Decepção na Câmara Cascudo

Por Francisco Duarte Guimarães

Há poucos dias foi à Biblioteca Câmara Cascudo, do governo do Estado, e qual não foi a minha decepção. Vinha alimentando um dia ir lá, já que me falavam que, dentre outras preciosidades nacionais, tinha a coleção completa da revista Realidade, afora obras raras de autores potiguares.

Naquele momento não me interessavam essas obras raras nem tampouco a coleção da Realidade. Mesmo que viesse a vê-las, tocá-las, testemunhar as suas existências e resistências ao tempo e, por que não?, à indiferença do público, o meu interesse era outra coisa.

Além de visitar a instituição que alimentara um dia adentrar e conhecer o seu interior, o meu interesse era buscar um livro que, como jornalista e professor da UFRN, no momento estava me interessando sobremaneira.

Trata-se de “História da Folha de São Paulo (1921-1981)”, de Carlos Guilherme Mota e Maria Helena Capelato. Já havia buscado nas bibliotecas da UFRN, a Zila Mamede e as setoriais (do CCHLA especialmente), mas não havia encontrado. Apelei para os sebos de Natal, e também nada.

Restava-me a Câmara Cascudo, já que lá, segundo soubera, existia a coleção completa de Realidade, quem sabe não haveria um livro importante do jornalismo brasileiro, escrito por dois grandes historiadores nacionais.

Acompanhado de meu amigo João Maria Alves, repórter-fotográfico do Jornal Tribuna do Norte, profissional dos bons, e aproveitando o que ainda restava de estacionamento na Avenida Rodrigues Alves que a prefeitura ainda não ceifou, finalmente cheguei à Câmara Cascudo.

No prédio, desgastado pelo tempo, com restos de móveis antigos espalhados pelo chão e paredes denunciando o abandono, dirijo-me, com o velho João, para a entrada. Um servidor nos barra na portaria. Pergunta o que queremos. Explicamos nossa intenção. Mas ele é enfático: não podemos entrar.

Surpreso, perguntamos o porquê. Ele não explica. Explica apenas como funciona: tenho que dizer para ele o título do livro, que ele irá procurar num fichário posto no centro da sala, ali mesmo, depois, caso encontre a referência, irá, somente ele, buscar a obra.

Rendo-me à explicação. Dou-lhe a referência. Enquanto procura, conversamos. Demonstro a minha surpresa e decepção. Percebo nitidamente o constrangimento do servidor. Uma senhora, também funcionária, talvez por zelo e atenção, que acompanhava tudo desde a nossa chegada, sugere que falemos com o diretor.

A obra não é encontrada no surrado e velho fichário, cujas caixas de metal, dispostas uma ao lado da outra, formam um quadrado no salão oco. O servidor, atendendo a sugestão da colega, vai marcar nosso encontro com a direção. Digo que não precisa. Mas insistem. Definitivamente recuso o encontro. Estou cansado. E mais que isso: decepcionado.

À saída, comento com João Maria Alves o constrangimento dos funcionários, que a todo custo tentaram demonstrar solicitude e atenção, mesmo visivelmente escondendo algo que não soubera eu captar. João é enfático e convincente: “É que está tudo virado ai dentro. Está a maior bagunça, e eles, coitados, têm vergonha de mostrar”.

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