Demétrio Diniz e o conto brasileiro contemporâneo

“Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!”
Belchior, cantor e compositor cearense.

No dizer do sociólogo, literato e professor Antonio Candido, em “Literatura e Sociedade”, “se não existe literatura paulista, gaúcha ou pernambucana, há sem dúvida uma literatura brasileira manifestando-se de modo diferente nos diferentes Estados”. Importante saber que há também, na verdade, diferentes formas de expressão literária, e muitas vezes injustamente ignoradas, sendo praticadas nas diversas localidades de um país com dimensões continentais, como o nosso. Com esta reflexão, compreendemos melhor a importância de trabalhos literários como “Traição e Morte na Fortaleza da Barra” (Ed. Sarau das Letras, 2016), livro de contos de Demétrio Diniz, escritor que vem publicando recentemente uma obra ficcional bastante interessante, mas que corre o risco de ser ofuscada pela falha na distribuição dos livros, bem como pelo fato de o autor não morar num grande centro. Como disse o escritor Rômulo Wanderley, em seu “Panorama da Poesia Norte-rio-grandense”, jamais se escreverá corretamente a História da Literatura Brasileira enquanto não se fizer o exato balanço das nossas literaturas regionais. “Muita coisa, da maior importância cultural, morre na província não conseguindo ultrapassar os limites que injustamente a separam dos grandes centros culturais. Autores de inestimável valor vêem suas obras fulminadas por uma tremenda conspiração de silêncio, apenas porque não trocaram a placidez da vida regional pelo tumulto das grandes metrópoles”.

“Traição e Morte na Fortaleza da Barra”, traz em seu contexto, pistas do local de produção da obra, através de pelo menos dois contos, o que dá titulo a obra e “A Morte do Presidente Parrudo”, narrativas históricas ambientadas em Natal. Além de expressar o seu ponto de vista sobre fatos controversos, o escritor preserva valores, como nos contos citados, estabelecendo um diálogo com os seus contemporâneos, ao mesmo tempo em que confere à sua obra um caráter universal.

Evidente que, através do texto literário, de certo modo, entramos em contato com a nossa história e passamos a compreender melhor o nosso tempo, nossa trajetória; a historia coletiva é recriada por meio de histórias individuais, e nós leitores, interagimos com o que lemos. Somos tocados pela experiência da leitura.

O livro de Diniz contém narrativas variadas. Afora os contos de caráter histórico, inclui, por exemplo, “Selfie”, conto em que o narrador parece contar a crônica de um dia do próprio autor na cidade de Roma, com um final melancólico: “Caminho com a sensação antiga de não pertencer a lugar nenhum”. Em “Não faça mal aos pombos”, conto que mistura humor e drama, o personagem principal, que também é de Natal, está a passeio em Lisboa, amargurado, curtindo a lembrança do casamento fracassado.

“França Aguiar ainda era jovem, andava pelos trinta anos. Babi, sua mulher, o esperava na rodoviária, e no trajeto para casa paravam no Bar dos Pombos, ondem comiam pombos fritos. Ela o buscava desalinhada, descalça , com má vontade, como se estivesse com sono, ou cumprisse obrigação desagradável. No bar, entre um pombo e uma cerveja, confessou: estava apaixonada por um motorista de ônibus…”

Outros bons momentos são encontrados no livro, como nos contos, “O irmão Dió”, “Aline”, “O exilado”, dentre outros.

Falhas? Algumas, talvez. Um ou dois contos, como o “São Demétrio e Outras Estampas” poderiam ter ficado de fora. Por qual motivo? Apenas meu gosto pessoal. Ressalvo que nada nesse conto compromete a obra, mas é inegável que ele tem bastante semelhança com a crônica, e, também se aproxima da memorialística. Se bem que, em se tratando de gênero literário, dois dos nossos maiores escritores, Mário de Andrade e Machado de Assis deram definições interessantes para o conto: Para o primeiro, conto é tudo aquilo que o autor acha que é conto. Para Machado, “o tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias. É naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos que os torna superiores aos grandes romances”. Como se vê, mestres da literatura já tentaram desvendar a natureza deste gênero literário caracterizado pela pequena extensão.

Por fim, os aplausos vão para o conto “A Morte do Presidente Parrudo” que, como disse, sobre outra obra, o escritor argentino Júlio Cortazar,é capaz de nocautear o leitor, não apenas pelo seu impacto, mas sobretudo pela sua construção e estilo.

Fica evidente após a leitura de “Traição e Morte na Fortaleza da Barra”, esta verdade: para que o texto literário ganhe vida, precisamos habitá-lo, ou seja, temos que aceitar o convite do autor e entrar sem receio no universo da ficção. E a ficção de Diniz não deixa nada a desejar em relação a grandes autores de língua portuguesa.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. aldo lopes de araujo 10 de setembro de 2016 22:53

    Olá Thiago, gostei muito de sua análise crítica a respeito do livro de contos de Demétrio Diniz. Gostei muito do conto que dá título ao livro. Aquela cena dos soldados levando o corpo do governador é de uma dramaticidade incomum. Além deste, os contos que mais me impressionaram foram “Irmão Dió”, “Cartazes Antigos” , “São Demétrio” e “”Aline”. Em todos os contos desse livro nos deparamos com “a busca pela concisão, a frase certeira, a palavra exata. Nem mais nem menos”, como bem frisou Tácito Costa, em apresentação.

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