A delicada mitologia de Alberto Bresciani

Valeu abrir uma garrafa de bom e encorpado Malbec argentino ao iniciar (e outra, ao terminar) a leitura do novo livro de Alberto Bresciani, poeta e magistrado nascido no Rio e radicado há quase trinta anos em Brasília – terra em que, paradoxalmente, a poesia tem se firmado, forte e consistente. A obra poética intitulada “Sem passagem para Barcelona” (José Olympio Editora, 2015) mantém elos de comunicação temática com o livro anterior, o seu primeiro “Incompleto Movimento”– também publicado pela José Olympio, ano de 2011. Vai além, no entanto, quanto à diversidade temática – que contém (epi)centro notável – e quanto à intensidade que exsurge da sua escolha e labor; também quanto à expressividade e à entrega poética e seus desates, tudo lapidado em formas meticulosas e de raras e eficazes concisão e precisão.

O livro se revela complexo e envolto em ambiente de densidade engenhosa, cheio de elementos inusitados, abrindo-se aos poucos e cuidadosamente (parecendo haver mesmo uma janela de vidro temperado, por onde o autor nos vê em labirinto), entre contrastes potentes, como os aromas do vinho intenso. Não é fácil, porém realizador, percorrer um livro que é, ao mesmo tempo, revelação e desejo de ocultar, uma espécie de “jogo de esconde” que, ao final e felizmente, muito mais permite conhecer o poeta e sua alma (que não é pequena) do que deixá-la guardada. O poeta se vê em meio a riscos e os corre, sabedor de que a busca nem sempre conduz a uma casa confortável e segura. A princípio, parece haver uma acomodação diante do inexorável da existência e do seu fim. Aparenta se dar um distanciamento irônico, uma ausência calculada, como se essa possibilidade de fuga fosse eficaz. O poeta sabe que não é bem assim. E termina por encarar e por nos fazer encarar de frente a (nossa) própria sorte. A própria morte que se estampa em tudo. Em todos.

E em todos os poemas Bresciani joga com os perigos e com a hábil delicadeza de quem desmonta (ou monta?) bombas. Aquelas do desejo que faz manter a vida e anuncia alguma irônica salvação (“Não sei quando/sobrevivi” – poema “Quedas”), mesmo que crítica, mesmo que precária e cheia de tramas, lacunas, buracos, medos, perdas (“Do outro lado/tudo é passado” – poema “Sem sinaleiro à meia-noite”), ardências, delírios, gozos, sofrimentos, enigmas, paixões, rituais, abismos, distâncias (“Talvez voltar mas voltar é pior” – poema “Radical”). Não há como manter disfarces por muito tempo. As personas caem e se exibem os olhares que jogam luz sobre a realidade crua e plena de sombras e claros-escuros. Tudo se mostra como é, com suas fraturas múltiplas, tragicidade, mesmo que recobertas por aparente bom comportamento. A cena é ampla e o ritmo firme, em P & B ou com cores derramadas sobre o cinza. É poesia e é olho.

Agarrar-se à oportunidade da poesia, de ver e revelar os códigos da poesia totalmente nua e que há em tudo: pensamentos, sentimentos, enigmas, coisas, animais, mulheres e homens. Há aí uma fauna, uma mitologia particular, rituais sagrados da elaboração poética, que se aproximam como salvação única a manter a esperança em meio à desconstrução iminente. Talvez seja essa a meta, a casa sagrada buscada por Bresciani. Talvez seja essa a escolha (“essas escolhas são papel de traça” – poema “Contraste”).

Há um oásis prometido em meio às palavras. É disso que o poeta nos fala. Parece ser um lugar desértico, solitário, mas jamais será. Lá é onde a palavra “casa” casa com o belo. E o (ótimo) poeta nos propicia assistir a tudo isso. E a participar, como se nós mesmos pudéssemos encontrar a beleza perdida e um dia reencontrada. Aliás, podemos sim, numa nova chance de vencermos ou ao menos diagnosticarmos os dilemas da incomunicabilidade humana, quando lemos e viajamos “Sem passagem para Barcelona”.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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