Delírio com coisas reais

As coisas inacreditavelmente banais são aquelas que, um dia, pensamos quase inatingíveis. Um dia, quando crianças, o algodão-doce só era visto, tocado e comido uma vez por ano. Quando vinha a festa do padroeiro, o parque de diversões e o homem do algodão-doce com a sua máquina rodopiante. E nós, avoantes e avoados, ficávamos horas “curiando” o homem e a sua máquina. Ele punha o algodão-doce num papel de embrulho e saíamos felizes a comer aquela coisa deliciosa e difícil. Aí, a gente cresce, o algodão-doce existe “a dar com pau”, dentro de sacos com uma bola de encher ao fundo. Quando crescemos, ficamos enjoados do algodão-doce que, a toda hora, nos gritam da rua.

As coisas inacreditavelmente banais são aquelas que, um dia, pensamos únicas. Quando éramos crianças, o atávico camaleão, mais antigo que a morte, só aparecia quando lhe dava na telha aparecer. Fascinados, esperávamos por ele entre as folhas de bananeira. Delirávamos à mais rápida visão do bicho adorado. Com cabeça de dinossauro, escamas reluzentes de peixe abissal e corpo colorido de serpente gorda, ele se estendia um pouco ao sol e desaparecia, deixando-nos com a melancolia da sua essencialidade.

As coisas inacreditavelmente banais são os lugares que pensamos muito distantes. Alguns brinquedos, quando éramos crianças, acumulavam-se em lugares que não existiam perto de nós e muito pouco visitávamos. Gangorras, balanços, escorregos, pedalinhos. Uma vez a cada tempo incalculável, brincávamos lá naquelas lonjuras. Então exultávamos de felicidade com o que, quando crescemos, às vezes entedia.

A caixinha de música com a bailarina rodando em cima era o objeto mais raro existente na face da terra. Todos os sonhos de consumo se conduziam para ela. Toda a capacidade de fascinação se concentrava na música mal tocada por uma geringonça incompreensível. Toda a beleza do mundo estava na caixinha que, quando nos tornamos adultos, se multiplica nas vitrines que olhamos sem interesse.

Delírios cumprem a lei da relatividade, no tempo e no espaço. Uns só deliram com coisas mirabolantes ou, pelo menos, com o que imaginam ser coisas mirabolantes. E aí é que está: mirabolante, delirante, é aquilo que acreditamos ser capaz de nos fazer delirar. Inclusive, as coisas reais e até as coisas banais. Canta Belchior, na música “Alucinação”: “A minha alucinação é suportar o dia a dia/ E o meu delírio é a experiência com coisas reais.”
Desejávamos ardentemente algo, para depois senti-lo tornar-se banal, inacreditavelmente banal. Às vezes até indesejável. O algodão-doce, os brinquedos das lonjuras, a caixinha de música, nada disso fascina mais. De todos os desejos, restou a espera pela visão fugaz do camaleão entre as folhas. Esse que se mantém inalcançável. Intenso, atávico, súbito, como esses desejos intensos e atávicos que, inacreditavelmente se desfazem num relâmpago…

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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