De um livro velho

Por Vicente Serejo
NO JORNAL DE HOJE

Os livros velhos, Senhor Redator, não escondem descobertas, mas inventam reencontros que encurtam a monotonia dos dias antigos, como aqueles dias longos do poeta Ribeiro Couto. Por isso, é bom tê-los por perto. São inúteis para a glória, não contesto. Mas, neles, o leitor há de redescobrir magias ou sensações que um dia iluminaram a vida. Às vezes, são pequenas estações de cura, como se as tardes compridas exigissem o reencontro quando os olhos maduros caem no chão da memória.

Neles não há novidades. Nem mesmo exigem o ofício da busca. É como se aguardassem um silêncio sem mágoa, até que outra vez a chama do olhar venha iluminar as velhas notícias que ontem acenderam estrelas. Se não é dispensável avisar, faço saber a todos que são imprestáveis para o brilho luzidio da vaidade. E tão distantes, e tão inefáveis, que exalam o perfume de sensações cheirando a guardados. Versos mortos que nada dizem. Só que de vivê-lo faz-se a vida, triste e tão somente assim.

Mas, alguns dias, a alma encrespa em pleno azul. É como se fosse preciso ir buscá-los no fundo do mar. E descobre-se que de tão antigos viraram ostras cortando os dedos como se tivessem mãos tentando arrancá-los. Cada um tem um mar dentro da alma. Um mar que brilha certas noites, nas marés de lua. Um mar que se ausenta, como no soneto de Lêdo Ivo, e cai na escuridão do seu próprio abismo. Versos do dia e da noite. Luz e sombra que repetem a vida, como ostras arrancadas de velhas canções.

Outro dia foi assim. Vinha procurando com os olhos um livro de ensaios de Henriqueta Lisboa – Vigília Poética – edição do Governo de Minas, 1968. Tinha quase certeza que estava ali o seu texto sobre a poesia em ‘Grande Sertão: Veredas’ que prometera copiar para um velho amigo. E estava. Mas, até lá, o dedo indicador correndo os dorsos enfileirados como sentinelas guardando o silêncio dos poetas, reencontrei ‘Os Poemas Escolhidos’ de Jorge de Lima, doce herança de Oswaldo Lamartine.

Lembrei daquela sua lhaneza de velhas baronias quando nos recebia no seu apartamento, da Barão de Icaraí, no Flamengo, com livros para mim e Rejane. Dizia bem humorado que trocava por mangas que levávamos daqui para matar sua saudade dos quintais da infância no Tirol do seu tempo de menino. E numa dessas vezes estava nas mãos com os poemas de Jorge de Lima. Na folha de rosto, a dedicatória já feita: ‘Serejo – Deixo para vosmincês ‘Essa Nega Fulô’. Osvaldo, Rio, fevereiro, 93′.

A data marca um tempo de 20 anos. Mais uma vez o acaso vem para inventar um reencontro e uma redescoberta. É uma velha edição Adersen de 1932, e o presente de Oswaldo tinha um segredo que só descobri quando voltei a Natal. Na folha de guarda da encadernação, antes da capa original, a dedicatória de Jorge de Lima: ‘Ao Xavier Marques com a admiração de sempre. Jorge de Lima, Rio, 9.7.33′. Há oitenta anos. Assim é a magia dos velhos livros que para os modernos não servem mais.

E acabou assim essa tarde de chuva, caída na mansidão parnasiana de horas arrastadas que se amoitam no verde lá do alto dos morros. Fui passando as páginas. Uma a uma. E fiquei lembrando os dedos magros e finos de Oswaldo quando amorosamente guardava um livro em suas mãos. Nem que fosse um simples gesto casual. E fui deixando que os olhos sozinhos catassem os poemas sem procurá-los com a memória. Nem mesmo ‘Essa Nêga Fulô’ que ele tanto gostava de ouvir e sabia dizer de cor.

Desconfio que há nos olhos uma luz que acorda os poemas que dormem nas páginas amarelas dos livros velhos. De repente, num milagre de transcendência, ouço a voz grave de Oswaldo. Ele na poltrona da sala do seu apartamento, no Rio, dizendo os versos do poema ‘O Mundo do Menino Impossível’, de Jorge de Lima: ‘Fim da tarde, boquinha da noite / com as primeiras estrelas / e os derradeiros sinos. // Entre as estrelas e lá detrás da igreja, / surge a lua cheia, / vem chorar com os poetas. / E vão dormir / as duas coisas novas deste mundo; / o sol e os meninos’. Que saudade dele!…

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