Demétrio Diniz: 20 anos de atividades literárias

De imediato a história me sacudiu de longe.
Me empurrou praquele sítio, cuja enorme cancela,
como duas páginas, se abriu na minha frente.

Aldo Lopes in Solidão Nunca Mais.

Estivemos recentemente, eu, o jornalista Sávio Hackradt e os escritores Aldo Lopes e Manoel Onofre Júnior, batendo um papo literário com o escritor Demétrio Diniz, sob o olho de uma câmera, para compor documentário em vídeo, dentro de um projeto da Academia Norte-rio-grandense de Letras, espécie de filmoteca da literatura potiguar.

A ocasião foi muito propícia, pois em 2016 comemoram-se vinte anos do lançamento do primeiro livro de Demétrio Diniz, que estreou como poeta com a obra “Um homem sem poesia”, em 1996. Ao término da conversa, vieram-me à mente as famosas palavras de Fernando Pessoa: Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso; viver não é preciso.” Quero para mim o espírito desta frase, transformada. A forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Rememorando a frase, cheguei à conclusão de que Demétrio Diniz é um homem que nasceu para escrever, acima de qualquer outra coisa, e a literatura é a própria vida dele.

Não há como negar que Demétrio teve uma carreira poética bem sucedida, dentro da realidade local, inspirando-se quase sempre na sua terra e na sua gente, mas, é importante frisar que a sua poesia se expressa em uma linguagem universal. A obra poética do escritor, que nasceu em Alexandria (RN), compõe-se dos livros “Passarás” (1999), “Haveres” (2004), “Ferrovia” (2007) e “Beleza Distante” (2010), além do livro de estreia; trabalhos que já seriam suficientes para deixar registrada sua passagem em nossa história literária.

Essa obra é marcada sobretudo pela exploração máxima da vida, no que ela tem de mais humano, com o mínimo possível de palavras. O eu lírico descreve personagens, dramas, questionamentos, imagens, memórias, tudo construido com o trabalho artístico da palavra. Por vezes – nota-se – a poesia se aproxima da própria prosa.

Em 2012, deixando as musas de lado, Demétrio Diniz encaminha-se pela ficção e já se revela um bom contista com a obra “Sob o Céu de Natal”. Mas se havia alguma dúvida quanto à qualidade do seu conto, isso vai cessar com o lançamento do seu segundo livro, “Idas e Vindas de São Serapião” (2013). Em seguida veio “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”, outro êxito, de 2014, o que faz o escritor ficar no mesmo nível de importantes contistas do Estado.

Ao fim da conversa literária com Demétrio Diniz, percebi que ele é muito mais do que um ficcionista, ou ex-poeta, como ele prefere. Demétrio é um escritor com muitas virtudes, sobretudo quando o assunto é literatura, conhecimento e humildade. Leitor de grandes obras, homem inteligente, bem informado, proletário das palavras, digno de pertencer a qualquer instituição literária, inclusive a Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Como já disse o poeta e crítico literário Ezra Pound, “a literatura é a linguagem carregada de significado”, e isso Demétrio Diniz tem de sobra. Num Estado onde surgem, todo dia, novos escritores, sobretudo poetas, com seus poemas vazios, escritores do nível de Demétrio Diniz servem como consolo e dão esperança de que a nossa tradição literária vai continuar, e a literatura de alta qualidade sempre vai prevalecer.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. José de Castro 28 de junho de 2016 23:43

    Parabéns, Thiago Gonzaga… Bom saber que o RN é mais que uma terra de poetas… Que tem bons contistas também… Parabéns ao Demétrio Diniz pela sua prosa de qualidade (já o li aqui no SP)…. (e por falar nisso, no próximo número de O GALO deverá sair um conto meu… depois, confira lá…) Eu também gosto de me arriscar, vez em quando, nesse gênero… Bom ter escritores como Demétrio Diniz, Nelson Patriota, dentre outros… A gente vai aprendendo… Abraços…

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