Décimo Oitavo Capítulo do Romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Arte de Alberto Lacet

DEZOITO

GUABIRABA VIU NA FEIRA A APRESENTAÇÃO DE ZÉ Bonequeiro e seu boneco Fulustreco. Sentado no colo de Zé, o boneco tinha resposta para tudo e arrancava gargalhadas no meio da rua cheia de gente. Uma verdadeira anarquia. De todas as pessoas ali, a filha do coronel Barbaciano era a única que não se divertia. Ao contrário, à medida que o boneco ia falando, ela ia se sentindo mal. O boneco falava, Caluzinha metia os olhos no chão. O boneco falava, Caluzinha estremecia.

— Está se sentindo bem?

— Só uma leve indisposição — desculpou-se.

— Posso acompanhá-la até em casa — sugeriu Guabiraba.

Alguém trouxe um caneco de garapa e ela aliviou-se da vertigem.

— Essa voz não é de gente desse mundo, seu Guabiraba, o boneco fala por conta própria. Não vejo nada de ventriloquia! — disse ela, indo para casa.

Quando o sol começou a procurar canto para se esconder, a roda se dissolveu, Zé enfiou o boneco dentro de uma mala e rumou para a casa de pensão onde se hospedara.

As luzes da cidade já estavam apagadas, daí a dificuldade que iria ter Guabiraba para pastorar a dupla. Ele ficou de olho na casa de pensão, escondido detrás de um poste, pois já tinha informações de que o boneco era acostumado a passar a noite zanzando por aí. Quem sabe o tal não tomaria o destino da Rua da Baixa à procura do pescoço de algum inocente onde pudesse enfiar a faca. De repente uns passos. Guabiraba se engatilhou, armas e músculos para lascar o fiofó do boneco Fulustreco. E de detrás do poste, bem na esquina, levantou o porrete e, antes de abaixá-lo com toda a força dos seus braços, uma voz grossa jogou na cara de Guabiraba um bafo infeliz de café e alho cru.

— Boa-noite, quem pode mais do que Deus?

— Nem eu nem o senhor, seu Quebra-Ferro, respondeu Guabiraba, desistindo da caçada.

Corria uma história de que Zé Bonequeiro recebera inspiração do Diacho para fazer o boneco Fulustreco. No correr do dia, o infeliz entretinha o povo nas feiras e nas rodas de folia, falando pelos cotovelos, sentado na perna do homem e divertindo os circunstantes. Depois de certas horas da noite, o boneco virava papa-figo. Diziam que Zé Bonequeiro dava corda em Fulustreco, botava a faca na mão dele e ordenava: “Só volte quando acabar”.

Foi quando os primeiros crimes começaram a assustar na região. Vez por outra era encontrado o corpo de uma criança na capoeira, numa vala ou num terreno baldio, boiando num açude ou preso na linha do trem. E sempre a mesma malvadeza, a mesma engenhosidade no acabar com a vida. Os ferimentos eram feitos à faca, um no pescoço e outro na barriga. O assassino arrancava o fígado das pequenas criaturas. Era a sua marca pessoal, o seu ferro de criminoso de coração de pau.

De manhã, dois homens da Guarda, mandados por Caluzinha, foram até a pensão e agarraram Zé Bonequeiro na hora em que ele engolia o último gole de café e já estava de bagagem pronta para partir.

— Abra a mala.

— Agora mesmo, autoridade! — disse Zé, tremendo tanto que teve dificuldade em desafivelar as duas correias de couro. O guarda arrastou a faca e cortou as correias, deu um coice na tampa da mala e a primeira coisa que viu foi o boneco, ancho, com uma toalha de rosto em volta do pescoço e ao seu lado uma garrafa de verniz, uma faca, um chumaço de algodão e os sapatos de uma criança que Zé Bonequeiro jurou ajoelhado não saber como aquilo fora parar ali.

— Os dois estão presos — disse o guarda.

E foram logo cobrindo Zé Bonequeiro no tapa, empurrando o homem, vários empurrões, até que chegaram à Intendência da Guarda, onde funcionava a cadeia pública e a delegacia. Até aquele momento não havia registro de ocorrência de desaparecimento de criança ou de gente grande, nenhum corpo encontrado. Os guardas esperaram horas a fio, e nada. Mesmo assim, o suspeito acabou enjaulado numa cela. Quanto ao boneco, nenhum recurso foi lançado em seu favor. Choveu gente diante do xilindró. Os guardas exibiam o conteúdo da maleta para quem desejasse ver. A raiva do pessoal foi tanta que em quase meia hora Fulustreco levou quarenta e quatro facadas, dez tiros de revólver, cinco foiçadas, vários pontapés, uma bombada de veneno na cara, até um coice de jumento ele levou na boca-do-estômago, mas ainda assim continuava de pé, desafiador.

— Esse peste é o Diabo! — disse Emiliano, mordendo os beiços de gamela e segurando no cabo da faca.

— Vou acabar com ele! — gritou Guabiraba, que veio correndo quando viu a ruma de gente.

Nesse instante ouviu-se um grito de mulher pedindo passagem na multidão. Era Caluzinha brandindo o cordão de São Francisco. Ela vinha para dar uma surra no infeliz. E deu. O cordão tinha sido benzido no penhasco de Nossa Senhora de Solidão e tinha tanto poder que o infame perdeu as forças totalmente e caiu se estrebuchando. E Caluzinha depressa o amarrou, enrolou o cordão por cima dos braços e foi descendo para as pernas e arrochando e rezando uma reza esquisita de medonha, que o boneco não suportou, deu um estalo, rachou-se de cima a baixo e morreu.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. aldo lopes de araujo 20 de novembro de 2011 21:17

    Valeu, parceiros!

    Este espaço me dá a oportunidade
    da reescritura.
    E a resposta vem na velocidade da luz.

  2. Paulo César 20 de novembro de 2011 10:02

    Ótima leitura!
    Guardando todos para enfeixar depois e lê-los com maior desfrute e prazer.

  3. Godot Silva 19 de novembro de 2011 17:31

    Bravo, Aldo! Maravilha!

  4. Anchieta Rolim 19 de novembro de 2011 13:55

    Valeu Aldo! Meu irmão, por causa de umas exposições deixei de ler alguns capítulos, porém, vou agora mesmo me atualizar. Abração!!!

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