Decretado o fim do romantismo?

Dia dos Namorados e o psiquiatra Flávio Gikovate decreta o fim do amor romântico. Segundo o médico, já com 41 anos de clínica e autor de oito livros sobre o tema, a vida de solteiro é um caminho viável para a felicidade. E afirma, em entrevista a Veja.com: “Sempre digo aos meus pacientes: se você tiver que escolher entre o amor e a individualidade, opte pelo segundo”.

É duro de ler sem massacrar as migalhas de esperança em uma civilização mais afetuosa e solidária, ou pelo menos em um admirável mundo novo, aquele mesmo de Aldous Huxley. É lastimoso acreditar nessa teoria mesmo quando o individualismo dos novos tempos já avança sobre as fronteiras do bem estar coletivo e as grades são portais entre dois mundos distintos.

Segundo o psiquiatra, as pessoas casadas e felizes são uma minoria. Não passam de 5%. Vivem relacionamentos possessivos em que falta confiança recíproca e sinceridade. Algum tempo depois do casamento até se consideram bem casados porque ganham filhos e se estabelecem profissionalmente. Depois, se deparam com outra realidade e a decisão drástica de mudança. Normalmente é a separação.

Sob análise fria, talvez seja mesmo o retrato do tempo-hoje. A cada dia aumenta o número de casais que optam pelos quartos ou até casas separadas, como maneira de preservar o vínculo. E Gikovate esclarece que o individualismo não traduz egoísmo ou descaso. Para ele, é uma maneira de aumentar o conhecimento de si próprio e criar condições para um avanço moral significativo.

“Há muitos solteiros felizes. Levam uma vida serena, sem conflitos. Quando sentem uma sensação de desamparo, resolvem a questão sem ajuda. Mantêm-se ocupados, cultivam bons amigos, lêem um bom livro, vão ao cinema. Com um pouco de paciência e treino, driblam a solidão e se dedicam às tarefas que mais gostam”. E ressalta: “Os solteiros que não estão bem são geralmente os que ainda sonham com um amor romântico”.

Se o psiquiatra comentasse isso em uma missa, certamente o padre diria: “Palavras da salvação”. Parece uma teoria pronta, definida e sem flexibilidade alguma. Não acho que seja regra. Tampouco premissa. Não faz muito tempo, Vinícius de Morais dizia que “é impossível ser feliz sozinho”. As palavras do poetinha já caducaram? Mas é bem verdade que Vinícius nunca encontrou um grande amor. Ou encontrou vários.

O também renomado psiquiatra e autor do best seller A Cura de Schopenhauer, Irvin D. Yalom deixou claro no livro a necessidade dos relacionamentos sólidos, baseado no amor, na compreensão das diferenças e dos limites de cada um – uma quebra do pensamento do próprio filósofo alemão. Para Schopenhauer, os relacionamentos e os desejos só levam à dor e ao tédio.

Talvez eu tenha desbancado Lulu Santos e seja o último romântico. Ainda acredito no amor como base fundamental de uma revolução do comportamento humano. Mas o pensamento de Gikovate é demasiado realista. Talvez a raça humana precise de uma era de solidão para reaver conceitos, criar a tal condição para uma evolução ética e só então se entregar verdadeiramente ao amor, à compaixão.

Mas por hoje, pelo menos hoje, admiremos a lua, que ainda emerge do mar. Os cenários românticos são praticamente os mesmos de outrora. Talvez um poste substitua um candeeiro. Nada demais. E Renato Russo exagerou: ainda há, sim, palavras a serem ditas, sem clichês, sem repetição e com a voz da pureza dos sentimentos. E nisso sou convicto: ainda há gentilezas no mundo. E gentilezas se traduzem no amor sutil. E eu pergunto: será preciso instantes de solidão para compartilhar esse amor?

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Cris 3 de Julho de 2008 0:21

    Olá,

    Sem entrar no mérito da discussão, vou apenas transcrever a letra de uma música cantada por Marisa Monte. No show ela disse que foi uma espécie de “resposta” bem humorada à afirmação contida na música de Tom Jobim (É impossível ser feliz sozinho).

    “Você me deixou satisfeito
    Nunca vi deixar alguém assim
    Você me livrou do preconceito de partir
    Agora me sinto feliz aqui

    Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho?
    Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho
    No meu caminho não tem pedras, nem espinhos
    Eu durmo sereno e acordo com o canto dos passarinhos

    🙂

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