Depois da eleição

Depois de mais de 50 anos votando, elegeu o seu prefeito. Não o conhece, é fato, mas ele foi eleito e ela não é mais derrotada e não foi para aquele destino dos que não conseguem vitória. Anda de cabeça erguida como se fosse ela a eleita, a progenitora de todos os votos que deram ao homem o direito de governar a cidade por quatro, talvez oito anos.

Ele apertou sua mão e lhe disse obrigado. Ora, quanta humildade. Obrigado diz ela pela possibilidade de votar nele, de depositar sua confiança e afirmar veementemente que chegou a hora da mudança, do povo e das minorias. Acha essas palavras tão bonitas que fica lembrando mentalmente cada uma delas e, quando está sozinha, balbucia baixinho para ter certeza que sabe pronunciá-las.

O povo no poder, ora essa, quem diria! Quem diria que o povo um dia chegasse lá! O povo, ela, ela mesma, no poder? Parecia sonho. A vizinha estava chateada, o primo reclamara que ela traiu a família e que não ganharia nada com isso. Mas ela ria dele porque já tinha ganhado a eleição. Ela foi eleita porque o povo ganhou a prefeitura, o candidato vitorioso avisou no palanque e no rádio e o primo não ouviu porque foi derrotado.

Estava tão nítida a sua felicidade que ela sai usando as cores da campanha para seus afazeres cotidianos e nem se importa se a patroa era do outro lado: se achar ruim bote pra fora, ela agora tem prefeito. No final de semana, na comemoração da vitória, o viria novamente, ele acenaria, ela também, na multidão, e levaria pra casa aquele gesto. Beijaria a foto do candidato e dormiria contente.

Com certeza tudo melhoraria. A saúde, ele prometeu, não teria mais filas e ela tinha uma consulta para fazer. Também não teria mais dificuldade para pegar o leite e chegaria com a cabeça erguida para exigir prestígio. Queria gritar com a entregadora se a olhasse com aquela cara de antes – hei menina, meu candidato ganhou! Gritaria mesmo! Assim com todo o peito, só para que as outras soubessem em quem ela votou e o candidato eleito soubesse que tinha ela para gritar seu nome pelos cantos. Ela teria a proteção dele e, talvez, até quisesse ela como entregadora no lugar da outra, aí descontaria nas adversárias todo desprezo sofrido nos últimos cinqüenta anos.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 25 de Outubro de 2012 12:46

    Gostei J. Paiva, vamos nessa sexta feira fazer um debate massa sobre esse seu texto . Me aguarde e não esqueça da cerveja(a minha sem alcool) é claro. Inté…

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