De xamanismo, naturoterapia e partos naturais

O cenário é exuberante.

Circundada por igrejas evangélicas de várias vertentes e pela desigualdade social da Vila de Ponta Negra, a Casa Aho é um oásis emoldurado por tijolos amarelentos, aberto a práticas terapêuticas naturais.

Espaço de meditação, em que o Temaskal, a volta ao útero da Mãe Terra praticada por povos nativos, é impulsionado por uma sauna indígena e por uma mulher de 30 anos, cujos estudos têm sido dedicados desde o fim da adolescência à busca do equilíbrio físico e mental através da harmonização de técnicas orientais e ocidentais.

No espaço em que xamanismo, aromaterapia e conexões com saberes desconhecidos para a maioria dos viventes em uma sociedade cristã são estimulados, mora uma paraense que virou referência entre gestantes natalenses decididas a terem seus filhos sem necessidade de intervenção cirúrgica.

Nicole Passos Nunes, 30 anos de idade, é também uma doula.

A própria define o termo:

“O papel de uma doula é prestar assistência à mulher no momento do parto. Principalmente no suporte físico e emocional. Uma doula é totalmente destituída de funções técnicas, não faz parte da equipe e também não é uma acompanhante. Simplesmente está ali para oferecer esse suporte físico e emocional. É um papel que antigamente era das tias, das avós, das mães, das mulheres mais velhas que já passaram por essa experiência, que estavam ali para incentivar nesse momento do parir”.

Ela mora em Natal há quatro anos.

Veio com o marido (o artista plástico e diretor de cena Costa Rebelo) e dois filhos pequenos (Ariel e Luan), após um período de sete anos em Curitiba, onde foi estudar naturoterapia na Faculdades Integradas Espiritas (Unibem) – reconhecido pelo MEC como Curso Superior, em uma portaria de 2014.

Mas tudo começou em Belém do Pará.

Nicole é bisneta de parteiras tradicionais e estudou em colégio católico. Acredita que tinha 18 anos, quando seu interesse por xamanismo intensificou – especula-se que a origem da prática então dominada por magos e curandeiros está no coração da Ásia, sobretudo na Sibéria, como uma opção ao budismo; já no Brasil, índios usam danças e cânticos na tentativa de encontrar entidades ancestrais.

O romeno Mircea Eliade, em seu clássico “O Sagrado e o Profano: A Natureza da Religião” (lançado por aqui pela editora Martins Fontes naquela coleção avermelhada) nos ensina tudo isso e muito mais.

Dois anos depois, veio o casamento com Costa Rebelo, igualmente um praticante do xamanismo. Juntos, cruzaram os 3.200 km que separam Belém de Curitiba. A atividade de doula floresceria na capital mais fria do Brasil.

“Não é uma função técnica, mas requer uma preparação em cursos. No meu caso, eu fui buscar algo mais aprofundado. Eu queria entender o que acontece durante o parto, qual a fisiologia de um parto”.

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“O papel de uma doula é prestar assistência à mulher no momento do parto. Principalmente no suporte físico e emocional. Uma doula é totalmente destituída de funções técnicas, não faz parte da equipe e também não é uma acompanhante. Simplesmente está ali para oferecer esse suporte físico e emocional. É um papel que antigamente era das tias, das avós, das mães, das mulheres mais velhas que já passaram por essa experiência, que estavam ali para incentivar nesse momento do parir”. Fotografia: John Nascimento

Nicole é assertiva sobre parto humanizado. Evita polemizar com o fato de o Brasil ser êne vezes campeão da Copa do Mundo de cesáreas – segundo dados da pesquisa Nascer no Brasil, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz, as cesarianas chegam a 84,6% na rede privada, enquanto na pública, cai para 40%. Detalhe: a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que, no máximo, 15% dos partos ocorram por cirurgia.

Mas levanta o debate – ela mesma mãe de dois meninos via método tradicional, sendo o mais novo parido em domicilio.

“O movimento de humanização não prega que toda mulher tenha que ter um parto normal, mas que ela possa escolher. E que, se escolher um normal, que ele seja digno. E a gente consegue essa dignidade através do protagonismo da mulher, ela deixando de ser um número de protocolo. Existe um padrão de procedimentos, da forma como as coisas são hoje. Olhar para essa mulher com uma assistência humanizada requer profissionais que quebrem alguns desses protocolos, que entenda que não são todos os casos que a mulher vai precisar de uma analgesia [cancelamento total da dor via medicamentos], que ela pode querer se alimentar [durante o trabalho de parto]. Precisa que haja essa abertura, e ela não vem só pelas leis, pelas recomendações ou por qualquer outro papel que delimite isso. Ela vem da mudança de consciência dos profissionais”.

O elogio ao trabalho no Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Dra. Leide Morais, no bairro Potengi, Zona Norte de Natal (que, de acordo com o que o prefeito Carlos Eduardo registra lá no site da Prefeitura, é dos melhores do país), vem acompanhado de ressalvas por ser caso único na estrutura médico-hospitalar da cidade, ainda precária no que se refere à mudança de paradigmas.

“Existe um grande esforço para introduzir a tecnologia em todos os tipos de cuidados, e aí a gente tem essa falsa ideia de que ela está ai para salvar vidas. Sim, ela salva vidas, mas se for bem aplicada. Quando a gente chega nesse patamar de 98% de cesáreas, em alguns hospitais de Natal, o que temos são mais internações, mais intercorrências com a mãe e com o bebê, mais dificuldades na recuperação no pós-parto. Isso gera mais problemas do que resolve. Isso só muda com pressão da sociedade”.

A voz suave de Nicole ampara seu discurso. Assim como o semblante otimista e seguro.

Ela não gosta de bebidas alcoólicas, adora chá e escuta música indígena, tanto durante o trabalho, como na hora do lazer.

Se isso é prova da eficácia de sua terapia incomum para os desinformados, não sei.

Sei que quase todos nós chegamos ao mundo por caminhos tortuosos e que teremos tempo de sobra, ao longo de nossa vida, para pavimentarmos novas estradas, novas avenidas, ou becos que sejam.

Cada um que escolha sua pedra e atire onde quiser.

 

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Fotografia: John Nascimento

 

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. wagner da Matta 1 de Março de 2016 11:49

    Realmente é uma triste realidade quase 90% dos partos serem por cesariana. Quando custa um parto normal? Quanto custa uma cesárea? Talvez só o capitalismo não explique. Há outras questões como “não quero sentir dor”, dito por muitas mulheres que vivem numa sociedade que o tempo todo quer ser anestesiada.

  2. Conrado Carlos 1 de Março de 2016 14:18

    Wagner,
    Tem hospital natalense que chega aos 98% de taxa de cesárea.
    Uma tragédia…
    Abraço!

  3. Melayne Macedo 4 de Março de 2016 10:34

    O trabalho de Nicole e das DOULAS fortalece a autonomia das MULHERES em apresentar de forma solidária e pedagógica o que acontece com o corpo e a vida das mulheres no processo de gerar a vida, com todo o respeito e amor que esse ato significa. Solidariedade, amor e conhecimento é o caminho da linda tarefa que essas mulheres desenvolvem.

    Parabéns a você Nicole, pelo lindo trabalho que resgata nossas ancestralidades e reapresenta com sabedoria.

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