Décimo Sexto Capítulo do Romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Arte: Alberto Lacet

DEZESSEIS

GUABIRABA ACABAVA DE SE BARBEAR quando viu a metade do corpo de Emiliano Tatajuba dentro do espelho pendurado num prego na parede do corredor. Visto assim, Emiliano parecia o gênio da lâmpada, até mesmo um saci se perneta fosse e o tempo tivesse desbastado o seu tamanho, pois o negro era um monstro de grande. Enquanto dava os últimos retoques no rosto galego de sobrancelhas acobreadas, Guabiraba via a cara de Emiliano, e em especial o contraste dos dentes brancos no riso despachado e largo. Ele deu a última navalhada debaixo do queixo e se virou, enxugando o rosto, sem saber que havia a sua espera, além de Emiliano, duzentos e tantos homens se lascando no meio do sol.

Guabiraba rapava a cara e se lembrava do irmão Rogaciano dentro do caixão, o fedor de cachaça abafado pela mortalha. O irmão, sepultado há uma semana, estava bêbado quando se atirou nas águas do açude. Minutos antes batera à porta do último bar no fim da rua, no pé da ladeira. O dono do bar estava fechando. Ele fechou o bar na cara de Rogaciano e Rogaciano mandou ele tomar no cu. O dono do bar abriu a janelinha e perguntou o que ele tinha dito e ele disse nada, não, meu chefe, eu disse que ia ficar nu. E o homem disse pode ficar, a rua logo mais vai estar escura. E entrou.

Rogaciano subiu na balaustrada do paredão do açude e olhou para as águas e viu uma luz lá dentro e perto dessa luz um bar. Mas para aquele bar ele não ia. Também não ia para o Inferno nem para porra de lugar nenhum, como mandara ainda há pouco o dono do bar. Não. Ia ficar o resto da noite ali, na balaustrada do açude, porque o dono do bar não era dono da balaustrada nem dono do meio da rua. O homem do bar apagou a luz do seu bar e apagou tarde. Depois a rua toda se apagou, mas Deus não desligou o motor de luz do céu, porque as estrelas se mantiveram acesas e chapiscavam as águas. Foi quando Rogaciano se pôs de pé e, de cima da balaustrada, declamou as últimas estrofes de um verso e depois mergulhou no infinito para ficar “à luz dos astros imortais abraçado com todas as estrelas”. Naquela noite, Rogaciano resolvera beber todas as cachaças de Princeza.

O porre foi tão grande que ele, ao deixar o bar, sob o protesto dos amigos, cambaleou na esquina de Waldemar, na cabeça da ladeira. Tão logo se recompôs, deu uma última espiada para trás e gritou:

— “Nem morrer é remédio!”

Era o primeiro verso do poema de um cantador amigo seu, o poema que Rogaciano costumava declamar aos quatro ventos, quase chorando, brandindo os braços, os gládios do desespero. O poema falava em tédio, e Rogaciano ficou nisso, depois ele babou um soneto até a metade e começou um discurso, mas teve que interromper o seu engrolado de oratória, porque tombou para frente e cuspiu mais uns três sinônimos difíceis, puxou o corpo para trás, pendeu para um lado, pendeu para o outro e não mais conseguiu se equilibrar.

— Cadê você, Severino Augusto!” — gritava ladeira abaixo, convocando o companheiro para a farra.

Mas Severino Augusto, por doidice de anteontem, cachaça, talvez mulher, ou quem sabe as três coisas engatadas, espatifara o violão na cabeça de um guarda. A rua trancou as portas e ele esculhambou e comeu terra e acabou no xilindró.

— Se-ve-ri-noooo! — gritava Rogaciano. E gritava em vão, às peitadas, quebrando tudo, batendo em tudo. Bêbado é bicho de sorte, pois até hoje não se sabe como Rogaciano arranjou tino para se desviar daquelas bocas-de-lobo, do desnível das calçadas, das raízes das árvores, inclusive dos dentes dos cachorros da companhia inglesa Machine Cotton, cinco feras à solta no jardim, que se atrepavam pelos muros e eram capazes de comer o braço inteiro de algum desavisado que passasse se agarrando pelas grades, ou as mãos escorregando sobre os ferros.

Guabiraba acabou de se barbear, enxugou o canivete na toalha que mantinha a trazer para os sítios da memória a imagem de uma mulher desleixada do vestido — os olhos convidativos para o debaixo da saia da ingazeira ou do pau-d’arco ainda em flor, soltando pólen — Emiliano teria ficado o resto da tarde ali, os negros no pátio, impacientes e mortos de fome e cansaço.

— Recebi o recado do coronel e aí estão os homens! — disse Emiliano.

A boa convivência que os negros mantinham com os Rosas vinha de muito tempo. Quando Clementino chegou e decidiu construir uma casa à beira da Lagoa da Perdição, de há muito que na Serra do Livramento viviam os negros. O encontro não tardaria a acontecer. Um dia, voltavam de uma caçada quando viram aquele homem contemplando as águas. Ninguém fez nada. No segundo encontro eles se cumprimentaram. O branco os presenteou com uma faca e em retribuição recebeu deles uma cabaça, um colar de dentes de animais e uma pele de onça parda.

Emiliano desde criança ouvia histórias do tempo da escravidão.

— Conte uma história, pai-vovô?

— Era uma vez um negro chamado Semba, Rei Semba.

— Outra, pai-vovô, essa aí o senhor já contou!

E de tanto ouvir, Emiliano já sabia de cor que o Rei Semba viera fugido do vale do rio Goiana, em Pernambuco. Os negros do Livramento nunca esqueceram que um dia existiu um lugar com esse nome, um paraíso recortado por dezenas de riachos que desaguavam no grande Goiana. O avô de Emiliano se orgulhava de trazer nas veias o sangue dos Tatajuba, descendentes do rei Semba que fundou o Livramento e se tornou o primeiro rei do seu povo. Eles fugiram depois da expulsão dos invasores, estes também brancos e de fala incompreensível, que haviam se apossado dos engenhos. Os antigos senhores ganharam a guerra, mas voltaram mais gananciosos ainda. E quase mataram os escravos no chicote, botando os engenhos a todo vapor, moendo a todo custo, nem que para isso tivessem que também moer o fígado dos negros.

Os tais brancos estavam sempre muito irritados. E um belo dia Semba tomou o chicote de um deles, arrastou-o pelo braço e lhe deu o troco: passou-lhe o gavião da foice no gogó e depois se embrenhou na mata, não sem antes incendiar o canavial. O vento soprou e uma coluna de fumaça escureceu o céu, enquanto o negro fugia pelo estradão, levando os cavalos do seu senhor. Dias depois ele ateou fogo no engenho vizinho, a casa grande ardeu, ardeu o canavial e Semba levou todos os cavalos e os escravos, saindo de engenho em engenho, engrossando o contingente de fugitivos. Cinquenta léguas sertão adentro. E tão logo avistaram os paredões rochosos da serra, escolheram-na como esconderijo.

Guabiraba deu uma espiada lá fora. Todo o pátio do quartel estava tomado.

— Quantos?

— Duzentos – respondeu Emiliano.

— Vou providenciar comida e alojamento.

O quartel estava quase vazio. No momento havia o mínimo de efetivo, o bastante apenas para cuidar da segurança interna e da manutenção da ordem na casa. O alto comando havia distribuído combatentes para quatro frentes, incluindo o cerco de Tavares. Desde muito cedo o coronel havia recomendado atenção e reforço concentrado em Alagoa Nova e principalmente nos Patos de Princeza, povoado que fazia divisa com Pernambuco e onde morava a parentela do coronel.

Emiliano e os negros tinham descido a Serra do Livramento ainda no escuro. Três léguas bem esticadas tiradas no pé era muito chão e podiam não chegar cedo em Princeza. Passaram nas Areias com o sol já alto e se podia ver uma cinza recobrindo todo o céu e nenhuma nuvem, nenhum capote de nevoeiro coroando a serra. Por onde eles passavam, o povo se amontoava pelas calçadas, enchia a beira das estradas para ver a negralhada marretando o chão duro com suas alpercatas, as roupas empapadas de suor, os matulões a tiracolo. Emiliano na frente acenava aqui acolá para os conhecidos. No Carneiro, o negro parou com a turma diante de uma casa para beberem água.

— Onde é a cacimba?

— Ali – apontou o homem com o beiço. Em seguida, muito gentil, abriu o colchete de arame da cerca que dava acesso ao poço e disse que estava às ordens.

Eles puxaram a água com uma lata amarrada numa corda de agave que era presa a um pau segurado por duas forquilhas. Em seguida despejaram a água num tanque de cimento que ficava encostado na mureta onde as vacas bebiam quando o açude estava seco. Os negros fizeram fila no pé do tanque, cada um com sua cuia que trazia amarrada na bruaca. Eles bebiam a água com os dentes trincados, ao modo dos jumentos, para coar a água e assim as cabeças-de-prego e os ciscos ficarem entre os lábios, do lado de fora da boca. Acabada a água da cuia, era só dar uma cuspida com o adjutório de um assopro, que as porcarias iam para o chão. A última leva líquida do fundo da cuia servia para tirar a poeira dos olhos, do rosto, da alma. Quando todos estavam satisfeitos, Emiliano Tatajuba se adiantou do grupo e agradeceu.

— Que mal pergunte, vão trabalhar pra quem?

— Coronel Barbaciano.

Pelo modo da pergunta, o homem do beiço parecia querer resposta mais completa. Podia querer, mas não ia ter, porque Emiliano só sabia que tinha de ir ao Livramento e trazer os homens. Todos iam sabendo que era para tomar parte na guerra. Não sabiam exatamente para qual setor ou frente eles seriam mandados. Corria um boato de que iam cavar trincheiras em volta de Princeza. Depois se falou numa pedreira para a construção de uma muralha. Emiliano não tinha certeza de nada. Em tempos de guerra as coisas eram sempre assim.

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