Décimo primeiro capítulo do romance “O dia dos cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

ONZE

Mal Barbaciano sentou-se para almoçar, o japonês chegou com a notícia. Uma tropa se movimentava no rumo de Princeza. Era preciso o envio urgente de uma coluna ao encontro deles, pois já deviam de vir bem perto, ali pelas bandas de São Boaventura, na Macambira dos Adolfos, aqueles ocos de mundo. A novidade deixou Barbaciano intranquilo e de mãos geladas.

A poeira era tanta que, do comboio todo, só se via o carro da dianteira, daí para trás só a algazarra dos praças e o barulho dos motores e dos pneus nos tabuleiros. Quando a poeira assentava, só se via nos longes a enorme serpente cagadora de poeira, maria-fumaça cuspindo fogo e arrastando os quartos. Não se sabia do tanto de carros que ia ali, nem de quantos homens se compunha a expedição.

A má notícia bateu duro no coronel, um golpe de picareta nos seus nervos. Tinha apenas vinte anos quando jogaram Princeza nas suas costas, um tempo de gente ruim no comando da nação. A província da Paraíba entregue a uma corja de ladrões e de boçais. De há muito que deixara de abanar a cabeça como lagartixa, fazer tudo conforme a conveniência dos almofadinhas da capital. Daí o corte das verbas para a instrução, saúde, viação e obras, e, por fim, a retirada da representação oficial, a debandada dos funcionários, o fechamento de todas as repartições estaduais.

Quando Japonês acabou de dar a notícia, o coronel teve a impressão de ter ouvido falar em tropas se movimentando. Teria sonhado? Deu várias voltas em torno da mesa, até que lhe viera na memória o sonho que a filha contara pela manhã, no café. Bem que acabara de se lembrar, embora tivesse ficado o tempo inteiro andando da mesa ao alpendre, a filha lhe narrando o sonho e ele fingindo que a ouvia.

A gravidez de Caluzinha estava atravessada na garganta de Barbaciano. Ela vivia trancada no quarto e até tinha deixado de cuidar dos filhos imaginários. Virou uma mãe relaxada, a ponto de esquecer as cantigas de ninar, todas aquelas que apreciava cantar para os bichinhos, sempre que eles tinham febre e puxado a noite inteira.

Caluzinha lembra o dia em que criou coragem e disse ao pai que estava grávida. O pai do seu filho andava pelo mundo, mas um dia viria buscá-la, assim que acabasse a tal revolução. Minervina entrou na sala trazendo um copo d’água, igualmente perplexa, e ele entornou de um gole só e entrou para o seu quarto e só tornou a aparecer no dia seguinte, na hora do almoço. Nunca, sobre tal assunto, jamais dirigiu a palavra a quem quer que seja. Só permitiu a Minervina, uma vez apenas, que esta tomasse a frente na defesa da sobrinha, defesa que entendera razoável, sobretudo porque tinha de volta a filha totalmente curada do juízo. Esquecera aquela demência, a fantasia dos gêmeos, nunca mais aquela história de ficar o tempo inteiro falando pequenininho, botando as crianças para dormir, indo buscar fraldas num varal imaginário. E à noite, quando resolvia botá-los para dormir, eles não dormiam a noite inteira, e a noite inteira ficavam a chupar-lhe os peitos e os bicos doíam e cada vez mais se enchiam de leite e Caluzinha se agarrava a eles e sentia dores horríveis.

– E desde quando o senhor se interessa por sonhos? – indagou a filha.

Barbaciano se aproximou e afagou-lhe os cabelos. Caluzinha estava preocupada com o que podia acontecer. No seu sonho, a estrada fervilhava de caminhões e os soldados vinham em cima deles apontando suas armas no rumo de Princeza, todos aqueles assassinos fazendo algazarra em cima dos caminhões, sacudindo as bundas fedidas nas tábuas duras, botando as tripas para fora nos solavancos, os pneus abrindo valas nos tabuleiros da estrada.

Caluzinha estava num lugar que não recorda, então apareceu um senhor muito velho e de barba branca que saiu de um casebre de taipa no alto de uma ladeira, à beira da estrada. Ele apontou para o caminhão da frente do comboio e perguntou se Caluzinha estava vendo um negro dentro de uma boléia com um machado em punho. Ela disse que sim e o velho garantiu que aquele era um feiticeiro com mais de oitocentos anos e que vinha ali para abrir os caminhos e fechar o corpo da tropa. O feiticeiro segurava um machado e pitava num enorme cachimbo.

O velho falava alto, porque os motores bufavam e gemiam, moendo e penando ladeira acima. E lá vinham. E Caluzinha foi sentindo que voltava. E uma força inexplicável a carregava de volta ao mundo dos acordados. Os caminhões, os soldados, aquele velho, a ladeira, a casa de taipa, tudo sumiu. Estava um escuro e Caluzinha tateou o travesseiro, sem saber para qual lado estava a porta e quem dorme com os pés para a porta é defunto. Mas naquela hora ela precisava dormir pesado, o bastante para terminar o sonho interrompido.

Ficaria ali na beira da estrada até passar o último carro do comboio. Precisava ver todos, ter uma ideia do tamanho da força que vinha se lançar sobre Princeza. Mas de nada adiantara tanto esforço, pois não viu mais comboio algum, nem soldados, nem poeira. Na cabeça da ladeira, só o velho de cabeça baixa, muito triste, sentado numa pedra, escavando o chão com um graveto.

Caluzinha se aproximou e olhou bem nos olhos do velho com suas enormes e ridículas orelhas de burro. Mas depois sentiu um misto de pena e raiva, porque o ancião apontou para o distante e disse com uma voz escrota de ironia e desprezo e gozo:

– “Ele vai cortar a cabeça do teu pai e levá-la para o presidente”.

A sacanagem é que o velhinho disse isso quase encostado no ouvido de Caluzinha, degustando cada palavra, cada letra, e no fim soltou uma gargalhada. Aquele senhor, com sua barba patriarcal de vovozinho, não existia mais. Era agora outra pessoa, um velho escroto e carrancudo, emitindo ruídos como relinchos de cavalo, chupando as gengivas desdentadas e apalpando o saco dos colhões. Todo mundo acordou com os gritos de Caluzinha. E de novo a mesma conversa de pesadelo, de sonho ruim; a tia vindo à cabeceira da cama fazer-lhe companhia até ela adormecer de novo.

Guabiraba tinha ajuntado pessoal para a emboscada. Atacá-los o mais longe que pudesse foi o que mais o Barbaciano recomendou. Assim, os inimigos seriam pegos desprevenidos, sem a atenção redobrada do medo de estarem próximos à Princeza. Embora tivesse um bom estoque de mantimentos, armas e munição e exército numeroso, convinha, pois, não deixá-los se aproximar.

A viagem foi tinindo e tão ligeira que em pouco tempo se pegaram já bem perto de Água Branca. Antes dali, a seis léguas de Princeza, Guabiraba gritou para os seus homens.

– Botem abaixo.

Estava escolhido o local da emboscada.

Pela manhã, depois dos primeiros goles de café, começaram a escutar o barulho dos motores e rapidamente sacudiram terra nas trempes improvisadas onde cozinhavam o desjejum. E correram para os seus postos, escolhidos em meio ao mato enfolhado pela graça das trovoadas, sob a proteção das pedras que Deus mandara colocar no lugar certo e aí veio o Diabo e rebolou tudo para a beira da estrada. Em pouco tempo o primeiro caminhão apareceu na curva lá embaixo no pé da ladeira. Depois outro e mais outro, o comboio todo, até um blindado que, segundo se soube, vinha para furar o cerco de Tavares, onde uma tropa inteira estava cercada há trinta dias. Subiam devagar, um atrás do outro. Os homens só esperando. Guabiraba tinha a visão de todos os carros subindo a ladeira, da mesma forma que sabia com a máxima precisão onde cada um dos seus duzentos homens se posicionava. Guabiraba tirou o olho da mira por um instante e ordenou:

– Fogo!

E a bala cortou adiante e na retaguarda. Atordoados e pegos de surpresa, os soldados não sabiam se iam ou se voltavam. Então eles muito pouco ou quase nada resistiram, porque os primeiros tiros atingiram as cargas dos veículos que transportavam munição e combustível. Foi tudo pelos ares. O feiticeiro também. Ele e o chofer, os dois únicos ocupantes do caminhão da pólvora. A viatura foi arregaçada. Depois que a fumaça desanuviou, Guabiraba veio com o pessoal para a estrada. De todo o comboio, apenas quatro carros foram confiscados. Os demais estavam queimados e alguns com avarias irreversíveis. Do lado de cá, nenhuma baixa. Os mortos, lá deles, cento e oitenta homens, foram recolhidos um a um e sepultados num covão aberto próximo à estrada. Guabiraba se aproximou do corpo do feiticeiro, bola de gordura exalando murrinha, bodum queimado e se botou pra cutucá-lo com o cano do fuzil:

– Não era tu quem ia levar a cabeça do coronel para o presidente? – rosnou, dando chutes no corpo do feiticeiro.

Quando a notícia do ataque chegou dentro de Princeza, num instante a praça se encheu, tamanha era de todos a vontade de ver os homens entrarem na cidade. Estava escuro, a lua era um risco opaco, ponta de unha se enterrando, e em pouco tempo lá estava quase enterrada, até que nada, enfim, além da Serra do Livramento emergindo da escuridão para escorar o céu.

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