Decálogo: Como interagir com uma nova cultura

Quando damos de cara com uma nova realidade, com um ponto de vista diferente do nosso, em novos ambientes, em situações diretamente condicionadas ao fator cultural, muitas vezes nos sentimos perdidxs. Interagir socialmente não é fácil, imagina interagir com uma cultura diferente da nossa!

Podemos falar de cenários dentro de uma mesma cidade, como de situações entre ocidente e oriente, países desenvolvidos e “subdesenvolvidos” (detesto essa palavra, me parece puro condicionamento (in) consciente ao etnocentrismo). Todavia com todas as diferenças culturais que possam existir, também existem condições que nos tornam iguais, que nos une.

Comecei a observar as diferenças culturais dentro do meu próprio país. Nasci no Piauí na cidade de Floriano, passei o início da minha infância em Brasília, aos 5 anos me mudei para Natal, Rio Grande do Norte, onde morei até os 18 anos, e intercalava as férias entre Brasília e Niterói.

Leia “Substantivo Plural acompanhou palestra de Zygmunt Bauman em Florença (ITA)”, de Veronica Botelho

O processo de observação e adaptação para mim foi natural, cresci imersa em diversidades culturais, e com o tempo fui aprendendo a observar e respeitar cada diferença.

Das minhas observações pessoais, criei uma espécie de decálogo de como interagir com outras culturas (insisto em deixar claro, que pode ser até dentro da mesma cidade).

Catedral Santa Maria del Fiore, em Florença

Passo 1 – Observe

Preste atenção em como os moradores locais falam, se vestem, os horários das refeições, quando e por que riem/sorriem, como comem, etc.

Observe com curiosidade, desejo de aprender, perguntando, igual quando somos criança, e queremos aprender alguma coisa, aquele aprender sinônimo de cultivar. Observar sem julgar! Quanto tempo pode durar?!

Vai depender da experiência, como tudo nessa vida, afinal de contas a experiência acelera o tempo. Verdade que os anos passam mais rápidos quanto mais idade temos?

Passo 2 – Camuflagem

Paralelamente à observação, comece a se misturar com os locais.

Tente ir a lugares frequentados pelos locais. Tente comer o que comem, mesmo que não seja a sua comida preferida, talvez depois de algumas vezes até comece a gostar, afinal de contas o paladar também pode ser treinado. Gastronomia é um excelente mediador cultural! 

Pelo menos no início, tente se vestir como se vestem, como se mimetizando, parece superficial, mas não podemos ignorar que o vestir-se é amplamente conectado com a cultura.

Assista a TV local, mesmo sem entender o idioma, ajuda a acostumar a audição à melodia da língua, além de ajudar na observação. Descubra os programas mais populares e assista-os. É uma ótima maneira de entender costumes e interesses locais.

Tente aprender letras de canções. Cantar é uma maneira divertida de aprender um novo vocabulário e é menos provável que você se esqueça desse jeito. Escute rádio, até os anúncios podem falar muito sobre a sociedade local.

Tente ver e viver as situações com curiosidade, vontade e determinação em aprender. Tente copiar, tente se colocar no ponto de vista da outra pessoa, da outra cultura. Tentando passar despercebido, se camuflando.

Passo 3 – Idioma

É melhor evitar estudar nos tradicionais centros de idiomas internacionais. Como mergulhar numa nova cultura, estando rodeadx por outrxs estrangeirxs?

Se o conhecimento da nova língua é praticamente zero, uma opção é procurar cursos de língua dentro de universidades. Muitas universidades dispõem de curso do idioma local, combinado com curso da cultura local. O custo varia de país a país.

Quando cheguei na Itália, eu fiz um na Universidade de Florença que custa 800€ por trimestre, ou um ciclo de verão que dura um pouco menos, por 650€ .

Sei que existem cursos na cidade que custam menos, mas optei pelo da universidade porque conseguindo pelo menos o nível B2, dá opção de ingresso livre nos cursos universitários que não tem prova de admissão (uma espécie de vestibular), além de ser bastante completo e intensivo, pois é um curso de língua e cultura italiana.

Outra opção é procurar cursos oferecidos pelo governo. Normalmente são grátis e com horários noturnos.

Caso tenha um nível de compreensão, mesmo que mínimo, basta entender um pouco – tipo quem já fala uma língua latina e quer aprender outra – uma boa opção é fazer um curso inerente à algum hobby, ou à profissão ou aos estudos, um curso que desperte interesse, curiosidade. Uma excelente maneira para conhecer locais e fazer novos amigos, além de praticar o que vai aprendendo.

Quando eu era pequena, meu avô sempre me falava da importância de aprender um novo idioma corretamente. Ele me falava que é uma demonstração de respeito à nova cultura, eu incluo que além do mais pode abrir portas que de outra forma seriam fechadas.

Passo 4 – Esporte

“Mente sana in corpore sano” e não Corpo bellus mente sana

Busque praticar seus esportes favoritos e se tem alergia a esportes talvez seja uma boa oportunidade para descobrir o esporte que faz para você.

Isso vai além de simplesmente ir à academia; esportes como correr, andar de bicicleta ou nadar oferecem ampla oportunidade interagir. Além de ser bom para sua saúde, você terá a chance de conhecer os locais. Algumas associações são gratuitas ou muito baratas, se você faz parte da equipe.

Passo 5 – Cultura

Procure programas culturais e escolha aqueles que mais lhe despertem interesse. Por exemplo, você pode se inscrever nas newsletters dos teatros locais, associações culturais, museus…

Em Florença, uma vez por mês, os residentes podem entrar gratuitamente em determinados museus – horário noturno, a entrada do Jardim de Boboli também é gratuita para os residentes. 

Hoje em dia é fácil encontrar calendários online com informações sobre festivais, festas locais e nacionais. Procure também a newsletter do bairro onde você mora, das cidades próximas.

Inclusive, se um artista do seu país estiver na cidade para um concerto, mostra, exibição… Convide as pessoas que você está começando a conhecer, é uma ótima oportunidade para apresentar mais sobre sua própria cultura e interagir! A dinâmica de dar e receber é a marca de uma verdadeira interação.

Passo 6 – Hobbies e voluntariado

Hobbies são uma excelente maneira de interagir positivamente com uma nova cultura. Você joga xadrez ou cartas? Você é amante do teatro? Toca algum instrumento? Você gosta de andar de bicicleta, correr, caminhar…? Qualquer hobby pode se transformar em uma chance de se adaptar em seu novo ambiente e se sentir mais em casa.

Outra coisa que eu sempre gosto é de me inscrever às associações, organizações culturais como voluntaria. O voluntariado é um modo de dar e receber, todos saímos ganhando!

Passo 7 – Blogs

A Internet é uma fonte inigualável de informação e de fácil acesso – use isso a seu benefício! Os blogs mais populares podem oferecer insights extraordinários, para não mencionar conselhos fantásticos sobre onde ir, o que fazer, onde comprar, dão informações sobre cabeleireiros, centros de beleza, etc. Procure blogs que sejam seguidos pelos locais, eu evito os que escrevem posts patrocinados dando conselhos.

Passo 8 – Seja  paciente

O processo de imersão em uma nova cultura exige muita paciência, especialmente se você estiver em uma cidade menor. As grandes cidades estão mais acostumadas ao fluxo de migração do que as menores.

Às vezes, a primeira impressão não é a que esperávamos. Seria perfeito se cada vez que nos deparássemos com uma nova cultura, ela nos recebesse de braços abertos, mas esquecemos de um pequeno detalhe: talvez para as pessoas que começamos a conhecer, seja a primeira vez que interage com uma cultura diversa da sua.

O que podemos interpretar como antipatia, pode ser um discurso mais próximo à xenofobia, ou o caráter da pessoa, ou a própria cultura que se exprime diversamente da nossa.  A paciência é vital, deixemos nosso orgulho de lado, e tentemos não tomar como uma coisa pessoal! Tempo e paciência!

Assim como precisamos de tempo para observar xs locais, elxs também precisam de tempo para nos observar. Quando chegamos em algum lugar novo, ninguém sabe quem somos, a desconfiança inicial é mais que natural. Resista ao desejo de julgar o medo saudável do desconhecido. Pouco a pouco, isso mudará, embora possa demorar mais em alguns lugares do que outros.

Seja paciente e sorria! Um sorriso sincero abre portas, apazigua os corações e transforma mentes! 

Passo 9 – Política 

Pode ser um tópico complicado, mas um aspecto muito importante para compreender uma nova cultura. Caso política seja o último dos seus interesses, pelo menos uma compreensão básica do sistema político, das festas e comemorações nacionais.  Os nomes dos políticos atuais, quando são as eleições, os candidatos… 

Algumas pessoas pensam que a política não importa, mas quando as pessoas não se preocupam com o que acontece num país, deixam os outros tomarem a decisão. Patriotismo e o nível de envolvimento político dizem muito sobre uma nação.

Muitas populações podem estar cansadas de seu governo, mas não fazem nada para mudá-lo; Isso geralmente é refletido pela sociedade em geral.

Por outro lado, existem alguns países onde as pessoas estão orgulhosas de seu governo, ou participam ativamente tentando mudar o que não estão de acordo. Todos esses traços fazem parte e condicionam a cultura local e nos dá muitas informações sobre a cultura que estamos conhecendo!

Passo 10 – Respeito

Depois de ter observado, aprendido, se misturado… não se esqueça de quem você é.

Interagir com outra cultura não significa esquecer a sua própria, ao contrário, significa expandir os horizontes, cultivar outras formas de ver e viver a vida, ensinar à nossa própria cultura às outras culturas, ajudando assim a anular os estereótipos. Aprendemos novas maneiras de fazer as coisas – mesmo que acabemos fazendo da mesma forma que sempre fizemos.

Lembro, quando cheguei a Barcelona, tive um namorado que um dia dentro do cinema assuou o nariz com a maior tranquilidade, em alto e bom tom. Sob o meu olhar incrédulo, achei aquilo a maior falta de educação, e dei uma lição de moral nele.

Ele começou a rir e me falou que estava aliviado, porque não sabia como me perguntar se eu tinha alguma dependência química, pois vivia fungando e, ao invés de soar o nariz, puxava para dentro.

Depois de quase um ano namorando, descobri que tinha sido confundida várias vezes com uma usuária de cocaína. Confesso que levei quase 20 anos a me acostumar a assoar o nariz em público, mas acabei cedendo. Agora tenho que me lembrar de não fazer isso quando vou ao Brasil.  

Mesmo que não concordemos com uma certa maneira de fazer, de agir, de se comportar, o fato de tentarmos entender, de querer aprender os porquês, demonstra respeito, e o respeito será reciproco.  

Afinal, o respeito é a base de qualquer bom relacionamento, e esse respeito vem do conhecimento e da compreensão.

Comentários sobre extracomunitários

E uma última dica: alguma situação lhe irritou, lhe constrangeu?! Fale, explique que não entendeu, como se sentiu. 80% das vezes foi questão de falha na comunicação.

Somos humanos, e é difícil que um desconhecido queira nos ofender, até mesmo quando estamos falando de situações de preconceito, porque na base do preconceito está a falta de conhecimento, e isso se resolve com paciência e explicação, sem bater de frente.  

Sabe quantas vezes eu escuto de amigos meus italianos comentários mesquinhos sobre extracomunitários (termo que utilizam por aqui para se referir às pessoas que não vem de países membros da União Europeia, mas em modo pejorativo, ou seja, se a proveniência é um país desenvolvido, o imigrante é expat) e o diálogo é mais ou menos assim:  

– Ei, eu também sou extracomunitária! (sorrindo timidamente)

– Ah, mas você é diferente, nê?! (rindo)

– Não, é porque você me conhece!

Às vezes a conversa continua, com a pessoa aprendendo o que significa xenofobia, e reconhecendo o preconceito existente no seu comentário. Outras vezes a pessoa fica rindo, mas aos poucos começa a eliminar esse tipo de comentário das suas conversas.  

O mundo parece povoado de más pessoas, de situações difíceis, de preconceitos, discriminações, mas a realidade é que a bondade ainda prevalece, basta abrir os olhos, não julgar, ter paciência… e com um sorriso sincero muita coisa se resolve!

Escritora, psicóloga e antropóloga [ Ver todos os artigos ]

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