De que vivem hoje os nossos escritores

Num país onde ainda se lê tão pouco, de que vivem tantos escritores hoje em plena atividade país afora, levando em conta o número e o tamanho das livrarias, sem falar nos eventos literários gigantescos, como as bienais, feiras de livros, ciclos de debates, revistas e programas midiáticos especializados?

Para esclarecer essa perplexidade, o também escritor Santiago Nazarin, da Folha de S. Paulo, publicou matéria no dia 27 de dezembro passado na “Ilustrada” onde procura resposta para essa pergunta intrigante, lembrando em suas primeiras linhas o grande paradoxo que é viver da escrita num país onde pouco se lê.

A primeira descoberta que faz Nazarin é a de que é realmente expressivo o quantitativo de autores trabalhando hoje no Brasil, e nada parece indicar, a curto prazo, que essa realidade vá sofrer alterações significativas em contrário.

Uma segunda constatação é de que não existe, ainda assim, uma ligação direta entre escrever e viver da venda de livros. Vive-se, é verdade, da escrita, não do livro. A exceção, entre os cinquenta autores investigados, é um grupo de três autores, enquanto os quarenta e sete restantes se ancoram em atividades diversas – oficinas literárias, renda familiar, palestras, jornalismo, tradução, atividades acadêmicas, outra profissão (funcionário público, empresário etc.), prêmios literários, dentre outras.

Outro dado que ajuda a entender as mudanças verificadas no meio literário: a situação do escritor melhorou para 34 dos 50 autores consultados, enquanto 11 não souberam avaliar e apenas um julgou que a situação piorou.

Prevalece, portanto, um clima otimista para a maioria dos autores, que veem na multiplicidade de atividades relacionadas à escrita um vasto campo de possibilidades, favorecendo, de quebra, outros importantes elementos a ela vinculados: a independência, a liberdade e a autonomia do escritor.

Apesar desse cenário confiante, a grande maioria dos escritores ouvidos por Nazarin apontaram como prioridade de seu trabalho valores não contábeis: contar uma boa história, fazer boa literatura, ser lido. Salta aos olhos que tais objetivos resultam de uma pré-condição: a aceitação do trabalho desses autores, estimulando-os a se voltarem cada vez mais para o aperfeiçoamento de sua arte.

A realidade nas letras potiguares contemporâneas apresenta pontos de coincidência, mas também facetas próprias, quando comparada à retratada por Nazarin. Por exemplo, alguns escritores nossos procedem do jornalismo, como Sanderson Negreiros, Woden Madruga, Carlos de Sousa, Tácito Costa, Jóis Alberto, Vicente Serejo, Marize Castro, Ticiano Duarte, Josimey Costa, Alderico Leandro, nós próprios, entre outros, reafirmando uma identificação já antiga entre jornalismo e literatura em nossas letras, que vem ininterruptamente desde Ferreira Itajubá e Câmara Cascudo até os nossos dias. Outros, ainda, vêm do serviço público – magistério, assessoria etc., como Tarcísio Gurgel, Diva Cunha, Paulo de Tarso Correia de Melo, Iracema Macedo, Márcio de Lima Dantas e outros.

Mas, diferentemente do que se passa na pesquisa da “Ilustrada”, a grande maioria dos nossos autores provém da área do direito, como se constata facilmente consultando os dois volumes de “Impressões Digitais”, de Thiago Gonzaga. Vejam-se, por exemplo, os nomes de Valério Mesquita, Claudio Emerenciano, Carlos de Miranda Gomes, Diógenes da Cunha Lima, Jarbas Martins, Ney Leandro de Castro, Alexandre Abrantes, Lívio Oliveira, Carmen Vasconcelos, Manoel Onofre Jr., Aldo Lopes, François Silvestre, Eduardo Gosson, Anna Maria Cascudo Barreto, Jurandyr Navarro.

Há claras razões sociológicas para tornar a literatura uma segunda atividade dos bacharéis e magistrados potiguares, como a estabilidade que certas funções jurídicas proporcionam a seus ocupantes, condição importante para a criação literária. Sem falar que tal faceta também implica em influências que podem ser determinantes nas nossas letras. Mas isso será tarefa para alguma futura pesquisa acadêmica.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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