“Delírio Urbano” tem revival em Natal

Entre as reflexões atuais se ainda existe ou não poesia marginal, se existe ou não literatura alternativa, se existe arte conceitual libertária, se existem elos de vida e comunhão entre os artistas e com o povo, chega uma novidade antiga em Natal e que transforma a cena ao menos por algum instante valioso. Não se sabe ainda de qual nave espacial desceu esse delirante bólido apontado contra a cara da mediocridade repetitiva e da empoeirada burocracia intelectual da terrinha, mas ele chegou a toda velocidade, em formato geométrico e cores vivíssimas.

Reunidos num livro bem empacotado e com conteúdo magnífico – na continuidade da aventura contracultural que já vinha desde os anos 60 – fanzines da década de 80, além de outros estratagemas bélico-estéticos pensados e desenhados e escritos ardorosamente por artistas do naipe de Afonso Martins, Carlos Astral, João da Rua, Jota Medeiros e Novenil Barros, fizeram e refizeram jorrar a mais pura criatividade encontrada no asfalto e nas pedras pontiagudas potiguares, desde as da Fortaleza dos Reis Magos e ar(re)dores até as que erguem os novos edifícios em meio a especulações de toda ordem e desordem. Tá vendo aquele edifício, moço?! No “Edifício Viver” muita gente havia e há. Contracultura.

Contraculturas. E se vai refletindo sobre o seu sentido libertário, experimentalista, contestador. Contra dogmas e caretices. E a favor da arte.
Por trás dos óculos escuros, diante dos raios solares a atacarem a cidade todo-santo-dia, olhos incautos ou incultos e de fracas retinas e rotinas natalescas terão que se desdobrar para entender os sinais mais enfáticos da Artenossa. No entorno desse mote e arquitetura cênico-poéticas, encontram-se muitos outros nomes que merecem total relembrança e contínua atenção, pelo poder de revolver a cena: Falves Silva, com suas imagens de elevado e sagrado grau erótico vulvoanatômico; Marcelus Bob, com os humanóides que um dia o abduzirão; Eduardo Alexandre, o Dunga, com uma Galeria do Povo verdadeira, autêntica, real; Carlos Gurgel e suas formulações criativas e certeiras; Augusto Lula e sua inquietude imaginativa intraduzível; Aluizio Mathias e seus talentos circulares – tanta gente que não caberia neste texto, cartazes colados e descolados no tempo e no vento de uma Natal que cresce e que esquece um monte de gente. Natal até já podia ter dimensão universal. O idealismo dessa turma delirante quis isso. E quer. Quase todos vivos, graças e apesar de tudo que foi vivido.

Arte pura. Arte até ingênua, até certo ponto. Sonho alto e inalcançável, também inquebrantável de mudar a humanidade, de metamorfosear o mundo. Tudo o que tinham em mãos, além do desejo pulsante. Boa parte de todo o precioso acervo visual, cartazes, fotos, palavras mimeografadas/xerografadas, tudissaí impregna de magia as páginas desse belo “Delírio Urbano”, retraído até então, mas sempre lembrado e agora emoldurado entre capa e sobrecapa da mais bonita e mais inquieta – porque terá dobraduras e desdobramentos, como um origami – edição do Sebo Vermelho.

Ser do contra se encontra aí, nesse desafio encadernado. Ser do contra significa ser a favor. A favor de uma arte que se cria/va e se mobiliza/va coletivamente, sem traços ou ranços individualistas, a não ser os postos no saudável e orgulhoso “eureka!!!” gritado em Siracusa e Natal nua ao fim do dia e de cada ideia depois socializada, compartilhada. Foi isso o que me disseram Afonso, Jota e Falves, quando mastigávamos, juntos com um bocado de amigos, o antropofágico jerimum alaranjado e as películas transparentes de bacalhau mais o quiabo picado e a carne branquinha dos caranguejos cozinhados por Abimael. Doce antropofagia que mistura pensamentos e ações humanas com a carne do caranguejo-uçá, os fiapos do peixe ancestral e os (papos) jerimuns de uma noite de quarta – em meio a performances de altos voos e voltagens dos “Poetas Elétricos” e da Banda “Florbela Espanca” (ainda e mais viva) – ou de um sábado pela manhã de sol amarelo forte, lá no bar de Zé Reeira. E tá tudinho e todomundo lá no livro. Mesmo os que não estiveram, estão e estarão, nesse livro vivo. Basta (se) procurar e (se) encontrar.

 

Lívio Oliveira – poeta – livioalvesoliveira@gmail.com

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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