Décimo Quinto Capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

QUINZE

NA TRINCHEIRA OESTE DO CERCO A TAVARES, um combatente de Princeza gritou para os companheiros.

– Deixem passar, é gente daqui!

O homem de chapéu de palha trazia uma foice às costas e andava devagar.

– Quem é aquele? – perguntou Guabiraba.

– Deve ser alguém dos Cordeiros, essas terras pertencem a eles.

– As terras sim, mas o homem não! – disse Guabiraba, exigindo que o trouxessem à sua presença.

O comandante puxou assunto, mas as três primeiras palavras saídas da boca do homem foram suficientes para confirmar a suspeita.

Guabiraba deu uns gritos, mostrando-lhe a faca que tinha para arrancar-lhe os ovos fora se não colaborasse. Ele contou tudo sem precisar de peia.

– Como te chamam?

– Sargento Napoleão – desembuchou.

Tinha recebido determinação superior para furar o cerco e chegar a Piancó em busca de reforço, mantimento e munição. Mais dia menos dia a tropa acabaria se rendendo.

A cacimba foi a gota d’água, disse o sargento. Marejando uma água encardida com ressaibo de ferrugem no fundo de piçarra, era a única que dispunha a tropa sitiada. Os homens haviam cavado uma vala, de forma que pudessem transitar com tranqüilidade da vila à cacimba, inteiramente fora do alcance das balas. O desespero bateu no dia em que um soldado bebeu daquela água e depois começou a dar golfadas de sangue. O médico da tropa foi chamado e disse que a cacimba tinha sido envenenada.

O capitão mandara furar as paredes da rua toda, por onde os soldados transitavam livremente de casa em casa, com se andassem através de um túnel. E assim, tinha-se a impressão de que havia homens em quantidade superior a que aparentava. A torre da igreja, no local mais elevado da vila, servia-lhes de observatório.

O sargento Napoleão fez um relato dos últimos acontecimentos de Tavares. A miniestação de telégrafo tinha sido atingida. A antena do aparelho, cuidadosamente colocada na cumeeira de uma casa, fora alvejada pelos sitiantes. O mais grave viria em seguida: a bateria se descarregara e era preciso funcionar o motor de um carro, mas não havia nenhum carro com combustível. Todo o estoque de gasolina ardera no dia da ocupação, quando decidiram atear fogo no comércio.

Hora antes da invasão, as famílias foram advertidas por um desconhecido – de corcunda acentuada, dizem que por conta das asas escondidas sob a roupa – que exortou todos a abandonarem a vila. Depois se soube que era o arcanjo São Miguel em missão de atendimento às orações de Caluzinha, que pressentira o ataque, pressentimento este ainda hoje comentado por todas as pessoas que tiveram suas vidas por um triz.

A última mensagem telegráfica fora para comunicar as baixas sofridas no confronto para a ocupação da vila de Tavares, a três léguas de Princeza. Quando se viram cercados, com pouca munição e as provisões já rapando o fundo dos sacos, inventaram de improvisar um catavento e carregar as baterias da miniestação de telégrafo e assim estabelecerem um contato com Piancó. Instalaram a geringonça num local de excelente ventilação, às vezes com pancadas de vento de meter medo. O capitão mandou os soldados retirarem os calços que prendiam as pás de madeira para que estas, girando sobre o eixo, movimentassem a polia do gerador. Mas, nesse instante, uma calmaria súbita abateu-se sobre o lugarejo, que até respirar tornou-se uma função difícil e penosa. Os homens se impacientavam com o suor escorrendo em biqueira. O capitão só começou a ficar preocupado quando olhou para o céu e viu os urubus embicando seus voos perigosamente em direção ao solo, parecendo um suicídio coletivo. Urubu nunca foi ave de se atrapalhar em vôo. Eles planavam os céus da vila e de repente se estatelavam nas pedras do calçamento, como pobres e burros galináceos chupados das alturas.

O tempo inteiro de nariz erguido, e respirando com dificuldade, o oficial não tirava os olhos do céu. Durante três dias morreram tantos urubus que escureceram o chão e os telhados das casas. Depois de esgotarem a água da cacimba, raspando-lhe a piçarra dura, com o tino de desentupir as veias do chão, foi que alguém se lembrou de limpar as ruas. Estavam tão preocupados com a eventualidade da falta d’água, que pouco caso fizeram dos cadáveres apodrecidos das aves por todos os lugares. Uma manhã inteira a tropa se dedicou ao sepultamento dos urubus. Findo o trabalho, o capitão sentou-se à calçada, exausto, desolado, a contemplar as pás do cata-vento que não se aluíam um centímetro sequer. Então tiveram a ideia de montar uma roldana, estrovenga montada sobre um eixo de onde partiam duas manivelas para serem impulsionadas a braço. Soldados em dupla se revezavam no trabalho duro de girar as manivelas. Durante mais de hora vários homens se mataram naquela roda infame, mas a carga que se acumulou na bateria foi tão insignificante que a máquina do telégrafo só emitiu dois sinais débeis e pifou para sempre.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. aldo lopes de araujo 8 de novembro de 2011 18:34

    Valeu, Rilke Vieira. Já me dou por satisfeito. Eu queria que o romance ficasse mais enxuto. Dei uma umas espanadas, usei o aspirador de pó e o resultado está aí.

    Grande abraço

  2. Rilke Vieira 8 de novembro de 2011 17:20

    parabéns aldo, li a primeira edição, e estou lendo com gosto os capítulos publicados aqui no substantivo, a minha impressão é que o livro ficou melhor, mais enxuto, linguagem mais apurada, trabalhada etc. não sei se outros leitores tem a mesma opinião. como faz tempo que li a primeira edição pode ser que tenha me enganado, não cotejei as duas versões porque este seu livro desapareceu, o que é um bom sinal, quem pegou-o emprestado gostou tanto que não quis devolver. não lamento, importa-me o que fica depois das leituras. abraço.

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