De Spinoza a Bergson na literatura potiguar

Por Marcos Cavalcanti

O jovem escritor, ativista humanitário e pesquisador Thiago Gonzaga, a quem tive o prazer de conhecer recentemente, nos chama à reflexão com o seu instigante texto: “Spinoza, a coleção Presença e a literatura potiguar”, publicado na grande teia logo após o encerramento da FLIN (Feira Literária de Natal), tendo como angústia desencadeadora de seu sincero e contundente desabafo, a ausência de público leitor no lançamento da “coleção Presença”, e que se repete em vários eventos de que ele tem sido testemunha no locus nada amoenus da literatura potiguar.

O texto remeteu-me à minha própria experiência no feérico mundo da literatura potiguar, seja como escritor, seja como propagador nos meus tempos de militante ativo da SPVA-RN, do PROLER ou dos livres recitais do LUAREAU nas praias do Meio e de Ponta Negra. Aprendi que uma coisa é literatura, outra é sucesso literário e outra ainda é a qualidade literária que se verifica em nosso querido e poético estado, restando ainda uma reflexão de como se chancela o cânon literário de nosso elefantinho, e a partir de quais critérios ele se forma. Ora, uma boa leitura do livro A Sedução da Palavra, de Affonso Romano de Sant’Anna, revela-nos todos os rituais de passagens que o candidato à escritor vai ter que passar e a leitura bem que pode terminar com O Cânone Ocidental de Harold Bloom.

Os tempos são outros, os métodos são outros. Mas e os princípios? Será que continuam os mesmos? Tenho lá as minhas pulgas e duvido deles desde o dia em que indaguei ao imortal Carlos Heitor Cony, por que é que a ABL fez do Coelho, um de seus imortais, e ele, sem nenhum pudor, revelou o modus operandi da bruxaria para uma plateia atônita numa tenda ao lado do antigo Machadão. Ora, não é que para a minha surpresa, vendo um vídeo na internet, intitulado La grande librarie, em que especialistas em literatura discutiam as 20 obras literárias que mudaram a vida dos franceses, após pesquisa feita ao longo de dias pelo canal France 5, e vi como resultado aparecer o livro “O Alquimista”, em 7º lugar na tal lista, e para o meu espanto figurar em vigésimo lugar, Os Miseráveis, de Victor Hugo. Como é possível entender isso? Simples: propaganda e mais propaganda, superficialidade, fantasia, espetacularização e banalização de tudo. Os comentaristas, nada comentaram do livro do Mago. Silêncio total. Não foi o RN quem perdeu o limite, Thiago, o mundo perdeu as estribeiras e a lucidez que nos separavam dos abismos, basta ver esta série de baboseiras que se publica por aí e que viram “bestas seladas” da noite para o dia. Não são mais, palavras, palavras e palavras, como diria Shakespeare, o negócio tem sido propaganda, propaganda e propaganda. Lembro uma Bienal no Centro de Convenções em que anunciada a presença de Nélida Piñon para autógrafos, um único casal apareceu, enquanto que momentos mais tarde, o Gabriel, que se chama O Pensador, com o Menino Chamado Rorberto e seu Jabuti nas costas, atraia centenas de leitores (jovens e não crianças) para o autógrafo de seu livro infantil.

Foi-se o tempo da crítica. Não há mais Antônios Marinhos, Américos de Oliveira Costa, e não confundamos crítica literária com historiografia literária ou crônica nos jornais que tratam de autores e livros. Os espaços nos jornais para a cultura foram reduzidos a quase nada e não dão conta nem de um décimo dos duzentos livros mencionados por Thiago. Quantos lançamentos chegam aos canais de TV? Quase nenhum! Aqui, restam as redes sociais, tábua de salvação dos deserdados da mídia oficial. É nela que pululam despudoradamente os livros e as agendas familiares de seus lançamentos. E que se mostrem mesmo, desavergonhadamente, pois precisamos ultrapassar completamente e num futuro bem próximo, o tempo da monopolização dos senhores redatores e colunistas de jornais que fazem o retroalimento de si mesmos com suas veleidades literárias e pseudoliterárias. Os ciclos fechados também alimentam essa cadeia viciosa. São especialistas nisto desde que foram fundados. Sejamos sinceros e honestos, aqui, tudo funciona via panelas e quem não se azeita na quentura de uma, ingrediente exilado restará fora dela. Sei como isso tudo funciona de tempos pretéritos, sou um observador da cena e de formação a vejo em suas entranhas. Aqui ou alhures, nada vem à tona pelo naturalmente ou na espontaneidade. Isso é pura ficção. É preciso ter relações amigáveis com a imprensa, estar bem articulado com pessoas do meio, com as instituições e com os governos, para que em meio ao aperto geral, algo possa se propagar de seu, do contrário, restará a aventura solitária de um livro, de um CD, de uma vernissage, “do autor”, porque as suas expensas e suor. Mas não será essa obra mais digna? Tudo que não deveria ter sido, e que finalmente foi, por raça, força e vontade de poder de seu autor. Há nestas paragens também uma falácia. Quem é editor no RN? As universidades que têm recursos para edições acadêmicas? A FJA com sua Mani..bu? As gráficas do IFRN? Quão raro é alguém ou pequeno grupo que valendo-se do real significado da palavra editor, lança por sua conta e risco, um novo autor, ou mesmo um autor que envelheceu de tanto esperar. Os editais e leis de incentivos fiscais facilitaram o negócio, e novamente as panelinhas se azeitam com o dinheiro público sem a justa contrapartida. É como Cascudo dizia em sua sabedoria, “Natal não consagra nem desconsagra ninguém”. Mas como não era bobo nem nada, consagrou-se porque fez-se vagalume de si mesmo e alimentou a sua genialidade de polígrafo iluminando-a com muito trabalho e consciência crítica do que fazia. Deu ao Brasil a monumentalidade de sua obra.

Detecto, todavia, uma contradição em seu texto, caro Thiago, pois se temos cada vez mais novos autores no mercado (o que é um fato e é bom), e se estes passam também a frequentar os círculos literários de Natal, não é possível que você veja sempre as mesmas caras a cada lançamento e a cada evento literário, pois do contrário, já não seriam novos. Tenho visto muitas caras novas desde a década de 90, período em que comecei a mirar, e muitas destas caras, hoje já não tão novas, malgrado tenham levado a sério o seu fazer literário, continuam ilustres desconhecidos em meio as mais novas caras do agora, e assim se repetirá ad infinitum. Quem se consagrará? Não sei, isso é assunto que vai para além das dominantes construtivas de suas prosas ou poesias. Eu, de minha parte, saúdo a todos eles e que eles se multipliquem, pois multiplicados, ajudarão a fermentar todo esse bolo de que embolados ou apartados, de que fazemos parte. E de risos, para dialogar com Spinoza nesta amigável intertextualidade, lembrei-me de uma frase de Henri Bergson que diz: não há comicidade fora do que é propriamente humano. E viva a FLIN, a FLIPIPA, a FLIPOUT, aos 80 da ANL, a SPVA-RN, a UBE, a FJA, à Feira de Mossoró, à de Caicó, a Preá e a Brouhaha, porque o todo é sempre mais do que a soma de todas as suas partes, com ou sem crítica literária.

MUDANDO DE CONVERSA……………… O Dosol 2015‬ chega em Parnamirim com duas datas esse final de semana. Sexta no tradicional Beco do Picado com The Fume (Suécia), Dot Legacy (França) e Ermo (Portugal) e ainda os locais de Parnamirim Black Matilha, Adriano Azambuja e Tropicos Reversos. As 19h em ponto. Sábado, às 18h, é na Feirinha de Frutas de Pium com shows excelentes da Luisa e os Alquimistas, Mahmed, Skarimbó, Clara e a Noite e Igapó de Almas……………… Nesta quinta, reunião para os últimos detalhes do Troféu Cultura, mas quem quiser confirmar presença na festa pode me contatar inbox no facebook (AQUI) que já vou adicionando o nome na lista. Além da premiação vai ter um coquetel na entrada, com pocket show de Carmem Pradella.

DESTAQUE:
12231176_1137894912888228_1103092428_nEsta sexta reserva um momento especial das nossas letras. O livro Corpo Vadio, de Jeanne Araújo promete ser dos bons lançamentos deste ano. Será na Nobel Salgado Filho, das 18h às 22h. A poesia de Jeanne tem força libertária. Não à toa tem sido presença constante em premiações literárias com sua poesia e também com sua prosa. Tenho um livro de uma historinha infantil escrito por Jeanne que até pouco tempo minha menina não largava. Corpo Vadio sai pela editora paulista Penalux, com orelha da poetisa Iara Maria Carvalho, conterrânea seridoense. Jeanne, de Acari, e Iara, de Currais Novos. Uma mostra da poesia de Jeanne Araújo:

CABALA

Quando arqueio as costas
vibro igual violino
e mesmo as amarras
mordaças e estacas
não me bastam.

A voz, a sua, arrepia
as porcelanas, os quadros
e estremeço
onde o corpo se contrai.

Meu horror é teu mandamento
consentido em meu corpo inteiro.
Se preciso eu uivo, sibilo
acendo tua vela, teu pavio, tua adaga
porque és armadilha de cilício
no meu ventre.

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