Demolir é preciso

Por Lúcia Guimarães – O Estado de S.Paulo

Uma façanha correu mundo no fim de semana, durante os Jogos de Inverno de Sochi, e não se passou numa montanha coberta de neve ou num rinque de patinação. A imagem viral era de um banheiro na vila olímpica onde o atleta americano Johnny Quinn, depois de tomar um chuveiro, enfrentou a maçaneta travada. Munido de seu bobsled, o latagão texano demoliu a porta do banheiro. Sua primeira providência, claro, foi pegar o celular e registrar a vitória fora da competição.

Temos sido brindados com imagens de latrinas russas, algumas construídas lado a lado, na inacabada vila olímpica de Vladimir Putin. Hahahahaha, pipocam as gargalhadas digitais em todo o mundo. Esses russos são mesmo uns incompetentes, corruptos e o que mais? O que mais, não importa.

A certa altura, o ex-campeão mundial de xadrez Gary Kasparov, hoje um importante ativista de direitos humanos na Rússia, passou um sabão na imprensa estrangeira. Kasparov perguntou se iam sair do humor de banheiro para cobrir o que se passa em seu país, como a repressão violenta e a corrupção exemplificada nos preparativos para Sochi.

Enquanto desperdiçava tempo olhando um blog sobre os exóticos banheiros, eu me lembrei de um cômico anarquista, um cineasta que satisfez sua obsessão com a Rússia de Guerra e Paz e Os Irmãos Karamazov. Em A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death), de 1975, o protagonista vivido por Woody Allen é um patriota russo que filosofa muito mais do que defende a pátria. Ele acaba executado.

O que me leva ao pelotão de fuzilamento organizado por parte da mídia americana para receber Woody Allen assim que terminar seu sumário julgamento no tribunal da opinião pública, um poder letal na era da mídia social. Um poder que, como lembrou a romancista Joyce Carol Oates, existe apenas para satisfazer os juízes e não para fazer justiça.

Aqui uma pausa necessária. Escrevi reportagens para este jornal desde que, no dia 1o de fevereiro, o colunista Nicholas Kristof, do The New York Times, cedeu seu blog para publicar a dolorosa carta de Dylan Farrow acusando seu pai adotivo de abuso sexual quando ela tinha 7 anos, em 1992. Notei leitores cuja opinião respeito especulando on-line se defendo Woody Allen. E respondo que não conheço a verdade, ninguém, além de Dylan Farrow e Woody Allen, sabe o que se passou entre os dois, o que torna o papel da mídia ainda mais perturbador.

Quanto mais me informei sobre o triste caso, mais repelente me pareceu o comportamento dos dois principais adultos envolvidos, Woody Allen e Mia Farrow. Li transcrições de depoimentos de psicólogos e testemunhas, a decisão de 33 páginas do juiz nova-iorquino que espinafrou Allen e negou a custódia de seus filhos com Mia Farrow. Ao final, tive vontade de tomar uma chuveirada.

Mas a mídia norte-americana se investiu do papel de criminalizar a imoralidade. Passou a semana jogando lenha na fogueira de uma caça às bruxas instalada na imaginação coletiva, horrorizada com a carta de uma jovem detalhando não só um crime, mas a quebra de um tabu, o incesto. Muitos defenderam, se não Woody Allen, um comportamento civil diante de um homem que, afinal, foi investigado há 21 anos e nunca acusado formalmente. Mas essa postura por natureza reflexiva é afogada pelo ruído dos que precisam punir o diretor, como se destruir sua carreira fosse devolver a dignidade a Dylan, que sem dúvida é uma vítima, embora não se possa saber do quê.

O problema é que, no ecossistema da mídia de hoje, é preciso tomar partido, se alinhar a um de dois extremos. Reconhecer a impossibilidade de chegar a uma conclusão não parece mais ser uma escolha. O próprio Nicholas Kristof é um jornalista afinado com esse novo sistema. Sua coluna é um palanque de cruzadas humanitárias, o que o levou a se aproximar e se tornar amigo da ativista Mia Farrow. Como ninguém é a favor da fome, do tráfico humano ou do abuso sexual de mulheres, alguns dos seus temas constantes, ninguém há de ser “contra” Kristof, um veterano ganhador de prêmios Pulitzer que decidiu se especializar no que os norte-americanos chamam de jornalismo de advocacia. Seu papel instigador no triste espetáculo da semana passada foi severamente criticado por leitores do The New York Times, não importa a verdade de Dylan Farrow. Ela poderia ter divulgado a sua carta, escrito um livro, se manifestado por conta própria.

Depois de tentar se blindar lembrando que Woody Allen proclama inocência, Kristof se referiu ao tributo ao diretor no Globo de Ouro com esta declaração extraordinária: “O Globo de Ouro ficou do lado de Allen, de fato acusando Dylan de, ou mentir, ou não ter importância”. A ignorância e a hipocrisia dessa afirmação desafiam a credulidade por ter saído no mais importante jornal da língua inglesa. Mas, ainda que se dê o desconto – apenas a opinião de um colunista -, acho que o comentário é emblemático desse episódio em que instituições, seja o poder judiciário ou a imprensa independente, são tratadas como a porta do banheiro de Sochi.

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