De Versos

Poema Processo copiado daqui

Jarbas Martins, recentemente, evocou maus versos de diferentes poetas. Relembrando esse tema, pensei nos significados dos versos na poesia que se faz hoje em dia. Depois da Poesia Concreta (adeus ao verso) e do Poema/Processo (adeus até à palavra), fica difícil analisar um verso de Mombaça como se fosse um verso de Camões – adoro Camões, gosto muito de Mombaça.

Logicamente, ninguém é obrigado a fazer Poesia Concreta nem Poema/Processo (concretistas e processuais retomaram o verso quando o quiseram) mas penso que esses gêneros legaram conquistas para qualquer Poesia. O próprio Camões escreveu versos de espantosa materialidade verbal (quanto há de durar tão duro intento). Penso que um legado de concretistas e processuais é levar essa questão para um patamar radicalmente maior (não estou dizendo que eles são melhores que Camões, João, Álvaro de Sá adorava Camões). Penso que um parâmetro atual para se discutir versos diz respeito a sua existência quase autônoma – refiro-me a cada verso. Um poema inteiro pode ser feito com um ou dois versos (o “m’illumino d’immenso”, de Giuseppe Ungaretti). Entendo que verso é parte do problema, não solução – isso é um verso de Jorge Mautner, canção “Crazy pop rock”, parceria com Gilberto Gil.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Almandrade 31 de outubro de 2015 15:20

    Informo que a autoria do poema visual acima é de Almandrade

  2. Marcos Silva 10 de julho de 2011 8:47

    Nina, obrigado pelos materiais. O pessoal do Poema/Processo fez boas discussões. Moacy Cirne é um pensador de primeira.

  3. Marcos Silva 9 de julho de 2011 21:10

    O post já fora enviado quando lembrei de dois exemplos brasileiros para versos de uma linha só: de Oswald de Andrade, “Amor. / Humor”;de José Bezerra Gomes, “Limite. / Marido e mulher”.

  4. nina rizzi 9 de julho de 2011 18:59

    Deixo-vos:

    Esthétique Du Mal
    Wallace Stevens

    Esta é a tese escrita prazeirosamente,
    O salmo que repercute, o coral afinado.

    Alguém poderia ter refletido sobre a visão, mas
    quem poderia refletir
    Sobre o que vê, por todo mal que vê?
    A palavra encontrou ouvido, pois todo mal é sonoro,
    Porém os itálicos negros não pôde apresentar.
    E fora do que se vê e ouve e fora
    Do que se sente, quem poderia ter pensado em criar
    Tantos eus, tantos mundos sensíveis,
    Como se o ar, o ar do meio-dia, estivesse saturado
    De transformações metafísicas que ocorrem
    Meramente no viver e onde vivemos.
    *

  5. nina rizzi 9 de julho de 2011 18:54

    Marcos, um textículo antigo, lá do ellenismos e, veja que coisa, parece uma sequência ao meu comentário sobre o de Jarbas, lá no cartão pra dudu:

    NUNCA MAIS O MESMO OLHAR

    – Reflexões a partir da leitura de Poema/Processo: A prática Experimental como Saber Militante, in: CIRNE, Moacy. Luzes, Sombras e Magias – Os filmes que fazem a história do cinema. Sebo Vermelho: Natal, 2005.

    “É preciso politizar a arte”
    “É preciso politizar a vanguarda”
    “É preciso espantar pela radicalidade”
    – Máximas do Poema/Processo.

    Embora as finalidades artísticas do artista primitivo, do da Renascença, e deste “pós-moderno” sejam diversas, o efeito artístico sob quaisquer condições constitui uma situação que serve para elevar a percepção. Poder-se-ia considerar que todas as artes agem contra o meio e as tendências. Absolutamente qualquer forma de ambiente satura a percepção de modo que sua própria marca seja imperceptível. Possui o poder de distorcer ou desviar a percepção humana. Mesmo as artes mais populares, podem servir para aumentar o nível da percepção, ao menos até se tornarem totalmente ambientais e despercebidas.

    Uma poesia, um filme, uma pintura, uma música, a arte enfim, é em todos os sentidos uma máquina de ensino para o exercício da percepção e do discernimento. O artista é uma pessoa especialmente ciente do desafio e dos perigos dos novos ambientes – tecnológicos – apresentados à sensibilidade humana. Onde a pessoa comum busca segurança entorpecendo suas percepções diante do impacto da nova experiência, o artista usufrui desta novidade e instintivamente, ou não, cria situações que tanto a revelam quanto a tornam compensadora. O artista estuda a distorção da vida sensorial produzida pelo novo programa ambiental e tende a criar situações artísticas que corrigem as inclinações sensoriais e o desarranjo gerados pela nova forma – artificial.

    Em termos sociais, o artista pode ser considerado o piloto que sabe lidar com a bússola apesar do desvio magnético da agulha provocado pelo volúvel jogo das forças. Assim concebido, o artista não é apenas um bufarinheiro de ideais ou experiências sublimes. É, antes, o auxiliar indispensável para a ação e a reflexão.
    _

    Um beijo.

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