Depois da queda

Por Lúcia Guimarães
O Estado de S.Paulo

Acabo de levar um tombo espetacular no Parque Riverside. Caí estatelada porque não vi um pedaço de madeira sob as folhas secas espalhadas no chão de asfalto. Um homem que empurrava um carrinho de bebê correu para me socorrer e, atordoada, notei o carrinho solto escorregando na pista inclinada. Naquela fração de segundo que parece uma eternidade, gritei, ainda deitada no chão, “seu bebê!”, mas a fração durou tanto que ainda fiz uma reprise mental da cena do massacre em Odessa de O Encouraçado Potemkin, o filme clássico de Sergei Eisenstein, em que a mãe, assassinada pelas tropas tsaristas, solta o carrinho do bebê escadaria abaixo.

Meu tombo teve consequências bem menos dramáticas. Cá estou com o tornozelo enrolado numa atadura, uma bolsa de gelo no joelho, reconstruindo a cena. No momento da queda, eu andava, ouvia uma entrevista com fones de ouvido e conferia os emails no celular. Não havia um neurônio desocupado para enviar um comando rápido ao meu tornozelo e evitar a torção e a queda.

Se você lê esta coluna em repouso, e não está secando o cabelo ou falando ao telefone simultaneamente, pode ser parte de grupo demográfico em extinção.

O hábito de desempenhar múltiplas tarefas e se encharcar de informação já foi levantado aqui mas, ao cair no parque, me dei conta de que não precisamos ficar prostrados.

Veja o exemplo de Hasan Elahi, um americano nascido em Bangladesh. Ele é um artista interdisciplinar e professor da Universidade de Maryland. Em 2002, quando desembarcava no aeroporto de Detroit, em pleno clima de paranoia pós-11 de Setembro, o nome do professor fez disparar um alarme nos computadores do Serviço de Imigração. Ele passou seis meses sendo convocado para interrogatórios, mas nunca foi alvo de uma acusação formal. Apesar de ser um obsessivo anotador de detalhes cotidianos, não conseguia convencer o FBI de que havia divulgado todos os seus passos e não estava escondendo alguma simpatia terrorista.

A experiência mudou a vida de Hasan Elahi. Ele decidiu dar o troco na mesma moeda. Começou a documentar cada momento de seu dia num website, inundando os serviços de inteligência com a invasão de sua própria privacidade. Ele criou um software que instalou no seu iPhone para transmitir imagens e a sua localização pelo GPS. Qualquer investigador do FBI na capital americana pode, se quiser, saber quando o professor Elahi foi ao banheiro em Maryland. Ou o que ele comeu no jantar, até ver a foto dos restos no prato. Não estou aqui para questionar os motivos de um agente federal e voyeur mas, de fato, não só no FBI, como também na CIA, há gente que continua acessando o site de Elahi. Ele sabe disso porque confere os Protocolos de Internet de quem vai visitá-lo e até detectou um internauta cujo endereço era o número 1.600 da Avenida Pensilvânia, antes de Barack Obama se mudar para lá.

Na semana passada, um novo escândalo sacudiu a polícia de Nova York. Um grupo de policiais trocou mensagens escatológicas e racistas sobre imigrantes caribenhos pelo Facebook. Um deles sugeriu reunir os caribenhos no dia de sua parada anual e jogar uma bomba para fazer limpeza étnica. A certa altura, havia 1.200 pessoas envolvidas no chat. De repente, a página sumiu. Mas os advogados de defesa de um homem negro acusado de porte ilegal de arma tiveram tempo de fazer uma cópia digital da conversa, recheada de despautérios proferidos online pelo policial autor do suposto flagrante com a arma. Resultado: os jurados absolveram o acusado. Mesmo com os documentos exibidos em público no julgamento, ninguém prestou atenção. O escândalo só provocou uma investigação oficial porque os advogados colocaram a cópia do chat no colo de um repórter do New York Times.

Estamos tão anestesiados pelo excesso de informação que, se um homem atravessar nu o imenso saguão da estação de trens Grand Central, na hora do rush, poderá ter seu exibicionismo frustrado pela autoabsorção eletrônica dos passageiros em trânsito.

Se o bombardeio constante de dados neutraliza e desvaloriza a informação, por que não Ocupar as mentes sobrecarregadas com uma guerrilha de informação seleta e relevante?

Alguém vai notar se a Lindsay Lohan sumir da homepage? Duvido. Não acredito que o número de acessos à página de uma fofoca sobre o Tom Cruise vai levar mais internautas a comprar o carro anunciado ao lado da foto do diminuto cientologista. Outro dia, disparei uma notícia sobre um personagem obscuro no planeta da Lindsay Lohan, mas um gigante no planeta de quem aprecia o melhor do jazz americano. Nunca registrei tantos acessos de página e tenho forte suspeita de que a maioria era formada por internautas emagrecidos com a dieta de Lindsey Lohan. Teriam ficado curiosos com o destaque dado ao não famoso, mas consequente?

Não sei se foi o tombo no parque, mas ando otimista com a possibilidade de Ocupar a Wall Street da desinformação.

Depois da queda

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