Décimo Segundo Capítulo do livro “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

DOZE

HOUVE UM TEMPO NOS PATOS DE PRINCEZA EM QUE só se falava na Velha, uma tal que existiu numa época em que o riacho, virgem de nome, ainda não se chamava Riacho-da-Velha. Nem a mata, a serra, a ponte, a gruta, nada até então tinha o seu nome. Embora tudo a ela pertencesse, a Velha naquele tempo era viva e nada havia se sucedido do jeito e da forma como se sucedera. E ninguém que se metesse a besta de puxar o fio com que se tecera o foi, mesmo sendo, de forma a não se alterar os destinos do que há de ser.

Joaquim Pedro e José Apolinário não conheceram o pai. E tanto se acostumaram com o silêncio da Velha, que jamais em tempo algum ousaram perguntar por ele. Joaquim vivia na cidade, ou melhor, dentro de uma rede, dela somente se levantando para comer e ir à privada. Casou-se, mas nunca teve filhos. Da fazenda vinha-lhe o sustento, um mundo de terras que recebera de presente da mãe, para, em troca, aturá-la em sua casa.

José Apolinário teve trinta filhos em vinte e nove anos de casamento. Morava de favor nas terras do irmão, terras estas que, por direito de herança, deviam ser dele também. Vivia José Apolinário da lavoura e naquele ano, pela primeira vez, não precisou se ajuntar aos flagelados para saquear a feira de Princeza. Toda tarde José ia para o curral do irmão. Era o olho comprido nas carnes fartas dos bois, como a raposa faminta que segue o touro, sem tirar-lhe os olhos dos testículos, a cabeça acompanhando o movimento pendular do saco e o pensamento dizendo: cai já, cai já, cai já. Nunca cai. E a raposa desiste.

Mas José Apolinário não era homem de desistir. Na primeira ausência do vaqueiro, ele matou um dos bois do irmão. Joaquim Pedro havia mandado o gado para a ribeira do Pajeú, porque lá tinha pasto. Na fazenda ficaram apenas os bois mansos dos carros. Três meses de fartura. Quando acabou a carne, José Apolinário foi lá e matou o segundo boi. Depois matou o terceiro. Joaquim Pedro pôs-se a desconfiar do irmão. Até pensou em bisbilhotar-lhe a casa, mas julgara impossível, por conta daquela filharada toda, cada um com dois olhos enormes a espreitarem por dentro de casa e nos arredores. E sem contar com a esperteza do irmão. Foi então que Joaquim Pedro maquinou uma saída: mandaria sua mãe dentro de um baú. Um portador, disfarçado de viajante, pediria para José Apolinário guardar o baú por uma noite. Acaso não desse certo e acabasse descoberta, tratava-se de sua mãe. Outra pessoa, o irmão José mataria.

A velha mãe arranjaria qualquer desculpa. Caduquice, meu filho, diria a José, e José acabaria achando tudo muito engraçado. O baú por dentro ficou muito confortável e a velha exigiu apenas uma quartinha d’água e um pão.

– E suas necessidades, mamãe?

– Eu me viro, meu filho, se preocupe não!

E entrou no baú. Joaquim Pedro Apolinário passou a chave e chamou o portador.

O baú tinha um buraco quase ao nível do chão, para servir de respiradouro e também de buraco para a Velha espionar o movimento da casa. E nisso ela era boa, tinha excelentes ouvidos e olhos de bacia, muito embora não possuísse vista de primeira, por conta da catarata e da velhice. Outra coisa era a vantagem de ser magra e pequena, podendo caber em qualquer lugar. Na juventude, cepa de mulher. Com o tempo, ela foi se envergando e perdendo os dentes e murchando a cara e secando os peitos e emagrecendo e os ossos encolhendo. Resultou naquilo. Suspendendo o baú, não havia no mundo quem suspeitasse existir gente ali dentro.

Ao avistar José Apolinário, o homem foi logo se derretendo. Era um viajante. E ia pedir um cantinho para guardar por uma noite o seu baú. Precisava resolver um negócio. Pela manhã viria buscá-lo. José nem mandou o homem entrar, pegou o baú e o levou para o sótão. À noite, quando todos dormiam, José Apolinário subiu e foi apanhar a carne seca para o almoço do dia seguinte. A carne de primeira, só das partes nobres do boi, mantas e mais mantas salgadas por cima das tábuas. O sótão era um excelente esconderijo. Descia pela escada, quando escutou um assobio. Parou, olhou para cima, para baixo, de lado. Ao primeiro passo outro assobio. Aí José lembrou-se do baú, foi deixar a carne na cozinha e subiu.

– Ah! Então é você que anda roubando o seu irmão? – gritou a velha, de dentro do baú, o olho no buraco.

– Mamãe, a senhora me espionando?– retrucou José Apolinário, reconhecendo a Velha naquela voz abafada, e em seguida tampou com o solado da botina o buraco para ninguém ouvir os gritos. A infeliz gritou, mas o grito não teve por onde sair, nem o ar teve por onde entrar, porque o orifício estava bloqueado, e José só tirou o pé depois que a mãe parou de estrebuchar. O baú sacudira muito por uns dois minutos. Depois parou.

Pela manhã, o tal “viajante” veio buscar o baú e José o entregou e o tal agradeceu e foi embora. Coisa do irmão. Igual à mãe, não merecia nada. A mãe foi só de parir. De criar e considerar, a Velha nunca foi mãe não. Só existia para Joaquim.

Deserdado e esquecido, José correu para o Saco da Inveja e se agarrou com unhas e dentes e raízes a uma nesga de terra entre o riacho e o pé da serra, e o irmão Joaquim veio de lá e, com a anuência da mãe, meteu-lhe uma cerca de arame, plantou uma estaca bem no pé da porta da cozinha, de modo que José ficou espremido entre a cerca de Joaquim e o pé do serrote. De nada adiantou pedir ao irmão que afastasse a cerca, não carecia de ser muito não, o suficiente apenas para que José pudesse abrir a porta.

– Afaste a casa! – foi a resposta seca de Joaquim.

A notícia da morte da Velha não demorou. José Apolinário estava só esperando pelo que já sabia, para então divulgá-la entre os seus, e em seguida partir para os Patos de Princeza, os 30 filhos e a mulher. José na frente, magro, espadaúdo, passos largos. Atrás, os filhos maiores. E mais atrás, os pequenos a indagarem sobre coisas que somente José Apolinário saberia explicar. Iam para o velório de vovó, mas vovó nunca passou de uma palavra. Vovó mistério. Vovó distância. Vovó silêncio. Os caçadores não eram para ter tirado a velha de dentro da barriga do lobo mau. O gato preto de vovó jamais iria escorregar na panela de feijão. Ela empurrou o chaninho de propósito. Estava com vontade de comer carne de gato preto. A velha comia gatos. Não só comia os bichanos como se utilizava deles – os pretos – para as coisas do Tinhoso.

– A avó de vocês nunca botou os pés lá em casa para ver um neto sequer. Ainda de resguardo, eu botava um pano na cabeça e caía na besteira de ir até lá com o menino. Ela nem abençoava direito, só dizia “bençoe” e pronto. Do terceiro menino em vante, fiz uma jura de só cruzar os batentes daquela casa no dia em que ela morresse. E é o que vou fazer.

– Mamãe sempre esteve muito ocupada com as coisas dela e ainda tinha o sofrimento por conta do reumatismo — tentou justificar José Apolinário.

– Por isso que ela passou a voar numa vassoura. O povo num mente não. Era ela assombrando todo mundo.

– Caduquice de mamãe – disse José Apolinário.

Castigo. Isso sim. Diziam que aquela riqueza toda viera do Diabo. A Velha tinha feito um pacto com o Cão. E ainda tinha essa conversa besta de gato preto, de hora da meia-noite, encruzilhada, sem contar as frescuras de panela de barro virgem, urina de pinto macho, água serenada de sete noites e gato atirado vivo dentro da panela em alta fervura para cozinhar até sua carne se despregar dos ossos. Para encurtar a história, diziam que a Velha colecionava ossos mágicos de gato preto. Para saber qual era o osso poderoso, que iria servir de amuleto, a velha juntava um por um e ia mordendo eles diante de um espelho. O osso que não fosse visto à luz do espelho seria o mágico. A velha andava com um deles dentro de um saquinho de couro e pendurado como um escapulário.

– Pelo visto, o osso dela falhou – sussurrou a esposa.

José Apolinário deu um calado como resposta, os olhos em cima do caixão. A Velha estava linda no seu vestido mais bonito. E os aneis? E o trancelim? Estava tudo lá, José Apolinário conferiu.

– A nossa mãe era muito vaidosa, meu irmão, agrade bem a nossa mãe, ela não pode ficar triste no outro mundo! – disse José Apolinário, em alto e bom som, para todos ouvirem e em seguida apanhou o chapéu e foram todos para o enterro.

Mas naquela tarde o sino não tocou. Quando o menino se pendurou na corda, o grande sino se inclinou, mas não se ouviu som algum, o badalo enferrujado se despregou e caiu na cabeça do garoto. Na volta encontraram uma multidão em volta da capela, o coroinha morto com a corda ainda laçada na mão, esticado no solo e com um horrível afundamento na cabeça.

Ao amanhecer, Joaquim Pedro abriu a porta para o dia entrar e a Velha lhe caiu nos braços. Pulou para trás e gritou tanto que a casa num minuto se encheu de gente. José Apolinário, quando soube do acontecido, correu para a casa de Joaquim e foi entrando e foi dizendo:

– Nossa mãe não anda satisfeita! – e sugeriu a Joaquim Pedro que providenciasse um caixão de madeira de lei, mortalha de linho, com aquela tiara, aquela tiara que era toda de ouro e cravejada de diamantes.

– Cadê as jóias, meu irmão? Ajeite a nossa mãe!

E tornaram a sepultá-la. Dia seguinte, a cozinheira de Joaquim, com medo de dar de cara com a Velha, abriu a porta dos fundos e a mãe do patrão caiu em cima dela, nua, um mau cheiro insuportável. José Apolinário veio novamente, e novamente a mesma história. Novo enterro, caixão da melhor madeira da região, mortalha feita da fazenda que Joaquim tinha mandado comprar para a esposa no Brejo da Madre de Deus. A tiara de brilhante enfim colocada na Velha para prender-lhe os cabelos, dando-lhe um aspecto menos aterrador, tamanha era a magreza de sua cara chupada e murcha. Além da tiara, havia muitas outras jóias caras e finas e muitas rosas.

José Apolinário mudava de vida. Com o apurado do primeiro desenterro, comprou uma nesga de terra vizinha à propriedade do irmão, reconstruiu a casa, que ganhou portas novas de madeira de lei, feitas das tábuas dos vários caixões e vestiu a mulher e toda a filharada com os panos caros dos mascates italianos. As jóias mais caras ele ia guardando, que era para não dar nas vistas. Não dar nas vistas do irmão e dos cangaceiros do bando de Alexandrino Caçula. Só dois homens de Alexandrino foram capazes de roubar o trem em Arco-Verde e deviam de estar socados por aquelas brenhas dos Patos, ou de passagem, com a preciosa carga, para ir entregá-la ao chefe, em Lagoa dos Ossos.

Joaquim ainda andou procurando sentinelas para a sepultura de sua mãe. Pagaria bem. Dobrou, triplicou a oferta. Ninguém topou. Depois, pensando bem, chegou à conclusão de que aquele desmantelo era da vontade de sua mãe. Castigo. Onde estava com a cabeça quando inventou aquela história do baú? Ainda bem que o irmão José de nada desconfiou. Nem ele nem ninguém.

Da última vez em que José Apolinário desenterrou sua mãe e já ia em direção à casa do irmão – dessa vez ia deixar a velha no estábulo junto com os cavalos, lugar para onde o irmão ia primeiro assim que se levantava – já passava da meia-noite, um nevoeiro escuro rente com a Serra dos Bernardino não deixava a lua cheia clarear, quando ouviu vozes e o barulho de cascos de cavalo nos tabuleiros. Então ele se abaixou, ocultando bem o corpo da mãe nas moitas à beira da estrada.

Quando os dois homens passaram, José os acompanhou sem que o percebessem. Imaginou que fosse gente dali de perto carregando um animal estropiado. Um dos tais puxava o animal pela corda e conversavam emparelhados. Lá para as tantas tocaram no assunto em torno da Velha, que já corria mundo como a maior das assombrações. Foi então que José agarrou o corpo de sua mãe e o escanchou na cangalha da égua.

Meia légua de andada, os cascos da égua tiniam nos tabuleiros. A lua despontou de uma nuvem e clareou os serrotes brancos dos Patos e projetou uma silhueta diferente da sombra da égua com sua carga, uma estranha amazona com braços secos esticados para frente. Ao primeiro grito, seguiu-se o segundo. O dono do primeiro grito meteu-se pela capoeira, o amigo o agarrou pela camisa e saíram os dois quebrando marmeleiro na caatinga. José Apolinário calmamente pegou a égua pelo cabresto e foi para casa. O animal não podia ficar abandonado.

José Apolinário teve uma surpresa ao entrar em casa. Havia muito dinheiro dentro daqueles surrões de couro amarrados na cangalha da égua. Então ele abraçou-se com a mãe e chorou. A Velha até que enfim tinha reconhecido a mãe desnaturada que fora. Só cobrindo de mimos o seu irmão Joaquim. E beijou a mãe e a abraçou como nunca fizera antes. A Velha sequer olhava para José. Até que ele cresceu e, enjeitado, se embrenhou no sítio do Saco da Inveja e para lá levou a mulher que era nova e fortona assim, grossa, como se diz dessas mulheres de quadril largo: as parideiras. A mulher não tinha fogo, era Zé enfiado e ela só dizia:

– Acaba logo, José!

Aquele desinteresse pelo sexo dava uma ira danada, excitava muito José, que era grande, e disso se orgulhava desde quando começou a se pôr rapaz. Ele balançava o negócio lá, todo orgulhoso do título de campeão de arremesso. Era assim que funcionava o campeonato: os meninos ficavam todos em fila, um ao lado do outro e o juiz (tinha até juiz) dava um assobio. O juiz aferia algumas qualidades no atleta, sendo as mais importantes a rapidez na preparação — ganhava mais pontos quem primeiro sentisse aquele friozinho na espinha — e o lançamento propriamente dito. Ninguém ganhava de José Apolinário. Parecia uma espingarda. O primeiro jato voava longe e atingia marcas inesquecíveis. José era o mais velho de todos e consolava os pequenos:

– Vocês um dia chegam lá!

Naquela noite, José Apolinário entrou em casa sem que a família percebesse. Todos dormiam. Então ele guardou a fortuna, pegou o bacamarte, virou a coronha para o chão e despejou na boca do cano grosso da arma quatro medidas de pólvora, puxou a vareta, socou a bucha, socou, socou, depois escangotou o cão e colocou uma espoleta e deixou a arma no ponto. Lá fora, ele montou a Velha na égua, amarrou bem o cadáver nos cabeçotes da cangalha e deu um chute na cernelha do animal, enquanto o dedo puxava o gatilho do bacamarte. Um tiro estremeceu a escuridão e a égua desembestou mundo adentro com a Velha. O estampido acordou a casa, os filhos pularam para o terreiro. A mulher também se acordou atordoada. Todos correram para onde estava José:

– O que foi isso, pai?

– Nada!

– Fala, homem! – insistiu a mulher.

José deu o calado como resposta. Homem sempre muito durão, pau era pau e quem quisesse que metesse a cabeça no lajedo, caísse de costas e quebrasse a rola, que era muito bem empregado. Aqueles malotes – José veio saber dias depois – pertenciam ao cangaceiro Alexandrino Caçula e era todo o resultado do roubo do trem em Rio Branco. Dos seis ladrões que atacaram o trem, quatro ficaram estirados dentro do vagão. Aquela fortuna toda iria para o bolso de Alexandrino, caso não tivesse ocorrido a José Apolinário de assombrar aqueles pobres almocreves, que de almocreves eles não tinham nada.

Muitos anos se passaram e muito ainda se ouviu falar da Velha. Não faz um ano a tal foi vista em frente ao cemitério onde deveria estar, quietinha como todos as outras velhas de seu tempo, dentro da terra. Foi vista por várias vezes montada na égua, aquela velha durona, centenária, firme na montaria, diante do portão do cemitério. Dizem que ela demora por volta de cinco minutos, cinco minutos que parecem uma eternidade. Depois esporeia a égua, o tufo de faísca clareia a noite e a bola de fogo dana-se pelo estradão. E só se escutam os gritos da velha aboiando, vez por outra chama pelo filho.

– Joaquiiiiiiiiiimmm!

E o grito vadeia pelos Patos de Princeza, Saco da Inveja e Serra do Livramento.

– Joaquiiiiiiiiiimmmm!

Alma penada de muito sofrer, a Velha não deve de esperar nada dos vivos, porque os vivos não decifram seu mistério. Ninguém nunca soube das suas necessidades, se queria sepultura, reza, se queria dizer onde tinha dinheiro enterrado, ou se queria ser só assombração tão-somente pelo prazer de ser ou porque nasceu predestinada para tal ocupação, para tal sorte e destino. Assombração dessas ranzinzas, renitentes, condenadas a durar mil anos.

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