Degradar e destruir

Por Mário Sergio Conti
FOLHA DE SÃO PAULO

Arnaldo Jabor apresenta o seu novo livro, “O Malabarista”, lançado pela editora Objetiva, como uma coletânea de seus melhores textos, que ele publica há mais de duas décadas em jornais. Como a maioria deles já foi recolhida antes em livros, o resultado é o suprassumo do que fez na imprensa, os escritos que considera “relevantes e dos quais me orgulho”.

Relevância há, mas negativa: o livro mostra a deterioração de um artista de talento, que deixou de ser crítico cáustico da ignorância filisteia para se tornar o seu porta-voz. E orgulho não deveria haver porque o que ele apresenta é subliteratura naturalista.

Jabor começou a fazer crônicas nos anos 1990 porque precisava sobreviver, e o cinema nacional entrara numa de suas crises cíclicas, inviabilizando o seu trabalho. Ele trouxe para as suas colunas, como notou Ismail Xavier, alguns dos procedimentos do cinema novo.

Com distanciamento irônico, espetacularizava os feitos de Collor e sua gangue, vendo-os como figuras patéticas e ferozes da modernização conservadora.

O ímpeto apocalíptico teve um curto circuito no governo tucano, ainda segundo Ismail Xavier. Jabor aderiu ao governo e passou a advogar a conciliação em torno de Fernando Henrique Cardoso. O prisma da desqualificação passou a ser pessoal e utilitário, reduzindo o alcance da crítica.

“O Malabarista” não traz nada sobre os fatos políticos do dia a dia. Mas há uma sentença que ecoa aqueles tempos: “Eu me sentia um FHC tentando conciliar o inconciliável”. O contexto da frase mostra mais o atoleiro em que Jabor se meteu do que ilumina a cena brasileira.

Ela aparece numa crônica em que Jabor conta que tomou uma canja de galinha num dos restaurantes mais caros de São Paulo. Achou o preço exagerado e reclamou com o garçom e o maître. Esse fato, corriqueiro na vida de um parvenu, vira um chorrilho de chofer de táxi malufista contra tudo e contra todos. O tom geral é o da cantilena que o Brasil não tem jeito, é o fim do mundo, isso o governo não vê.

Como Jabor cultiva o ribombar estilístico, os clichês têm brio altissonante. O preço da canja é “uma prova do grande pudim inercial do nosso destino”; “não há no Brasil desejo de democratizar o consumo”; “preços baixos prejudicam o luxo do privilégio”; se a sopa fosse barata, “não teria graça” porque “até os pobres poderiam comer no Antiquarius”.

Ao se colocar como protagonista da comédia de costumes, Jabor joga com a ambiguidade da situação, na qual todos são desqualificados. Mas como é o intelectual quem escreve, e não o garçom, e ele tem consciência dos fatos e de si mesmo, Jabor paira sobre o texto, degradando e destruindo quem está abaixo. Aos pobres, por serem pobres. Aos ricos, por não terem consciência. Ao Brasil, por ser o que é.

A operação de se pôr entre aspas, “au-dessus de la mêlée”, não propicia que se veja a sociedade e os seus tipos de cima. Ao contrário. Jabor afunda em si mesmo e tenta provar que é interessantíssimo. Eu, eu, eu, eu: “O Malabarista” não sai disso. É obscenamente egocêntrico.

Poderia ser de outro jeito? Claro que sim: “Opinião Pública”, “Tudo Bem” e “Eu Sei que Vou te Amar” são filmes corrosivos, que mostram uma enorme disposição de entender os outros, de expor a sociedade.

Entra aí uma questão de meios e escolhas. Os filmes, feitos em condições difíceis, eram arte que captava em muitos momentos o espírito do tempo, do qual se alimentava. Já o colunismo, doença infantil do jornalismo, é uma atividade maquinal que desvai facilmente para o desleixo e o personalismo.

Gostosamente, Jabor escolheu o papel de bufão da burguesia. Dispara disparates e é elogiado pelo nosso chofer de táxi. É possível até ouvi-lo: “O seu’ Jabor não tem papas na língua!”.

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 × um =

ao topo