rapel

De rapel e do protagonismo feminino nos esportes de aventura

Rapel me parecia uma aventura distante. Associava aos filmes de ninja de minha infância. Preferia a segurança do pé no chão. Trilhas, corridas… Aventuras que eu tivesse o controle completo de minhas ações, do meu corpo e que eu pudesse contemplar a natureza com minha calma característica.

Mas algumas decepções da vida me empurraram a um nível maior de adrenalina. E la fui. Éramos um grupo de 20 pessoas. Mulheres geralmente predominam nesses grupos de aventura. Gosto de associar à necessidade de elas se libertarem de tantos séculos de repressão. Desejo de liberdade, de se sentirem vivas, guerreiras, donas de si, como realmente são ou deveriam ser.

A van partiu às 8h rumo às falésias da praia de Cotovelo, Litoral Sul, Parnamirim. Uma parede rochosa de uns 40 metros de altura esculpida pelo pincel do mar nos esperava indiferente, com jeitão imponente, mas cansada dos milhares de milênios mirando aquelas ondas em frente. Um binômio perfeito na paisagem.

Dia de garoa constante. Por alguns minutos caiu uma chuva razoável. Clima nada amistoso para um iniciante em uma rocha formada basicamente de barro. Mas os profissionais envolvidos passam confiança. O começo é mais difícil. Inclinar o corpo, fincar os dois pés já na parte íngreme da rocha e ter a sensação da queda livre. Depois é controlar o ritmo da descida conforme libera a corda. Foram poucos e incríveis minutos.

Ao tocar o chão, a sensação estranha da falsa segurança. De imediato uma lembrança tosca da canção ‘Astronauta’ de Gabriel o Pensador. Ele se pergunta o porquê do Astronauta querer voltar pra uma Terra tão tumultuada com toda aquela paz da lua. Eu também quis voltar. Permanecer suspenso por cordas e adrenalina. No transe. Não, o chão não me pareceu seguro. Mas a realidade me foi entregue de volta. The dream is over. E durou poucos e eternos minutos.

Experiências duram uma vida. E não a do rapel em si, mas a de saber que se algo lhe põe pra baixo, que se viva da melhor forma essa descida, seja suspenso no ar ou com os pés no chão. Se a vida é curta, a descida pode ser longa e não cabe espera. Do limão, a limonada. Da decepção, uma aventura a ser vivida.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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