Décimo capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

DEZ

NÃO DESPERTARA ÂNIMO ALGUM AO CORONEL FAZER a corte a um presidente que na primeira semana de seu governo elevou as alíquotas do imposto sobre o algodão. E o que é pior: assentou cancelas na divisa do estado, vigiadas dia e noite por cães, soldados e guardas inchados de cirrose e propina. Por essa razão Barbaciano não foi recebê-lo na entrada da cidade, nem mandou representante. As escolas não sacrificaram os seus alunos com bandeirolas ao sol. E a banda de música comemorou efusivamente o extravio da oportunidade.

Antes de descer do carro, o presidente mandou um xeleléu seu bater palmas à porta da casa, a única da rua grande que possuía três palmeiras imperiais na calçada, endereço onde era impossível alguém bater e não receber boa acolhida. Após os cumprimentos, a primeira queixa que escutou foi a do imposto do algodão, responsável pela quebradeira geral. Foram altos os investimentos para a aquisição de maquinário e mão-de-obra, além de estradas e instalações. O presidente, não se sabe se por conta do cansaço da viagem ou se por outro motivo, procurou desconversar, alegando que tomara tais medidas para evitar a “evasão de divisas”. O algodão da Paraíba tinha de ser vendido na Paraíba e não no Pernambuco.

— Evasão coisa nenhuma – protestou o coronel – vendemos o algodão a quem botar preço melhor e está acabado!

O presidente engoliu em seco e não contra-argumentou, estava faminto e cansado. Conversaram sobre política, a lonjura das estradas e o escasso inverno na região. Depois do almoço, o presidente despencou numa rede e agarrou no sono e roncou alto por alguns minutos e ainda soltou umas bufas. O comentário das camareiras e dos empregados da casa dava conta de que foram sete bufas ao todo, três pequenas e quatro bastante ruidosas.

Assim que levantou, disse ao coronel Barbaciano que queria ver a estátua do tio, o senador mais votado em toda a redondeza, mas que nunca botou os pés em Princeza e a única coisa que prometeu – e cumpriu – foi aquele boneco de bronze em tamanho natural que só servia de cagador para a passarada. Muita gente morria de inveja dos passarinhos, que podiam cagar na cabeça do tal, o que era por demais bem merecido.

O presidente caminhou até a praça, seguido de sua comitiva, mas sem a companhia do coronel Barbaciano, que arranjara uma desculpa para não sair. Alguns curiosos que por ali se aglomeravam uniram-se ao pequeno grupo. O presidente se aproximou da estátua e leu a plaqueta colada no pedestal.

Eis-me aqui para sentir a seca

e ouvir a voz rouca das ruas.

Abaixo da frase estava o nome do senador e o dístico com o qual sempre se identificava nas campanhas: o senador do povão. O presidente leu e ficou embaraçado, ao perceber logo que alguém havia arrancado o p, certamente por molecagem, despeito de oposição, que ele só acreditou existir por aquele fim de mundo.

O presidente se aproximou da estátua e disse com a voz impostada, uma mistura de fala meio cantada com voz trêmula de padre velho celebrando em latim:

— No futuro, Princeza terá também a minha estátua!

E enquanto se demorava na praça, o secretário saiu para providenciar o abastecimento dos automóveis.

— Quem é o freguês dono dos carros? – indagou José Apolinário do fundo de uma espreguiçadeira, com o chapéu caído por cima dos olhos, quase cochilando.

— O presidente!

Aí José Apolinário deu um pulo e olhou firme para aquele jovem calvo, de óculos de aros redondos e sapecou o desaforo em português bem explicado:

— Pois diga a ele que vá comprar gasolina no inferno!

Apolinário mandou o desaforo com gosto, com o prazer de quem estava se sentindo bem vingado. Acompanhou a má-criação uma chuva de pingos de cuspe na cara lívida e oficial do secretário.

— Mas, senhor?

— Nem uma gota.

Vendo-se naquele fim de mundo, o secretário apelou:

— Cante o preço?

— Já lhe disse que não vendo. O comércio quebrou por conta do seu presidente. Algodão não vale mais nada.

— Mas, senhor?

— Nem-u-ma-go-ta! — soletrou Apolinário

A gente que vivia dos negócios do algodão fora obrigada a vender fibra por uma ninharia, e ainda ter de suportar a quebradeira, o movimento parado do comércio e a debandada da mão-de-obra dos campos para o sul do país. Nunca mais aquela pujança, as novas estradas sendo abertas para nelas trafegarem os caminhões, a ferrovia avançando sertão adentro e as usinas de beneficiamento se multiplicando.

O preço do algodão em Pernambuco era quatro vezes maior. Mas ninguém passava pelas cancelas. Dinheiro às turras ia para o bolso do truste que controlava o mercado no estado. E os comentários que se ouviam davam conta de que o presidente também ganhava o seu e, de quebra, quebrava os primos usineiros ricos e compradores do algodão que se produzia em Princeza e em muitos outros lugares da Paraíba.

O secretário foi até onde estava o presidente e transmitiu-lhe o destempero do homem da gasolina. O presidente rosnou, apanhou dois punhados de vento e se estremeceu todo. Depois o presidente respirou fundo e mandou que fossem buscar o combustível.

O secretário tinha quase certeza que o coronel de Princeza não apoiaria o presidente, razão pela qual o aconselhou a não tocar no assunto. Não convinha.

— O Senhor não merece suportar mais uma desfeita!

O presidente concordou. Daí haver tomado a decisão de partir sem se despedir de ninguém. Ainda chacoalhava no fundo dos tanques um restinho de gasolina, o suficiente para esticar até Afogados da Ingazeira ou Rio Branco.

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