Deborah Secco

Joaquim Ferreira dos Santos
O GLOBO

Em “Cisne negro” a bailarina vivida por Natalie Portman reprime a sexualidade e as zonas escuras da alma, elementos fundamentais para incorporar o personagem do título. Desliza bem pelo cisne branco, o lado perfeccionista da existência, mas fecha as asas da loucura quando precisa exalar desejo e seduzir. Ela passa zero de sensualidade, parece ter emprestado todos os seus hormônios para a pesquisa de algum Instituto do Sexo de Massachusetts. Desesperado, o diretor recomenda um exercício doméstico para a coreografia do dia seguinte, um treino que vai libertá-la e a deixar em condições de soltar a franga para viver o cisne. Vá para casa, pede o diretor, tranque-se no quarto, pegue um travesseiro, e se masturbe.

Deborah Secco não é Natalie Portman — e o seu marido deve ser o primeiro a dizer “graças a Deus”. Não precisa de trabalho de casa. Ela é a mais perfeita tradução de cisne negro em cartaz na cena nacional, e para quem quiser confirmar está no cinema, como a Bruna Surfistinha, e na televisão, como a periguete Natalie, em “Insensato coração”. Não ganharia o Oscar por qualquer uma dessas atuações, mas para isso o país está cheio de grandes atrizes, cisnes brancos tecnicamente capacitados e que nos enchem de orgulho.

Deborah Secco é o cisne negro que nos enche de tesão

O Brasil é um viveiro de atrizes lindas, até mesmo o elenco de apoio é constituído por mulheres em que as curvas do Senhor, as pupilas do demônio, foram todas desenhadas com perfeição, e observadas pelos diretores de elenco na hora da escalação. Belíssimas, sem dúvida, mas reprimidíssimas.

Deborah Secco, uma das mais bonitas da safra, é a única interessada em usar o dom, as coxas, os lábios umedecidos, o olho-isca, para provocar sem refinamento os machos ao redor. Se as outras estão interessadas em interpretações do tipo “sou gostosa, mas tenho cabeça”, e fazem charminho low profile do tipo que não queime o filme pessoal da atriz, Deborah investiu num papel fundamental para a dramaturgia.

Ela é a única mulher em cena que olha a presa e diz “vou te comer, agora”. Está ocorrendo com as atrizes um fenômeno parecido com o que fez surgir uma geração de ótimas cantoras, todas cantando afinadamente a mesma nota correta e sem graça de sua colega anterior. As cantoras querem ser cool, in, levar para o microfone uma existência em voz baixa e de letras sem sombra de desespero, dor e derrota, essas ocorrências inevitáveis e que escurecem as penas e os cantos dos cisnes. Agora chegou a vez das atrizes — todas interessadas em papéis que modelem suas imagens no mercado publicitário e, pelo amor de Deus!, não as tirem da capa da “Caras”.

Houve a Vera Fischer, com aquele jeito meio incorreto de ser, de não se depilar e de encarar os machos à frente, já meio trôpega, com um apetite mal resolvido de quem está disposta a pegar toda a plateia, a começar pelo câmera do estúdio.

Houve a Sandra Brea, com aquele olhar estrábico e uma expectativa de que precisava, para sobreviver, ser apreciada em seus contornos de fêmea, em sua vulgaridade de quem está disposta a pagar com antecedência, agora, por todos os pecados que ainda está por cometer.

Hoje tem a Deborah Secco e eu não me lembro de mais nenhuma atriz com esse talento de se expor vulgarete, sempre galinhaça, disposta a ser mal interpretada e ter o papel confundido pelo espectador em casa, pelos anunciantes que assinam os cheques, como se ela fosse assim na vida real.

O mundo está cheio de vagabas carnudas, social climbers dispostas a chegar lá, numa escalada que começa sempre pelo corpo do cidadão endinheirado — mas ninguém topa fazer o trabalho com a disposição sem-vergonha de Deborah Secco. Sei de produtores que procuram outra atriz com o mesmo perfil no mercado. Sumiram todas. É uma personagem difícil, porque ao mesmo tempo desesperada em sobreviver e cômica em não ter outro recurso além da carne fresca em abundância. Deborah é a única que diz “deixa comigo”, e topa o trabalho sujo.

Eis uma grande atriz na contramão do politicamente correto, disposta a correr o risco de ser lembrada pela disposição de arrancar os poucos panos que lhe restam sobre o corpo e atacar a presa. Nem homens nem mulheres tiram o olho da tela quando Deborah acende seus faróis e ilumina a sexualidade vulgar, essa fantasia a todos comum e que outras atrizes de sua geração, cisnes brancos de olho no bom gosto, insistem em abafar. Se o Ibope registrasse níveis de libido, suas aparições seriam sempre recorde e as novelas ficariam mais eretas do que estão.

Deborah Secco é a gauche da turma, a predadora sexual que enche as ruas, e a TV não tem mostrado. Enquanto sua geração abusa de ter um grande elenco de mulheres bonitas, todas interessadas em se mostrar domando com sobriedade civilizada as carnes sob os panos, ela pula de um papel de periguete para outro de surfistinha, estabelecendo com seu tesão uma tensão cada vez menos comum na dramaturgia nacional. O nosso cisne negro é uma loura espetacular.

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