De racismo, do machismo e das nêga do Artur

O assunto comentado hoje foi a música Ma Nêga, do cantor e compositor mossoroense Artur Soares. Segue aí por baixo pra livre interpretação. A canção recebeu a pecha de racista e machista. O trecho mais “censurado” foi esse: “Nêga, eu vou te prender na senzala iorubá e o que eu ensinar você vai ter que aprender, porque eu vou te maltratar, pretinha”.

Antes, esclareço: já recebi troféu de Manicaca do Ano e sou fã da banda Reflexus; fiz capoeira oito anos e só parei por problemas na coluna. Mas se enxerguei machismo (e não, racismo) nas palavras de Artur Soares foi na resposta dele às críticas da Isadora Lima, no facebook (Mandar lavar roupa, cumpade?). Na canção, apenas alguns trechos cabíveis de interpretações mais radicais.

Primeiro, o clipe exalta manifestações da cultura negra, como a capoeira e danças afros; destaca artistas de raízes negras, a exemplo de Khrystal e da atriz mossoroense Tony Silva, mostra a beleza de negras lindíssimas, sorridentes. Seria um clipe racista? Não seria mais um galanteio, o trecho criticado, que infelizmente remete à uma triste memória escravocrata?

Acho que o tema do preconceito à negritude é delicado pelo racismo recorrente nas esquinas e por essa história sofrida. Por isso, pisar em ovos mais das vezes é preciso para não escorregar no sabão feminista. Quando escutei o referido trecho da música pensei naquele cara desejoso de amarrar a neguinha na cama e “maltratar” de tanto amor e sexo. Algum mal nisso?

“Ah, mas há pessoas que interpretam de outra maneira e isso pode desencadear um senso coletivo pernicioso, machista, racista…”. Bom, então, Wando, meus respeitos à sua memória! Magal, seu machista safado! Reginaldo Rossi, agora descobri verdadeiramente quem você é! Seu Jorge, qual o mal de ser burguesinha? Odair José, cretino! E, meu amigo Cabrito, é melhor você se esconder!

Ademais, acho bacana, de todo modo, posicionamentos contrários, mesmo que politicamente chatos. Nada contra a radicalidade. Os radicais mudaram e mudam o mundo. Jesus foi um radical. E bem que precisamos de transformações profundas. Apenas achei exagerada essa interpretação da música, reforçada depois pela resposta do nobre cantor. Mas relaxemos. A música é legalzinha.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Livia Cavalcanti 5 de novembro de 2014 13:16

    Nascemos numa sociedade tomada por preconceitos dos mais variados níveis. Ao longo da vida absorvemos vários deles, desavisadamente, sem que carreguemos o estigma de sermos taxados de algum tipo de "ista" … ocorre também que quando acessamos mais informações do que nos foi proporcionado naturalmente, refletimos sobre vários desses comportamentos. Acho um erro banalizar a referida letra, só porque milhões de outros compositores tiveram o mesmo comportamento no passado ou qualquer outra desculpa, como a tal da licença poética. Achava digno tentarmos não perpetuar certas coisas. Se a música falasse de história (como alguns tentaram defender) traria claro nela que no tempo da escravatura as mulheres negras eram tidas como seres inferiores (e os homens negros também) que serviam como depósito de sêmen de vários senhores da época… trazer pra uma música onde um homem se declara pra uma mulher elementos de um tempo o qual não me orgulharia pra mim é sim um mal… Como disse no início, lutamos diariamente contra esses pequenos preconceitos arraigados (talvez hoje possua vários que ainda não detectei e que oxalá um dia eu caia em mim pra uma mudança de comportamento), mas ser alertado sobre eles e coadunar com sua perpetuação, pra mim já sai da simples banalização pra um pensamento consciente e, ao meu ver, equivocado.

  2. Will Cosme 5 de novembro de 2014 4:58

    Me sinto atraído pelas músicas do Artur Soares por serem potiguares e gosto bastante da cultura local. Percebo um certo despreparo por parte do cantor ao compor os trechos mais polêmicos e só os percebi por que li a letra da música sem o clipe e com a tonalidade radical tomada por quem fez a exclamação/acusação/identificação…
    Acho esse tipo de critica bem construtiva, tanto para o compositor quanto para quem o acompanha, pois a reflexão nos toma de vez ou outra (quem dera em todas as situações) e nos faz piscar os olhos e nos situarmos em que e o que estamos nos agraciando sem compromissos além do aproveitar a bela voz e a melódia das músicas.

  3. Anchieta Rolim 4 de novembro de 2014 21:59

    Conheço esse talentoso artista. Ele pode ter sido infeliz na letra da música, talvez pela imaturidade ou ingenuidade. Mas, não vejo nada de preconceituoso nem de racista na figura humana desse jovem.

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