Decrépitos, mofinos e invisíveis

Por Sergio Augusto
O Estado de S.Paulo

Aqui lançados quase simultaneamente, A Humilhação, o último Philip Roth, e Invisível, o mais recente Paul Auster (foto) – ambos saíram pela Companhia das Letras – surpreendem de forma diversa. A Humilhação é um Roth menor; Invisível é um Auster tope de linha. São obras bem características do estilo e das obsessões temáticas de cada um dos autores, que se tangenciam geograficamente (parte das duas tramas se desenrola em Nova York) e compartilham personagens afins (um ator cuja chama se apagou, um poeta cuja chama não se acende), profundamente afetados pelos caprichos do coração (com direito a triângulo amoroso), os transvios do desejo (incesto no romance de Auster, pedofilia na novela de Roth) e os infortúnios da velhice.

Simon Axler, o humilhado de Roth, é um ator de teatro de 65 anos repentinamente fulminado por um bloqueio irreversível. Não chega a ficar mudo como a atriz encarnada por Liv Ullmann em Persona, de Bergman, mas não consegue mais abrir a boca no palco. Perdeu o talento, a magia, e, em seguida, a ex-bailarina com quem fora casado vinte anos. O tratamento psiquiátrico apenas o ajuda a evitar que se mate no primeiro capítulo.

Recluso no interior da Nova Inglaterra, Axler tenta substituir o teatro por uma paixão inesperada (e enganosamente rejuvenescedora) pela filha de um casal amigo, 25 anos mais nova. Outros idosos do autor já passaram por situação idêntica, mas Pegeen Mike, além de ter idade para ser filha de Axler, é (e acredita que deixou de ser) lésbica. Embora o ator, no início, se sinta culpado por envolver-se sexualmente com uma mulher que conheceu ainda mamando no peito da mãe, o caso de pedofilia envolve outros personagens da história.

Quase um conto esticado de 120 páginas, A Humilhação retoma as meditações sobre a degeneração física, a velhice e a finitude de Homem Comum e Fantasma Sai de Cena, com muito menos vigor, imaginação e, sobretudo, densidade. Mas um Roth de segunda é sempre melhor que um best seller de primeira, ressalva que eu não faria duas ou três décadas atrás, quando Roth já era um dos grandes escritores americanos (hoje é o primus inter pares) e os best sellers tinham outro nível de qualidade; quando, enfim, “as pessoas inteligentes usavam a literatura para pensar”, como Amy Bellette observou numa carta ao alter ego de Roth, Nathan Zuckerman, no romance que há três anos o tirou de cena.

As feministas, e não apenas estas, invocaram com a visão estereotipada, caricatural, que Roth oferece do lesbianismo – restrição secundária se o livro fosse tão bom quanto os anteriores. Estereotipada ou não, Pegeen, “uma combinação mágica de xamã, acrobata e animal”, é uma personagem miúda, ao contrário, por exemplo, de Sybill, a companheira de terapia de Axler, traumatizada pelo abuso sexual de sua filha de oito anos. O atributo mais notável de Pegeen é o nome, inspirado na principal figura feminina da peça O Prodígio do Mundo Ocidental, de J.M. Synge. Axler faz dela um arremedo transexual de Galateia (ou Elisa Doolittle, para ficarmos na dramaturgia irlandesa) e Judy Barton, a verdadeira face de Kim Novak em Um Corpo Que Cai.

A despeito das alusões a Synge, Shaw e Hitchcock, o supremo referencial da novela é a própria obra de Roth, farta em decrépitos e mofinos, a sua turma do fraldão, cheia de suicidas em potencial e manqués (Mickey Sabbath, Zuckerman), acrescida agora de um bem-sucedido avatar de Tréplev, o tchecoviano autor teatral de A Gaivota que se matou com um tiro antes de a cortina descer pela última vez.

Se também terminasse com um suicídio, Invisível seria um Bildungsroman, um romance de formação, na linha de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Adam Walker, o falso Werther de Auster, ainda é um jovem aspirante a poeta, estudante da Universidade de Columbia, na Nova York de 1967, quando o conhecemos nos primeiros parágrafos do livro, prestes a tomar a primeira das três lições de amor que o marcarão para o resto da vida. A primeira com um estranho casal de estrangeiros formado por um professor visitante suíço, perverso como Mefistófeles, e sua bela musa francesa; a segunda com a irmã Gwyn; a terceira com uma parisiense livresca chamada Cécile.

Dividido em quatro partes, usando três narradores e quatro diferentes perspectivas narrativas, Invisível tem uma estrutura sinfônica: um allegro primaveril, um scherzo estival, um andante outonal e um adágio invernal. Mistura gêneros, alternando intrigas sentimentais, criminais e biográficas com memórias e parênteses metaficcionais, quase como uma celebração (ou uma paródia) do estilo austeriano de contar histórias. Auster, não custa lembrar, também estudava na Universidade de Columbia em 1967, traduzia poesia provençal e morou uns tempos em Paris.

O tema da invisibilidade às vezes soa como um tributo a Enrique Vila-Matas, amigo e alma irmã de Auster e um dos autores que Cécile escolhe para ler numa viagem ao Caribe. Não sabemos qual livro do espanhol ela guardou na mala, mas minhas suspeitas recaem sobre Doutor Pasavento. Cheguei a imaginar um encontro fortuito de Walker com o “desaparecido” Pasavento, na rue Vaneau, casualidade perfeitamente normal num romance de Auster, no qual tampouco soaria absurda ou gratuita a revelação de que Margot, a taciturna e ninfômana musa que encalacra a vida de Walker, é filha de Margot Peters, a aspirante a atriz de Riso no Escuro, de Nabokov. A vida, para Auster, é um livro invisível dentro de outros livros igualmente invisíveis.

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