósito dos famosos longos discursos (nos tempos gloriosos, alguns costumavam exceder dez horas) do dirigente cubano: “Quando vejo Fidel discursando, é como se estivesse vendo meu bisavô falando sem parar e sem nenhum motivo especial. Ele não tem mais nada a dizer… O povo ainda o respeita, mas não o ouve”.

Exemplos extremos

Uma situação análoga é descrita pelo antropólogo Pierre Clastres com referência aos indígenas sul-americanos, que obrigariam o chefe da tribo a falar durante horas, sem, no entanto, lhe prestar qualquer atenção. Para os indígenas, um chefe silencioso não é mais um chefe, não porque sua palavra seja plena de significado, e sim exatamente porque é vazia. É seu dever gerar essa fala separada da palavra forte, cheia de sentido, para que fique claro que a chefia está separada do eixo do poder, que este recai sobre o corpo da sociedade como um todo.

São casos bem diferentes, é verdade. Em ambos, entretanto, a fala do líder é um acontecimento, na acepção de um fenômeno que afeta a existência coletiva, mesmo que não se busquem motivações, nem um sentido maior. Quer dizer, do ponto de vista estritamente semântico, a fala tem significados, mas nenhuma função designativa: o enunciador não “designa” nada ao enunciatário. Há, porém, no fenômeno, uma parte excessiva, impermeável à lógica causal, mas que abre um amplo leque interpretativo em termos de ações, gestos e sentimentos. Trata-se, sem dúvida, de exemplos extremos, mas teoricamente indicativos de outra lógica pertinente à fala.

O novo nisso tudo é que essa outra lógica está sendo medida em dólares.

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[Muniz Sodré é jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro]

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